«Não celebramos as pequenas mudanças»

Bem-Vindos (BV): Vamos conversar com Carla Fernandes sobre a sua nova obra, E Tudo Mudou. Carla, fala-nos deste livro. O que te inspirou?

Carla Fernandes (CF): Mais uma vez, os meus filhos. Já foram eles que me inspiraram a escrever o meu primeiro livro infantil, Uma Visita Inesperada, no qual falei muito sobre os sentimentos.

Estes livros nascem da observação das crianças: dos meus filhos e, consequentemente, de outras crianças com quem convivem. E Tudo Mudou surgiu de uma perceção sobre os adultos que é, por vezes, contraditória. Dizemos muitas vezes que não há nada mais certo do que a mudança, que tudo muda, mas depois comportamo-nos como se nada mudasse. Não reparamos nas pequenas mudanças do dia a dia.

BV: Que acontecem todos os dias…

CF: Acontecem todos os dias, quer as observemos, quer não. Foi isso que me inspirou: essa inércia dos adultos, que muitas vezes não reparam nas mudanças nem as celebram, enquanto as crianças estão sempre a fazê-lo. A proposta de E Tudo Mudou é refletir: e se, afinal, nada mudasse? O que aconteceria?

BV: Acho muito interessante ter escolhido a mudança como tema central. Estamos sempre a mudar, todos os dias, embora nem sempre reparemos. Por que quis trazer esse tema para o livro?

CF: Porque acredito que devemos celebrar a mudança. Muitas vezes, ficamos à espera de mudanças enormes e não celebramos as pequeninas: o desabrochar de uma flor, o aparecimento de um arco-íris. Quem faz muito isso são as crianças.

A proposta do livro é essa. Os adultos parecem não prestar tanta atenção à mudança e, se ela deixasse de acontecer, talvez nem reparassem. Quem daria por isso? De certeza que as crianças. E de que forma poderiam intervir para que a mudança voltasse ao seu lugar?

A mudança tem uma certa constância. Por que precisamos de refletir sobre ela? Precisamente porque nem sequer o fazemos. Não prestamos atenção a uma coisa central na experiência humana.

Por vezes, só reparamos nas mudanças em fases como a infância: «Já pesa mais um quilinho! Já cresceu mais um centímetro!» Depois chega a adolescência e — não é que abandonemos os filhos — já não reparamos tanto nas mudanças, como se já tivessem crescido tudo o que havia para crescer.

Carla Fernandes e Alexandre Matos,Carla Fernandes e Alexandre Matos,

BV: E, às vezes, só nesses detalhes e nesses momentos é que reparamos.

CF: É isso. Centramo-nos nas grandes mudanças que facilmente identificamos nas crianças: estão sempre a crescer, os sapatinhos já não servem, essas coisas todas.

Foi o universo infantil que me inspirou, mas acabei por levar essa reflexão para a minha própria vida enquanto adulta. Por isso gosto tanto de pensar nos livros infantis como momentos de reflexão.

BV: Não só para as crianças.

CF: Exatamente. As crianças também nos oferecem outras propostas interessantes para explorar aquilo que o livro nos apresenta.

BV: A Carla ajuda a desfazer a ideia de que um livro infantil é feito e lido apenas para as crianças. Os adultos também podem saboreá-lo e encontrar nele grandes reflexões.

CF: Sim, acho que são momentos de partilha. Mesmo nós, enquanto adultos, podemos ler uma obra aos 18 anos e voltar a pegar nela aos 30…

BV: E já a lemos de outra maneira.

CF: Já parece uma obra completamente diferente. O mesmo acontece com as crianças. Seria interessante que o livro infantil fosse um lugar de partilha e de troca de experiências entre pais e filhos. Não digo que deva ser, porque isto não é prescritivo, mas pode ser.

Enquanto adultos, olhamos para o texto infantil e muitas vezes queremos transmitir mensagens profundas ou ensinar determinadas coisas aos filhos. Depois, eles saem-se com lições em que nós próprios ainda não tínhamos pensado.

A criança, quando crescer, também encontrará outras leituras. Acho que existe aí uma continuidade interessante. Antes de ter filhos, não me tinha apercebido disso. Hoje, vejo o livro infantil como um espaço de partilha, de troca de experiências e de continuidades.

BV: Esta obra também aborda o uso excessivo dos ecrãs e a presença da tecnologia na vida das crianças. Por que quis destacar esse tema?

CF: Nesse caso, temos de falar do ilustrador, Alexandre Matos, que é um ótimo ilustrador e também trabalhou no meu primeiro livro.

Para chegarmos às imagens, conversamos sobre o texto. Eu envio-o e depois discutimos possibilidades. Foi ele que trouxe os elementos visuais para representar as distrações que facilmente reconhecemos e que nos impedem de prestar atenção às mudanças.

Trouxe os ecrãs e deu também uma forma à própria Mudança. Achei lindíssimo representá-la com uma saia e duas malas.

As minhas personagens são muitas vezes abstratas. Em Uma Visita Inesperada, eram sentimentos. Não se trata de desenhar uma menina chamada Joana: é preciso representar a Mudança. Como fazê-lo?

O Alexandre trouxe referências do candomblé, com uma saia comprida. Também gosto de incluir elementos afro nas ilustrações. Deu à Mudança aquela saia, aquele cabelo e duas malas. Eu própria não sabia como conseguiríamos representá-la e achei a solução muito bonita.

Os ecrãs também foram uma ideia dele. É uma conversa, uma troca.

BV: Como foi trabalhar com Alexandre e encontrar uma forma de transmitir essa mensagem através das imagens?

CF: O interessante é que somos muito práticos e respeitamos o espaço um do outro. Ele é o ilustrador; não posso estar a dar indicações sobre coisas que não conheço bem.

O Alexandre faz uma releitura do texto. Quando me apresenta as ilustrações, estou a lê-las; quando lê o meu texto, está a criar imagens a partir dele.

O que tenho sentido nesta colaboração é um enorme respeito pela área de cada um. Se precisarmos de conversar mais ou de aprofundar algum aspeto, fazemo-lo de forma muito respeitosa. É simples, é muito fácil trabalhar com ele. Gosto muito do seu trabalho e desta parceria.

BV: Há uma frase sua de que gosto muito: «A mudança vai mudando.» O que significa para si?

CF: Continuidade, prosperidade e também a agregação das experiências, dos lugares, dos espaços onde estamos e das pessoas com quem nos cruzamos. Tudo isso vai mudando.

Tal como dizia sobre o livro infantil enquanto lugar de partilha, fazemos leituras diferentes nos vários momentos da vida. A mudança vai mudando porque muitas vezes pensamos: «Isto já mudou, este ciclo está encerrado, este capítulo está fechado.» Mas haverá outra onda de mudança.

É um pouco como a expressão «O caminho faz-se caminhando». Gosto de olhar para a mudança e para as experiências como processos contínuos.

BV: É interessante que as crianças tenham a oportunidade de pensar: «As coisas mudam. Eu cresci, antes gostava de brincar de uma maneira e agora gosto de brincar de outra.» É importante poderem refletir sobre o que as incomoda, o que as alegra, o que lhes faz bem ou não, e reconhecerem os seus sentimentos.

CF: Acho que sim. Queria partilhar uma experiência com este livro que o Alexandre me contou.

Ofereceu-o a uma criança da família — já não me lembro exatamente do parentesco — e, passado algum tempo, ela colocou na parede do quarto um desenho de uma parte da história. Não sei se o desenhou ou se pediu ao Alexandre que o fizesse; espero estar a contar bem. Quando a mãe lhe perguntou por que estava a colocá-lo ali, respondeu que era para a Mudança reparar.

Ficou a mensagem: temos de prestar atenção à Mudança, senão ela… Não quero revelar demasiado da história! Mas a criança quis deixar um marco no quarto para que a Mudança olhasse e visse: «Aqui mudou alguma coisa.»

As crianças fazem essa reflexão. É uma mensagem profunda, a que todos temos acesso, mas nem sempre pensamos nela no dia a dia ou a adotamos como uma filosofia de vida.

Não precisamos de observar tudo a cada instante: «Agora está a chover, agora caiu uma pinga…» Ficaríamos malucos! Mas é interessante reparar nas mudanças sem esperar que sejam enormes ou que todas as outras pessoas também as vejam.

Muitas vezes, a mudança é interna, muito nossa. Para que possa ter um efeito nos outros, precisamos primeiro de nos aperceber dela. Depois podemos levá-la, à nossa maneira, para as experiências, as trocas com outras pessoas e as nossas práticas.

BV: Como autora de livros infantis, como vê o papel da literatura no desenvolvimento emocional das crianças?

CF: Acho que é central. Antes de escrever os livros, ou talvez já enquanto os escrevia, recorria muito aos livros da biblioteca para explicar coisas aos meus filhos. Às vezes, não tinha os recursos ou as palavras.

Se uma criança estava muito triste ou fazia uma grande birra, procurava um livro que me pudesse ajudar. Podia ser, por exemplo — estou a inventar —, O João Come a Sopa Toda. Conversei com outras mães que me diziam: «Faço o mesmo!»

Quando não tenho as palavras ou não sei o que dizer, vou à biblioteca buscar um livro ou compro um. E pensei: que recurso essencial para a educação das crianças enquanto seres humanos, enquanto futuros adultos que vão ter um impacto na sociedade e precisar de saber viver nela.

É assim que vejo o livro infantil: como um recurso basilar na formação das nossas crianças. É importantíssimo que existam cada vez mais contributos de diferentes autores. Há também muitos romancistas que, em determinado momento, querem escrever para crianças ou acabam por fazê-lo.

Acredito que o livro infantil é também um lugar poético. A linguagem tem de ser muito direta, não pode ser demasiado rebuscada. Tratar temas profundos numa linguagem direta e, muitas vezes, sintética é um enorme desafio.

E eu gosto muito desse desafio. Gosto de ler bons livros infantis e de procurar escrevê-los — espero que concordem! É um espaço que me é muito querido.

entrevista na RTP ÁFrica a 2 / 12/ 2025

por Carla Fernandes
Cara a cara | 1 Outubro 2026 | carla fernandes, E Tudo Mudou, ilustração., infância, literatura infantil