Ájax de Sófocles

Quem, como Ájax, levado por instintos primários como o ímpeto de vingança perante uma injustiça, não foi já vítima de ilusões causadas pelas suas próprias fragilidades, pela intervenção de outros, por um acontecimento ou por determinado contexto social? A era da informação — ou, melhor, da descredibilização da informação e da névoa que tantas vezes envolve as suas fontes — constitui hoje o contexto ideal para o desenvolvimento e a propagação de discursos políticos, medidas sociais e ideologias cruéis, injustas, antidemocráticas e regressivas. Assim se desenha, pouco a pouco, o caminho para o eclipse total da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da dignidade humana e dos direitos de todos os seres vivos sencientes. E assim se permitem, banalizam e disseminam actos profundamente desumanos. Como enfrentar esta era, este tempo, esta ameaça de degradação completa e abismal dos nossos valores civilizacionais?

Vivemos, pois, sob constantes ataques à democracia e à evolução civilizacional. A ausência de diálogo, os extremismos e o ruído ensurdecedor do nosso tempo ganham força através da fragilização do pensamento e, consequentemente, do discernimento. Que fazer perante a demência social instalada, perante o histerismo que se manifesta no consumismo suicida e na velocidade desenfreada? Ájax de Sófocles é uma reflexão sobre os limites do poder e também, parece-nos, uma resposta às ameaças totalitárias e totalizantes. Uma resposta que vem do fundo da nossa civilização e do berço da democracia.

Partindo de Ájax, provavelmente a mais antiga tragédia de Sófocles, este espectáculo propõe, perante o contexto que vivemos, um teatro profundamente humano. Sem se esgotar na clarificação das palavras que o fundamentam, constrói-se sobre o confronto ritual entre silêncio, sombra, luz, textura, movimento e paisagem sonora e, sobretudo, sobre a energia animista que lhe dá corpo. Oferece uma partitura generosa no espaço que abre tanto à apreensão pela sensibilidade como à reflexão sobre as estruturas mentais que continuamos a reproduzir. E, possivelmente, sobre outras estruturas que possamos ainda edificar, em função dos papéis que queremos representar e ver representados no seio das nossas famílias e de outros empreendimentos colectivos.

Na última frase, interpretei «outras empresas de carácter omnipessoal» como «outros empreendimentos colectivos», para tornar o sentido mais claro.

‘Eu sou. Nós somos. Isso é suficiente. Agora há que começar. A vida foi-nos posta, e sempre esteve, nas nossas mãos e nos nossos braços. Em si, é verdade, parece ter-se tornado vazia há muito e parece balançar-se para trás e para a frente sem sentido. No entanto, não vamos esquecer: mantemo-nos firmes em querer ser a origem e o fim’.

Tradução livre de The Spirit of Utopia de Ernst Bloch.

TEXTO: Sófocles

ENCENAÇÃO: Cláudio da Silva

INTERPRETAÇÃO: Cláudio da Silva, Crista Alfaiate, Marcello Urghege e Nuno Lucas

DRAMATURGIA: Carolina Dominguez, Cláudio da Silva e Rita Ferreira

ASSISTENTE DE CENA: Miriam Vale

CENOGRAFIA: Gustavo Sumpta

FIGURINOS: Colectivo

ADEREÇOS: Pedro Paiva e Gustavo Sumpta

DESENHO DE LUZ: Pedro Paiva

MONTAGENS E OPERAÇÃO DE LUZ E SOM: Rafael Ligeiro

MÚSICA: João Martins

PRODUÇÃO: Soluços D’Inverno

RESIDÊNCIA ARTÍSTICA: TMJB, ZDB e Palettentheater Kollektiv

APOIO: Fundação GDA | República Portuguesa - Cultura | DGARTES - Direção-Geral das Artes

02.10.2026 | by martalanca | Ájax, Sófocles