Manual para um Bom Festival

Introdução

Alimentar uma comunidade com ternura e escutas radicais. Era isso que queríamos quando criamos o Todo Mundo Slam, lá em 2019. Essa comunidade foi ficando maior, mais cheia de tentáculos e redes que se articulavam autonomamente (ainda bem!) e que geraram todo um movimento de poesia falada migrante e portuguesa por aqui e ali, desde então. À onda que nos juntamos, somaram-se outras. Hoje, o Todo Mundo Slam é um ponto de referência e a comunidade é muito maior. Pensando nisso e também como uma forma de honrar essa trajetória, criamos o FESTIVAL DUO. 

Nele, chamamos para cada uma das seis edições, dois performers da palavra falada para fazerem, cada um, absolutamente o que quisessem por meia hora. Entenderam a matemática? São doze performers em seis dias de evento. Ainda por cima, tudo isso durante três meses, que a gente não foge do trabalho e gosta de ter tempo para refletir sobre o processo durante o processo. Nossa curadoria foi pensada articulando as “línguas portuguesas” que mais frequentam o nosso poetry slam e algumas de suas múltiplas formas de existirem. Línguas Portuguesas, já agora, é um conceito que pegamos emprestado de Caetano Galindo e que se encaixa perfeitamente a isso o que fazemos. Por enquanto. Aqui, tudo é fluido e nós não temos medo de nos movimentar. 

Bom, mas como gostamos de deixar as pessoas à vontade, também convidamos a cada edição dois “mediadores” (chamamos assim por falta de um nome melhor, mas talvez isso um dia mude, como provavelmente também mudará o nome e o próprio Festival Duo em algum momento…). Um deles é sempre o artista visual e antropólogo Gonçalo Antunes. Diga-se de passagem, é por causa dele também que falo aqui neste texto no plural. O Gonçalo fica com uma missão engraçada, difícil e performática durante o Festival DUO: ele tem uma hora e meia para fazer um retrato do que sente durante as performances. Só isso. Fica bloqueada a possibilidade de quaisquer retoques depois de terminado o DUO. A gente gosta de deixar as pessoas à vontade, mas também gosta de um jogo e jogos têm regras. (Apesar de muita gente ainda não nos reconhecer como tal, o que fazemos aqui é arte performática. A poesia/literatura aqui está profundamente articulada com a performance, com o público, com a criação de programas, de memórias e de acontecimentos irrepetíveis.).

A outra pessoa convidada por dia varia e o que pedimos a ela é um texto, em qualquer formato, género e tamanho, sobre a experiência que viveu no nosso Festival. Tudo bem à vontade, com a regra de entregar a nós em até cinco dias depois. Com eles fomos mais generosos no prazo do que com Gonçalo. Nós chamamos “mediadores” ligados à música e à poesia, ligados ao teatro, à curadoria, à literatura, ligados à organização de eventos poéticos decoloniais e antirracistas, ligados à performance, ao próprio Todo Mundo Slam, ligados à  academia, enfim. 

Uma das mediadoras convidadas foi a grande escritora Gisela Casimiro. Não é novidade nenhuma para ninguém que acompanha o meu trabalho, a minha admiração e amizade por Gisela. Já falei inúmeras vezes que, para mim, ela é uma das maiores escritoras vivas de Portugal. E acho, honestamente, que o país não a trata como devia. Nada de novo sob o sol. Pois bem, Gisela escreveu um texto que, de tão bonito, pedi que fosse publicado para além do site da fala (já agora: https://www.falaassociacao.pt/) que recebe todas as mediações. Gentilmente, ela cedeu, assim como Marta Lança, outra cujo trabalho é disparador de grandes acontecimentos, permitiu que aqui ele estivesse. Agradeço muito às duas. E a quem chegou até aqui. Lá vai.

Maria Giulia Pinheiro 

 

Manual para um Bom Festival

O bom festival existe. Começa no coração. Começa muito antes da programação. Começa quando alguém decide reunir o mundo, por momentos, numa sala na biblioteca com vista para a ponte. O bom festival é elástico e estende-se no tempo. É lento, intenso e presente, faz pontes. 

O bom festival não tem pressa. Sabe que a literatura demora e precisa de silêncio. O bom festival não acumula nomes nem troféus, mas constrói uma linha de pensamento. Mesmo quando parece disperso, há uma pergunta invisível que liga tudo.

O bom festival entende que curadoria não é decoração cultural. É responsabilidade estética e ética. O bom festival não se limita a acontecer num lugar, mas guarda lugar e coloca o nome na lista de quem a sociedade fez atrasar. A quem a sociedade fez perder a oportunidade de entrar e ficar. O bom festival é um lugar e é o lugar.

O bom festival não programa tendências, faz-se em parceria. Provoca e debate tensões, com amigos e desconhecidos. O bom festival sabe que a curadoria também é uma forma de escrita. Pois se até a candidatura o é. O bom festival é paciente, impaciente, diverso, é parceiro, é divertido e é compreensivo. O bom festival não usa a palavra comunidade trinta e sete vezes num dossier de imprensa para acabar deixando as pessoas sozinhas no sistema vigente ou na vida. O bom festival quer-se justo, musical, afectuoso, pungente, cru, e eloquente. Quer-se com muita gente boa dentro. O bom festival sabe que uma cidade lê mais do que se pensa, por isso ocupa cafés, ruas, teatros, escadarias, muros e corredores. O bom festival sabe que a literatura não compete com a vida quotidiana: alimenta-se dela. O bom festival cria uma geografia emocional temporária. Durante alguns dias, aprendemos a orientar-nos pela voz e pela energia das pessoas e não pelo GPS.

O bom festival é organizado e aprumado, partes iguais de modo voo e post instagramado. Mas deixa sempre uma porta entreaberta para o acaso. O bom festival é desorganizado. Influencia e é influenciado.

O bom festival protege o ritmo. Percebe que o excesso de eventos produz fadiga e não intensidade. O bom festival cria espaço para a demora. Para continuar uma conversa cá fora. Para falhar uma sessão e não sentir culpa. O bom festival não acelera a literatura para a tornar consumível.

O bom festival deixa espaço para o desconforto. Para a pausa demasiado longa. Para a voz que treme. Para o poema que falha, para o ego que incha, para a pilha do microfone em falta. O bom festival faz-nos voltar a escrever ao chegar a casa, ou pelo menos a imaginar desejar fazê-lo. Não podemos esquecer que o bom festival é sonhador e realista.

O bom festival sabe que uma programação demasiado perfeita costuma estar morta. O bom festival não precisa parecer importante para ser inesquecível. O bom festival não se parece com um funeral nem com uma candidatura a fundos europeus. Mas pode conter poemas escritos durante ou após um funeral. Pode ou não conter críticas a apoios culturais, nacionais ou internacionais.

Às vezes basta uma cadeira de plástico, um copo de vinho, ou três, e alguém a dizer uma frase impossível de esquecer. O bom festival tem bar aberto e petiscos. A sua duração pode ser meses ou dias, e cada momento é uma despedida que estamos a fazer há duas horas, sem sair do lugar, sem parar de conversar.

O bom festival percebe que hospitalidade também é curadoria. A forma como se recebe alguém altera profundamente o que essa pessoa será capaz de dizer em palco.

O bom festival sabe que hospitalidade é simpatia, é infraestrutura emocional, é surpreender e ser surpreendida. O bom festival cuida da luz, das cadeiras, do som, da água, dos intervalos, dos pagamentos, cuida de todos e deve cuidar de si mesmo. O bom festival suspira com orçamentos. O bom festival não trata artistas como conteúdo. O bom festival não transforma autores em monumentos. Devolve-lhes corpo, cansaço, hesitação e respiração. 

O bom festival sabe que a oralidade é a tecnologia ancestral que nos garantirá um futuro. O bom festival não transforma a performance poética numa competição de intensidade. Nem tudo precisa ser gritado para ser político. O bom festival não pede aos artistas para explicarem o trabalho o tempo todo. O mistério também é uma forma de partilha.

O bom festival não separa público e artistas como se fossem espécies diferentes. O bom festival não trata o público como estatística, enquanto consumidor cultural em circulação contínua. O bom festival faz da escuta uma prática coletiva e intimista. O bom festival faz-nos sentir inteligentes sem nos fazer sentir pequenos. O bom festival não acontece apenas no palco.

O bom festival entende que o público também escreve o festival, muitas vezes de cor, de coração. Com chuva, cigarros partilhados, abandonos a meio das sessões e encontros que não estavam previstos na fila para a casa de banho. O bom festival percebe que o mais importante raramente acontece durante a sessão principal. O bom festival é um presente e faz-se de presenças. O bom festival deixa rasto e pode deixar-nos de rastos. São as frases anotadas no telemóvel ou num recibo qualquer no fundo da carteira, abraços apertados ou os livros comprados por impulso. Um boi de lantejoulas, lenços e panos que dança à nossa volta e nos pede uma festa na cabeça, mesmo quando é ele quem nos abençoa. Palmas que se bate de pé. Flores e fotos que se partilham. Um batom vermelho, uma camisa colorida, brincos e colares com mensagens, uma tela improvisada, uma amizade sempre renovada. O bom festival sabe acabar e sabe regressar. O bom festival dá muito trabalho, nunca o dá por terminado, e sabe que, da próxima, vai tentar melhorar. Por isso, merece o nosso agradecimento. Celebremos!

Gisela Casimiro

por Maria Giulia Pinheiro e Gisela Casimiro
Mukanda | 23 Junho 2026 | Todo Mundo Slam