Cidade Nua
Não me interessa fotografar, ou registar, a beleza de Lisboa. Não me importa uma Lisboa reconhecível. Interessa-me Lisboa enquanto Cidade-Transe. A melhor cidade do mundo. Interessam-me os seus interstícios orgânicos, as suas paragens respiratórias, as cascas das suas paredes, os entre-fechares das suas pálpebras, os ritmos negros dos seus passos. Interessa-me a cidade para além dos seus interregnos.
As fotos são isso: pós-interregnos dialógicos que contêm o seu próprio movimento, suspensões metabólicas na posse da pele. Poéticas de uma música de tons luminosos primitivos, cada imagem um estalido da película fragmentária do real. Interessa-me uma Lisboa inundada de vestígios de um incêndio de deuses. Submersa numa nuvem carregada de erotismo. Interessam-me as sequelas de um Sol aberto às espécies caducadas de infinito. A velocidade da luz dos gestos mais ruidosos. O silêncio das palavras esquecidas na ponta ardente da língua. Interessam-me as ruínas das cores coladas aos corações das Mulheres. A embriaguez dos pássaros oriundos dos enigmas dos ventos. Silêncio, que se disseca o tempo reflectido numa lágrima. Cidade Nua, como verso do pecado.
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Entre milhentas capturas, de Vivian Maier sobrevivem apenas duas imagens superlativas. Tal como ficaram duas ou três fotografias singulares de Saul Leiter ou Robert Capa. Bresson ainda chega a cinco imagens magnas, sendo até por isso o fotógrafo supremo. Friedlander e Frank confirmam, pela força retirada da banalidade, que a Fotografia é uma Arte extremamente difícil. Do impossível. Que vive da fissura entre ver e olhar. Que vive da sobrecarga imperceptível do olho sobre o peso total do Corpo. De como isso torna a Fotografia um ápice de transe entre o real e o sonho. Entre o arbítrio e o acaso. Como transforma o olho numa Máquina de imortalidade. Uma construção abissal da vertigem. Ou da esperança. Essa é a sua Natureza decisiva. E quase impossível.
Qual é a relação entre a Poesia e a Fotografia, senão a de que a poesia é um jogo de luz e sombras? Uma deflagração sobre toda a razão. Um olhar radical sobre a imagem, sobre o real; um olhar feito de vertigem, como selvagem descarga de luz sobre a escuridão mais compacta da Linguagem. Fotografia e Poesia são duas facetas de um mesmo fogo, equiláteras na deflagração de um tremor orgânico da palavra ou da respiração, do oculto na evidência, no começo do subterrâneo da pele. Ambas nascidas das trevas de uma visão.
A Fotografia faz-se de Técnica ou de Olhar? Vivian Maier, Lee Friedlander, Robert Frank, Cartier-Bresson, Helmut Newton, Saul Leiter, enfim, os mais consagrados fotógrafos, não são renomados pela manipulação da câmara nem pelos efeitos que dela se podem retirar. São consagrados pelo olhar, pela distinção do seu olhar, pela paixão de ver, que é um traço da profundidade da imaginação — a evidência resulta da Imaginação. Ver é ir para lá do óbvio, e a fotografia sublima e sublinha a cintilação do que se desprende do olhar e forja uma outra substância sensorial com uma faísca do real. Nesse sentido, o banal pode, e deve, ser enaltecido e superado pela Fotografia. É essa a sua Arte. O olhar, mais do que coberto pelo manto engenhoso da Técnica, deve ser livre e nu. Primitivo. Radicalmente único. A radicalidade do Olhar é a única condição do seu Instante Decisivo. Mais do que um Fotógrafo, sou um Olhógrafo.
Não se ambiciona para as fotografias uma fasquia de primor «profissional», concedendo-se-lhes mesmo alguma margem de «imperfeição».
Isto é, entende-se que a fotografia seja, de certo modo, testemunho de uma era — a presente, do Instagram, do Flickr e similares — em que a Fotografia se massificou de tal modo que o seu «uso amador» detém um valor, uma legitimidade, uma relevância e uma pertinência próprios, enquanto componente predominante da expressão e da participação sociais intrínsecas à cultura digital — palco do primado da comunicação «multidirecional» que, assim sentenciara Arianna Huffington, é a principal forma de «entretenimento» contemporânea. Cada indivíduo é hoje, inelutavelmente, um fotógrafo «acidental», mobilizado por um sistema de produção intensiva de imagens fotográficas e de contínua demanda da sua cooperação pictórica. Um sistema em que as «máquinas» são melhores fotógrafas do que os fotógrafos (amadores), como ironizou certa vez Sebastião Salgado. Longe do desiderato de almejar os pináculos de magistralidade dos profissionais e mestres, as fotografias do registo em apreço buscam um olhar diarístico e «comum», conquanto dotado de originalidade e «poética». Se Urs Stahel acerta ao afirmar que uma «fotografia» é uma «subtração do mundo», não é menos verdade que a Fotografia é hoje um lugar de abundância ou de «overdose». É, pois, nesse território «saturado» que se investe um «olhar fotográfico» peculiar e acídulo, sincronizado com a sua época, ao mesmo tempo que dela se subtrai, por imagens que serão o «eco silencioso» das palavras, como intuiu Roland Barthes.
























