45 anos de Oficina da Criança
cartaz de angariação de brinquedos para a exposição SURPRESA! 45 Anos da Oficina da Criança, Montemor-o-Novo, Cine-Teatro Curvo Semedo, 11-17 janeiro 2025.
No dia 10 de Janeiro, afagadas por um lusco-fusco chuviscoso, umas boas dezenas de pessoas juntaram-se nas traseiras do Cine-Teatro Curvo Semedo, em Montemor-o-Novo, para inaugurar a exposição … Supresa!! Oficina da Criança 45 anos (1981-2026). Com palavras de parabéns, um bolo feito na cozinha da Oficina da Criança e o carinho de pessoas que desde mais ou menos tempo a acompanham, ficou aberta a exposição. A entrada no sub-palco do Cine-Teatro, onde até 2017 se localizava a Oficina da Criança, fazia-se aos poucos, porque o espaço sempre foi e continua a ser exíguo, característica realçada pela falta de janelas e ventilação. Lá dentro, uma cenografia económica mas eficaz fazia reacender memórias de quem frequentou este lugar em criança ou o conheceu adulto. Memórias partilhadas, desvendadas, apuradas e saboreadas, trazendo para o presente os contornos de uma magia consensual ligada a este lugar, e tão evidente que até a jornalista que, dias depois, visitou a exposição para uma reportagem da RTP se sentiu impelida a destacá-la.
… Surpresa!! trazia um fugaz – pois abriu apenas durante seis tardes – mas evocativo percurso por estas memórias de uma instituição de discreto prestígio. Um daqueles pequenos tesouros que só parecem esconder-se nos recantos de “interior” para olhares desde cidades que se habituaram a pensar que são o centro do país. A Oficina da Criança é uma referência para muitos educadores e espanto de quem – português ou estrangeiro – a visite. Contam-se casos de gente que veio cá viver só para dar oportunidade aos seus filhos de a frequentar.
A exposição teve curadoria de Ana Bigotte Vieira e de Rosa Baptista, com assistência e apoio de Luísa Homem e Pedro Cereja e design de Isabel Lucena. Foi produzida em parceria com o Município de Montemor-o-Novo, e em colaboração com a equipa de animadoras da Oficina da Criança e do Cine-Teatro Curvo Semedo.
Dividia-se em duas partes. Uma documentava e contextualizava a criação e existência ao longo do tempo da Oficina da Criança, através de documentos históricos originais ou reproduzidos, na maior parte do arquivo da própria Oficina, e uma cronologia. A proposta de implementação, notícias da abertura da Oficina, algumas reflexões publicadas aqui e acolá, a capa de uma recolha de jogos tradicionais, um conjunto de documentos que rastreia o contexto da animação sócio-cultural e da educação não formal onde esta experiência se insere, em descomplicada convivência com a parafernália habitual de uma entrada para serviços municipais, normalmente vedada ao público (avisos, sinalética, máquina de picar o ponto).
Uns degraus depois, entrava-se no que hoje é um despretensioso armazém de equipamentos de luz e som. Tecidos esticados entre os muitos pilares que sustentam o palco do cine-teatro reconstruíam a configuração – ou uma das várias que teve – da antiga Oficina da Criança. Imagens de vídeo de do dia-a-dia da Oficina projetadas nas telas, que funcionavam como espécie de armação provisória de memórias, ajudavam a recriar o ambiente volvido. (Teresinha Tavares, coordenadora de 1987 a 2015, filmava obsessivamente as atividades, deixando um largo arquivo de gravações.) Uma planta desenhada a giz num quadro localizava os vários ateliês que compunham a Oficina. A completar, objetos produzidos nestes ateliers por crianças – hoje na maior parte adultos – e recolhidos pela equipa curatorial durante uma campanha de nove meses entre habitantes de Montemor-o-Novo.
Era assumidamente uma exposição de carácter comemorativo, um olhar para o passado não isento de nostalgia. Mas não só. Porque neste olhar havia ao mesmo tempo qualquer coisa que apelava ao presente, um fascínio qualquer, algo dessa magia relembrada que continuava a interpelar-nos hoje. É a tentativa de identificar esta interpelação que (espero eu) justifica trazer para este lugar esta glosa de uma fugaz exposição comemorativa de uma instituição municipal numa pequena cidade alentejana, aberta apenas durante uma semana (e só à tarde).1
Chegado aqui, pode ser útil algum contexto. A Oficina da Criança é um serviço municipal fundado em 1981 por Virgínia Fróis e Vasco Dias da Silva, então um jovem casal de artistas que dinamizaram uma experiência semelhante em Santarém, até a eleição de uma outra vereação tirar os apoios e desalojar o projeto. Notícias deste “casal interessante” chegaram a Montemor-o-Novo, e assim se decidiu quea nova Oficina da Criança se instalaria nesta cidade. A proposta enquadrava-se na importância dada por uma Câmara (comunista sem interrupção desde 1975 a 2021) à cultura, considerada – apesar de todas as carências herdadas do Estado Novo – um eixo de desenvolvimento local fundamental. Este investimento sustentado numa política cultural não só trouxe a Oficina da Criança mas também ajudou a cultivar o peculiar ecossistema cultural atual de Montemor-o-Novo, com uma variedade de associações culturais muito activas (Oficinas do Convento, Espaço do Tempo, Alma d’Arame, Projeto Ruínas, entre outras), e hoje em parte significativa geridas e dinamizadas por pessoas que se formaram em criança na Oficina da Criança. De forma admitidamente impressionista gosto de pensar que as peculiares relações que caracterizam boa parte deste ecossistema – a proximidade com o poder local, a relação frutífera e descomplicada entre novo e velho, entre saberes vernaculares e novas tecnologias, entre os pés no local e o olhar para o mundo – foram primeiro pressentidas ou apreendidas na Oficina da Criança.2
Em 2017 são inauguradas novas instalações. Um edifício próprio, construído de raiz, com espaço, condições de segurança e conforto, muita luz natural, os mesmos ateliers de carpintaria, olaria, expressão plástica e costura, uma ludoteca muito maior, mas também uma cozinha, sala de construções, um multiusos para atividades e projetos, um pátio com pequena horta, e acesso direto aos largos relvados do Parque Urbano. O que ficou para trás, como a exposição “Surpresa” pôs em toda a evidência, era esta magia de um espaço onde tudo podia acontecer. Espaço de liberdade e aventura que mudava conforme as necessidades (as divisões entre ateliers eram painéis de madeira aparafusados às colunas, facilmente mudados de sítio), na perene precariedade do sub-palco do Curvo Semedo. Cave de criatividade iluminada por janelas viradas para dentro do imaginário.3
A exposição a comemorar os 45 anos deste espaço de liberdade foi encomendada ao Projeto BRINCAR, coordenado pela historiadora Ana Bigotte Vieira, que um ano antes havia abordado a Oficina para aceder aos seus arquivos.
BRINCAR é um “projecto de investigação histórica e artística que procura trabalhar sobre – e a partir de – experiências artísticas e sociais ocorridos com – e para – a infância nos anos que rodeiam a Revolução de Abril de 1974 e o final do séc. XX.”4 Na base, o encontro repetido de Ana Bigotte Vieira com referências a experiências pedagógicas ligadas à educação pela arte nos anos 1970 e 1980 noutros trabalhos de investigação sobre os arquivos da dança e do teatro em Portugal.5 Boa parte deste panorama – experiências análogas à Oficina da Criança em Lisboa, Évora, Mértola, e a sua relação com o trabalho desenvolvido por pessoas como Madalena Perdigão, no Centro de Arte Infantil do ACARTE /Fundação Calouste Gulbenkian ou a obra pedagógica de Elvira Leite – é pouco conhecido, os arquivos destas experiências encontram-se completamente negligenciados, e o legado do trabalho com a infância é pouco valorizado na história sobre este período. As crianças (e o brincar) ficam sempre em último plano, e é isto que o projeto BRINCAR pretende contrariar.
A investigação do projeto está a mapear experiências à volta do brincar, da arte e da educação pela arte que surgiram no pós-25 de Abril, de forma independente umas das outras embora frequentemente co-relacionadas, e que acabaram por formar rede (p. ex. através de encontros, de reflexões de fundo na revista Intervenção – Revista de Animação Sócio-Cultural, 1977-1980, ou pela acção do Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis ou do Centro de Arte Infantil do ACARTE). A mesa-redonda “O direito a BRINCAR” (ver registo filmado), que teve lugar antes da inauguração da exposição no novo edifício da Oficina da Criança, reforçou este comum horizonte, que surgia a partir dos meandros fascinantes das conversas sobre os vários projetos representados. Participavam Luís Vasco, que falou da Casa da Criança do Teatro A Comuna, Virgínia Fróis e Teresinha Tavares, primeira e segunda coordenadora da Oficina da Criança, a investigadora Joana Bravo, e Mário Moutinho, que trazia memórias sobre o teatro para crianças no pós-25 de Abril no Norte de Portugal e, de manhã, numa atividade integrada no programa inaugural da exposição, também dera vida ao Guarda Serôdio, marioneta de merecida fama da série Os Amigos do Gaspar (RTP, 1986-1989).
Fotografias da exposição (Isabel Lucena)
O que havia de comum?
Por um lado, são experiências que surgem de forma descentralizada – nos bairros pobres e periféricos do Porto e de Lisboa, em cidades de província, em vilas rurais com falta de água canalizada e equipamentos básicos. Mas sabe-se que a periferia – o descampado entre o antigo Quartel de Campolide e um bairro de lata que rodeava o Teatro a Comuna, uma vila rural no Alentejo ou os bairros periféricos do Porto – é um sítio tão bom como outro qualquer para começar a repensar como se fazem as coisas.
Por outro, é evidente a vontade, no imediato pós-25 de Abril, de democratizar o acesso à cultura e de uma arte que não esteja desligada da vida. E, neste sentido de abrir a prática artística à sociedade, as crianças estavam aí. Como lembrou Ana Bigotte Vieira, o desinvestimento durante o Estado Novo nos jardins de infância (porque a mulher era suposta estar em casa e cuidar delas) deixou, quando as mulheres começaram a trabalhar, uma grande falta de resposta às crianças, e vários artistas começam a trabalhar com elas, muitas vezes por razões pragmáticas (acesso a públicos alternativos, contrapartidas para cedências de espaço, etc.), e ao mesmo tempo alimentados pelas dinâmicas e ideais impulsionados nos anos do PREC (como as Campanhas de Dinamização Cultural).
Assim, pela prática e pela resposta a necessidades concretas, estes artistas-animadores entraram no campo da educação não formal e da educação pela arte, entendendo a educação não como a transmissão de conhecimentos mas como desenvolvimento da curiosidade, do prazer da descoberta e da consciência da própria capacidade de aprendizagem e de realização. Criaram espaços que potenciavam o desenvolvimento criativo de quem os frequentava, apoiado na condição de escuta de quem tem os meios de propiciar que a experiência aconteça.6 Na base, mais ou menos consciente, a convicção de que este tipo de experiências educativas criavam cidadãos mais capazes de entender e de lidar com o mundo (além da ideia de uma arte não desligada da vida, havia, e há, também a ideia de uma educação não desligada da cultura).
A hipótese que ficou esboçada, a partir das pontes e paralelismos que esta mesa-redonda e o projeto BRINCAR em geral criaram entre estas experiências, cada uma única e desenvolvida de forma independente, é a de um comum horizonte de políticas locais que incorporaram, ao nível das autarquias locais, algumas destas experiências impulsionadas pelo 25 de Abril e os ideais e a pragmática generosidade que as orientaram. Creio que era o fugitivo fascínio deste pulsar utópico que vem ainda do 25 de Abril que, no dia da inauguração da exposição, alimentava esta memória da “magia” de um espaço outro onde a liberdade era possível.
Liberdade porque o brincar é um espaço de experiência – de experimentar ser outro, de ser adulto, de experimentar a diferença e o futuro. O brincar desarruma e reordena categorias, tempos, a ordem das coisas. (Por isso a importância de que estes espaços sejam para todos, sem categorizar e segregar faixas etárias. “e imaginámos… – Como seria bonito se todas as pessoas crescidas fossem capazes de brincar com as crianças.” lê-se num contributo para as Jornadas Municipais de Ação Social de 1989, exposto na exposição.)
Gosto de pensar que … Supresa!! é como que uma secreta homenagem à persistência deste impulso inicial, algo utópico, que sobrevive no dia-a-dia da Oficina da Criança, mesmo se a sua formulação seja menos segura e assertiva que há 45 anos.
E está aqui a importância do projeto BRINCAR, cujo tema de fundo parece ser a memória e a transmissão deste tipo de experiências pedagógicas: BRINCAR recolha dos arquivos e das memórias do passado mais algumas achegas para manter o fogo sagrado do brincar aceso. Articula e partilha memórias que ajudam a saber onde estamos e a pensar (ou lembrar) o que coletivamente pretendemos fazer, como queremos crescer e educar. E esta articulação da memória – às vezes como surpresa (“Pois, é isto o que estamos a fazer!”) – é a base para a transmissão, para que as experiências acumuladas não se diluam na morraça do dia-a-dia.
E gosto de pensar que a exposição iluminava, também, uma fé subjacente à criação e existência de espaços como a Oficina da Criança. É a fé na possibilidade – e não só na possibilidade, na exigência – de uma maneira diferente de fazer, baseada na generosidade, nos valores democráticos (antídoto eficaz contra o cinismo dominante de que “não é possível”, “não há alternativa”, “não vale a pena”), nas crianças e nos seus direitos e capacidades – fé que hoje pode parecer ingênua mas que alimentou e se alimenta de 45 anos de sólida prática. E porque não será possível? “Estamos vivos. Nada nos detém,” como diz um cartaz produzido pelo Teatro a Comuna que Luís Vasco trouxe à mesa-redonda.
Fogo! / Comuna - Teatro de Pesquisa. - Lisboa : C., imp. 1976. - 1 cartaz : color. ; 66x27 cm
https://purl.pt/18629
Supresa!
Oficina da Criança 45 anos (1981-2026).
Exposição Comemorativa
Cine-Teatro Curvo-Semedo, Montemor-o-Novo
11-17 Janeiro
Curadoria, produção e edição: Ana Bigotte Vieira com a Oficina da Criança (
Assistência de Curadoria: Rosa Baptista
Assistência de imagem e vídeo: Luísa Homem
Apoio à Investigação e à escrita de textos: Pedro Cerejo
Direcção Técnica: Paulo Andringa com o apoio do Cine-Teatro Curvo Semedo
Design: Oficina da Criança (a partir de proposta de Isabel Lucena)
https://www.serralves.pt/atividades-serralves/1502-criancas-na-revolucao/
https://open.spotify.com/episode/3P12xd3Sid9oI4j4YYnlzb
https://www.oespacodotempo.pt/pt/residencias/ana-bigotte-vieira
https://www.oespacodotempo.pt/pt/residencias/ana-bigotte-vieira-pt
- 1. Para toda a transparência, esclareço que a questão não me é puramente teórica, e que portanto não a aborda de modo isento. Eu próprio lá me encontrava entre as pessoas que celebraram os 45 anos de existência. Os meus filhos frequentam a Oficina da Criança no seu novo local, onde também colaborei no passado em oficinas para a primeira infância. Sou próximo de pessoas que trabalham ou trabalharam ali. Tenho carinho ao projeto, e desejo-lhe ainda muitos anos de muito boa saúde.
- 2. Ver a entrevista com Tiago Fróis, presidente da associação Oficinas do Convento, em “Oficinas do Convento. 20 anos de resiliência em Montemor-o-Novo,” Re·Vis·Ta, Julho de 2018 (versão arquivada).
- 3. Aproprio-me da designação de Ana Luísa Janeira num texto que escreveu sobre a Oficina da Criança, relembrado por Teresinha Tavares na mesa-redonda “O direito a BRINCAR”.
- 4. O projecto desenvolveu-se a partir de uma primeira residẽncia no Espaço do Tempo em Março de 2024. Houve uma apresentação pública na livraria Tigre de Papel no final deste ano, por ocasião da qual também foi publicado um podcast com entrevista com a equipa do projeto – além da Ana Bigotte Vieira, inclui também Isabel Lucena, Pedro Cerejo e Rosa Baptista. Seguiu outra residência no Espaço do Tempo em Janeiro de 2025 e a mesa-redonda “Crianças na Revolução” (15 de Fevereiro de 2025), na Fundação Serralves, durante a exposição Ricochetes de Francis Alÿs. Foi desenvolvido trabalho de investigação dentro da Oficina da Criança, bem como uma recolha de brinquedos e objectos feitos por pessoas que em criança frequentaram a antiga Oficina de Criança.
- 5. Nomeadamente, sobre o serviço ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian (ver Uma Curadoria Da Falta – O Serviço Acarte Da Fundação Calouste Gulbenkian 1984-1989, Lisboa: Documenta, 2021), sobre os arquivos da dança em Portugal (projeto Para uma Timeline a haver, 2016-presente, e dança não dança: arqueologias da nova dança em Portugal, cat. de exp., Lisboa: INCM / FCG, 2024) e sobre os arquivos do teatro independente (projeto Arquivar o Teatro, 2022-2024)
- 6. “Um Centro de Animação Sócio Educativo não pode ocupar os Tempos Livres. Terá ele mesmo de ser Tempo Livre: Um espaço lúdico onde monitores são criadores de actividades que, pelas suas possibilidades recreativas, são Centros de Interesse que mobilizam as criança à sua prática.” Vasco Fernandes n’A Seara (abril de 1988), reproduzido na exposição … Supresa!!