Coleção enquanto operação Instrumentos e metodologias para pensar a coleção e a restituição
Coleção enquanto operação
A construção do saber e a materialização do poder: agência e efeito(s)
As práticas de colecionismo, entendidas enquanto sistema estruturante do pensamento ocidental, têm definido o papel político, social e cultural do museu (Pearce, 1994). O modo como operam ativa relações entre a produção do conhecimento, a materialização do poder e a autoridade científica, sobretudo através dos processos de classificação e exposição. Assim, ao mesmo tempo que se constrói uma coleção, produzem-se também regimes de verdade — isto é, aquilo que se define como arte, património e conhecimento —, bem como sujeitos (quem cria e quem recebe o conhecimento) e narrativas.
Colecionar implica selecionar, retirar do uso, preservar, ordenar e expor (Pearce, 1994). Na génese deste processo encontra-se uma intenção que legitima a apropriação do objeto, retirando-o da sua circulação natural e transformando-o num símbolo (Clifford, 1985). Neste sentido, os objetos musealizados são reinscritos em regimes de valor, inteligibilidade e memória, passando a operar como mediadores. Este gesto, profundamente marcado pela relação entre identidade e posse, participa na produção do poder através do visível.
Trata-se, igualmente, de um exercício que convoca um imaginário específico, exigindo a participação articulada de quem o produz, do objeto enquanto mediador simbólico e daqueles que se envolvem nesse processo de imaginação controlada. Os museus tornam-se, assim, espaços de encenação dessas disputas simbólicas, sendo os museus etnográficos um exemplo particularmente evidente desse processo.
Pearce introduz uma perspetiva particularmente transformadora na construção do significado do objeto musealizado. A autora considera as diferentes etapas deste processo de significação, nomeadamente a construção de categorias, séries e relações comparativas, mas salienta igualmente a atribuição e a continuidade de significado conferidas ao objeto:
”(…) the processes of making meaning which enables us to analyse the nature of our relation to the objects which come from the past, and to perceive how they affect us, both individually in the dialectical creation of meaning and self, and socially in the ideological creation of unequal relationships. (…) and all these meanings, as we have seen, are the continuous re-creation of significance through the perpetual play of metaphor and metonymy, of signification and signifier.” (Pearce, 1994, p. 28)
Esta abordagem permite, por um lado, reconhecer a pluralidade de leituras possíveis a partir de um objeto e compreender de que modo o seu display, neste caso no museu, intervém na sua transformação ontológica. Por outro lado, acrescenta densidade e complexidade à conceção de significação e ressignificação do objeto musealizado. Nesta negociação do sentido e do significado, existem, naturalmente, graus de afetividade que são ativados. No caso dos objetos musealizados cuja origem se inscreve num contexto imperial, importa perguntar de que forma podem ser revisitados a partir de uma perspetiva crítica e desconstrutiva do seu legado colonial.
No contexto da discussão conceptual da restituição, a relação entre o afeto e o efeito produzido pelo objeto deve ser problematizada, na medida em que o afeto constitui um efeito da materialidade sobre os públicos e, por isso, participou na construção moderna da identidade.
Clifford, ancorado numa perspetiva que entende a coleção como instrumento de organização imperial do mundo, recupera, a partir de Baudrillard, o princípio segundo o qual colecionar corresponde também à construção de uma narrativa sobre si próprio.
Os museus etnográficos constituem uma expressão particularmente evidente desta conceção: constroem o “outro” à medida que constroem a si mesmos (Clifford, 1985). Esta conjuntura, motivada pela urgência disciplinar e institucional da Antropologia, converteu-se num meio de legitimação e evidência científica, assente numa lógica evolucionista e de progresso. Através da instrumentalização da prática do colecionismo enquanto sistema simbólico de domínio, constituíram-se gramáticas de conhecimento destinadas às esferas públicas das metrópoles colonizadoras e, simultaneamente, às instituições e administrações coloniais.
Se uma coleção configura um posicionamento epistemológico, também qualquer ação ou ativação posterior sobre ela representa uma atualização desse conhecimento, motivada pelo espírito do seu tempo.
A ambiguidade inerente a estas duas posições — quem observa e quem é observado — manifesta-se em diferentes configurações, tornando-se, em determinados contextos, mais evidente do que noutros. Ainda assim, os códigos e sistemas de representação que estruturam essas relações permanecem assentes no mesmo eixo de poder: quem domina e quem é dominado. Embora profundamente consolidados, estes mecanismos não são estáticos nem definitivos, podendo as suas fronteiras ser reconfiguradas precisamente porque resultam de disputas e negociações em torno do valor, do significado e da ocupação do espaço. Como afirma Clifford, “While these systems are institutionalized and powerful, they are not immutable” (1985, p. 244). Assim, a coleção e os seus dispositivos de representação devem ser entendidos não apenas como estruturas de autoridade estabilizadas, mas também como campos de tensão suscetíveis de revisão, deslocamento e reinterpretação.
Nesta perspetiva, cada objeto musealizado adquire sentido não por si mesmo, mas pela sua posição e pelas relações que estabelece com os restantes elementos da coleção (Baudrillard, 1968). Enquanto construções culturais, os objetos tornam-se simbolicamente densos, passando a integrar uma ecologia de valor e distinção legitimada pela instituição museológica (Weiner, 1994). Todavia, essa valorização é produzida, disputada e continuamente transformada. A circulação natural do objeto é estrategicamente interrompida e reinscrita num contexto de autoridade cultural que o reconhece como distinto.
Este mecanismo de retenção, descrito por Weiner (1994) como keeping-while-giving (p. 395), corresponde a uma lógica através da qual o objeto, embora retirado da circulação corrente, persiste numa economia de desejo, distinção e gosto socialmente construída. Trata-se de uma das dimensões fundamentais da relação entre o museu e o objeto: a imposição simbólica e identitária inscrita no próprio objeto leva-o a agregar um conjunto de ideias e valores mobilizados em nome de uma noção abstrata de coletivo. Neste sentido, a tensão entre a singularização do objeto — que sustenta a sua raridade, prestígio e valor conceptual e/ou material — e a sua posterior coletivização simbólica revela-se um caso paradigmático dos processos de construção de valor.
Na discussão em torno da restituição, a conceptualização do museu enquanto economia simbólica deve ser acompanhada pela problematização dos diferentes atores, das disputas pela legitimidade, pelo reconhecimento e, sobretudo, pela autoridade. O museu, enquanto dispositivo, organiza a alteridade ao mesmo tempo que produz a diferença e expõe regimes de exclusão (Clifford, 1985). Neste quadro, o sistema cultural é entendido como um esquema de propriedade coletiva e o património como algo que se possui e protege. Desta conceção decorrem questões ligadas ao nacionalismo, ao enquadramento jurídico e às disputas de poder. Trata-se de um gesto que inclui frequentemente um grau de usurpação que não é negociável. É, por isso, um campo de disputa.
«Comme les objets matériels survivent aux personnes, ils structurent les relations sociales dans le temps. Les objets possèdent leurs propres vies, leurs trajectoires, des biographies que l’on peut reconstituer.» (Turgeon, 2007, p. 25)
A proposta de Kopytoff, em diálogo com as reflexões de Appadurai (1986) sobre a vida social das coisas em circulação, permite integrar uma perspetiva holística, dinâmica e relacional entre os objetos musealizados, a sua origem e os contextos por onde circulam.
Ambos os autores defendem que o valor e o significado dos objetos estão em permanente movimento e são contingentes. Como escreve Kopytoff:
«A culturally informed (…) biography of an object would look at it as a culturally constructed entity, endowed with culturally specific meanings, and classified and reclassified into culturally constituted categories.» (1986, p. 68)
A transformação do objeto resulta, assim, de sucessivas apropriações e reconfigurações culturais. Neste sentido, os objetos podem ser entendidos como corpos vivos, marcando e deixando-se marcar pelos contextos em que se inscrevem. Ao mesmo tempo, como lembra o próprio autor, «Biographies of things can make salient what might otherwise remain obscure.» (Kopytoff, 1986, p. 67).
Laurier Turgeon propõe um exercício sistemático e analítico das diferentes abordagens sociais do objeto, do ponto de vista da construção da memória e do coletivo, ancorando-se precisamente nestes autores:
«Ces objets existent à partir de la chose elle-même et de l’intentionnalité collective que l’on place en eux, autrement dit du pouvoir d’action que l’on confère à leur fonctionnalité. Cette double condition les fait dépendre de ce qu’ils sont et des systèmes conventionnels qu’on leur attribue.» (Turgeon, 2007, p. 6)
Neste exercício, a identidade do objeto surge permanentemente redefinida pela atualização da sua posição, da sua função e do seu valor, assumindo uma condição inevitavelmente instável.

Ao mesmo tempo que se constroem os objetos, tal como Appadurai e Kopytoff os entendem, constroem-se igualmente as narrativas produzidas pelas instituições museológicas e pelos regimes de memória social (Turgeon, 2007). O significado e o valor dos objetos são, assim, socialmente construídos e culturalmente mediados, razão pela qual permanecem sempre passíveis de ser revisitados e ressignificados.
Os debates em torno da restituição têm permitido sofisticar a própria conceptualização do termo e das suas implicações. A restituição física e material continua a marcar o panorama político e diplomático entre antigas potências coloniais e antigos territórios colonizados. Contudo, por se inscrever sobretudo num gesto político, tem-se revelado menos eficaz no plano intelectual, simbólico e afetivo. É precisamente nesse espaço de ausência que têm emergido propostas alternativas, que procuram considerar, em primeiro lugar, a dimensão imaterial da restituição e, em seguida, alargar a própria conceção de património.
«Restitutions open up a profound reflection on history, memories, and the colonial past, concerning the history as well as the formation and development of Western museum collections. But just as importantly the question of restitution also bears on the question of the different interpretations or conceptions of cultural heritage, of the museum, and their various modalities of the presentation of objects as well as their circulation and, in the end, the nature and quality of relations between people and nations.» (Sarr & Savoy, 2018, p. 29)
A lógica de salvaguarda e preservação do património, associada à conceção ocidental de museu, tem circunscrito a discussão às dimensões material, geográfica e política. Em contrapartida, pensar a restituição enquanto reparação e ressignificação dos objetos e dos espaços museológicos tem vindo a desencadear uma nova «ética relacional» (Sarr & Savoy, 2018), traduzindo-se em práticas colaborativas e participativas nas «zonas de contacto» descritas por Clifford (1997) e potenciando processos de descolonização dos museus.
A coleção enquanto constelação do tempo e da memória
Confrontar o legado imperial e colonial de uma coleção exige uma análise da sua historicidade. Ao considerar a coleção enquanto dispositivo temporal e os seus objetos enquanto suportes de um determinado regime de memória, compreendemo-la como uma tecnologia do tempo que não se limita a preservar o passado; produz, antes, uma forma específica de o construir. A coleção participa, assim, na produção do tempo e da memória.
O reconhecimento da materialização da memória enquanto meio de disseminação de códigos interpretativos e sensoriais revelou-se fundamental para a consolidação e legitimação do projeto imperial. A objetificação do tempo através da matéria transforma-se, deste modo, num dispositivo de poder. A memória deixa, assim, de constituir apenas um legado para se afirmar como um campo de disputa simbólica. Apropriar-se da memória implica igualmente apropriar-se dos significados nela inscritos, ao mesmo tempo que esses significados reconfiguram continuamente as formas de compreender e interpretar o passado.
Museu do África, Tervuren (antes da renovação)
A própria conceção de tempo produzida por uma coleção sobrepõe-se ao tempo a que o objeto originalmente se refere (Clifford, 1985). Existe, neste sentido, uma espécie de «grau zero» da existência do objeto a partir do momento em que este é integrado numa coleção, reorientando o seu sentido e significado. Este fenómeno torna-se particularmente evidente na discussão em torno das categorias de arte e artefacto, cujo display museológico intervém na própria constituição e compreensão do objeto musealizado. Embora ambas resultem de construções históricas e culturais, os debates têm evidenciado a dimensão hierárquica inerente aos sistemas de classificação dos objetos, resultado das relações assimétricas produzidas pelo colonialismo entre quem representa e quem é representado (Clifford, 1985).
O processo de materialização da memória permite recuperar as reflexões de Weiner (1994) sobre os sistemas de retenção e produção de valor, agora do ponto de vista da memória e da relação com o objeto. Da mesma forma que uma instituição retém um objeto da sua circulação e lhe atribui um valor acrescido através desse gesto, também a memória nele inscrita pode ser problematizada quanto aos processos da sua construção, valorização e transmissão. A materialização da memória pode, por isso, ser igualmente pensada no contexto dos debates contemporâneos sobre restituição, reparação e ressignificação.
A coleção enquanto constelação do tempo e da memória
Confrontar o legado imperial e colonial de uma coleção exige uma análise da sua historicidade. Ao considerar a coleção enquanto dispositivo temporal e os seus objetos enquanto suportes de um determinado regime de memória, compreendemo-la como uma tecnologia do tempo que não se limita a preservar o passado; produz, antes, uma forma específica de o construir. A coleção participa, assim, na produção do tempo e da memória.
O reconhecimento da materialização da memória enquanto meio de disseminação de códigos interpretativos e sensoriais revelou-se fundamental para a consolidação e legitimação do projeto imperial. A objetificação do tempo através da matéria transforma-se, deste modo, num dispositivo de poder. A memória deixa, assim, de constituir apenas um legado para se afirmar como um campo de disputa simbólica. Apropriar-se da memória implica igualmente apropriar-se dos significados nela inscritos, ao mesmo tempo que esses significados reconfiguram continuamente as formas de compreender e interpretar o passado.
A própria conceção de tempo produzida por uma coleção sobrepõe-se ao tempo a que o objeto originalmente se refere (Clifford, 1985). Existe, neste sentido, uma espécie de «grau zero» da existência do objeto a partir do momento em que este é integrado numa coleção, reorientando o seu sentido e significado. Este fenómeno torna-se particularmente evidente na discussão em torno das categorias de arte e artefacto, cujo display museológico intervém na própria constituição e compreensão do objeto musealizado. Embora ambas resultem de construções históricas e culturais, os debates têm evidenciado a dimensão hierárquica inerente aos sistemas de classificação dos objetos, resultado das relações assimétricas produzidas pelo colonialismo entre quem representa e quem é representado (Clifford, 1985).
O processo de materialização da memória permite recuperar as reflexões de Weiner (1994) sobre os sistemas de retenção e produção de valor, agora do ponto de vista da memória e da relação com o objeto. Da mesma forma que uma instituição retém um objeto da sua circulação e lhe atribui um valor acrescido através desse gesto, também a memória nele inscrita pode ser problematizada quanto aos processos da sua construção, valorização e transmissão. A materialização da memória pode, por isso, ser igualmente pensada no contexto dos debates contemporâneos sobre restituição, reparação e ressignificação.
Bibliografia
Appadurai, A. (Ed.). (1986). The social life of things: Commodities in cultural perspective. Cambridge University Press.
Baudrillard, J. (1968). Le système des objets. Gallimard.
Clifford, J. (1985). Objects and selves: An afterword. In G. W. Stocking Jr. (Ed.), Objects and others: Essays on museums and material culture (pp. 236–246). University of Wisconsin Press.
Clifford, J. (1997). Routes: Travel and translation in the late twentieth century. Harvard University Press.
Debary, O., & Turgeon, L. (Eds.). (2007). Objets et mémoires. Éditions de la Maison des sciences de l’homme; Les Presses de l’Université Laval.
Kopytoff, I. (1986). The cultural biography of things: Commoditization as process. In A. Appadurai (Ed.), The social life of things: Commodities in cultural perspective (pp. 64–91). Cambridge University Press.
Pearce, S. M. (Ed.). (1994). Interpreting objects and collections. Routledge.
Sarr, F., & Savoy, B. (2018). The restitution of African cultural heritage: Toward a new relational ethics. Ministère de la Culture.
Weiner, A. B. (1994). Cultural difference and the density of objects. In S. M. Pearce (Ed.), Interpreting objects and collections (pp. 33–50). Routledge.
Vergès, F. (2020). Um feminismo decolonial. Ubu Editora.