Rotas & Rituais | Documentários, B Fachada+Lula Pena, Mão Morta | LISBOA

O exercício pleno da Democracia exige o acesso à informação e ao debate. Contamos, por isso, com quatro conferências que pretendem reflectir sobre o estado actual da Europa e da Democracia, o poder da Internet e o papel de mediação dos órgãos de comunicação social. 

Do leque de oradores convidados fazem parte Conceição Queiroz, Joana Amaral Dias, José Pacheco Pereira, Ricardo Araújo Pereira, José Luís Garcia, José Manuel Fernandes, entre outras personalidades de relevo em áreas tão distintas como a política, sociologia, história, economia ou os novos media.   

A primeira das três noites de música acontece a 20 de Novembro com o Projecto com Voz, um coro de mais de trinta elementos, com idades entre os 55 e os 83 anos, que nasceu para quebrar estereótipos associados à idade. O grupo, dirigido pelo Maestro Pedro d’Orey, celebra a Liberdade com temas de Zeca Afonso e do pop/rock, sempre em português.

Na sexta-feira, dia 21, o palco é de uma das figuras cimeiras da canção lusófona contemporânea, B Fachada, que conta já com 14 edições e algumas colaborações, dentre as quais, com Sérgio Godinho. Em Regressa em 2014, ao fim de um ano sabático, com um novo disco homónimo. Na primeira parte da noite recebemos a voz e guitarra de Lula Pena, compositora portuguesa com influências que começam no Fado e se misturam com a chanson francesa ou a bossa nova brasileira. Já tocou com Rodrigo Leão, Mû, Norberto Lobo e o próprio B Fachada.

A última noite de música, dia 21, pertencerá ao rock irreverente dos Mão Morta, de Adolfo Luxúria Canibal, banda com três décadas de existência que lançou este ano o álbum Pelo Meu Relógio São Horas de Matar.

No cinema, o Rotas & Rituais apresenta uma programação extensa de documentários recentes, de realizadores de todo o mundo. Muitas são as histórias de luta pela Liberdade e dignidade, algumas delas contadas na primeira pessoa. A fechar este ciclo de 18 documentários, destacamos a exibição, no dia 23, de Dirty Wars, de Richard Rowley, filme que conta já com oito prémios e cinco nomeações, a última delas para melhor documentário dos Academy Awards 2014.

A entrada é livre em todos os eventos, à excepção dos concertos de B Fachada e de Mão Morta (8€)

19 NOVEMBRO

19H CINEMA | DANGEROUS ACTS (Madeleine Sackler)

21H30 CINEMA | SOUND OF TORTURE (Keren Shayo) 

 

20 NOVEMBRO

19H CINEMA | THEY ASKED NOBODY (Martin Bureau)

        CINEMA | A PEOPLE WITHOUT A LAND (Eliyahu Ungar-Sargon) 

21H30 MÚSICA | PROJECTO COM VOZ

The Lost SignalThe Lost Signal

21 NOVEMBRO

19H CINEMA |THE LOST SIGNAL OF DEMOCRACY (Yorgos Avgeropoulos)

21H30 MÚSICA | LULA PENA (1ª parte) + B FACHADA

B Fachada, foto de Manuela PachecoB Fachada, foto de Manuela Pacheco

22 NOVEMBRO

17H CINEMA |THE INTERNET’S OWN BOY (Brian Knappenberger)

19H CONFERÊNCIA | “Internet, plataforma de comunicação ou controlo social?”

        Com: Nuno Ramos de Almeida, Gustavo Cardoso, José Luís Garcia, Sofia José Santos

21H30 MÚSICA | MÃO MORTA

 

23 NOVEMBRO

17H CINEMA | REPORTERO (Bernardo Ruiz)

19H CONFERÊNCIA | Livres ou parcialmente livres, a situação dos órgãos de comunicação social.

        Com: José Luís Garcia, Conceição Queiroz, José Manuel Fernandes, José Nuno Matos, Ricardo Araújo Pereira

21H30 CINEMA | DIRTY WARS (Richard Rowley)

18.11.2014 | by martalanca | B Fachada, Lula Pena, Mão Morta, Rotas & Rituais | Documentários

Todos temos nosso fado. Lula Pena

ELA CHAMA-SE LULA. Lula Pena. Descobriu o sentido do fado quando saiu de Portugal. Mas foi numa noite, antes de partir para Barcelona (Espanha), que num bar do Bairro Alto, em Lisboa, onde costumava actuar, resolveu experimentar cantar o “Barco Negro”. Lembram-se da canção imortalizada por Amália Rodrigues (1920-99) no filme Os Amantes do Tejo (1955, do diretor francês Henri Verneuil) -De manhã, que medo, que me achasses feia!/ Acordei, tremendo, deitada n’areia/ Mas logo os teus olhos disseram que não…-, com letra de David Mourão-Ferreira?

Lula cantou nessa noite e ficou com a breca no final da música. Na entrevista ao jornal português Público, em que contou esta história, disse que ficou com um sorriso que não conseguia desfazer. Assustou-se. Nessa noite, pensou que o fado é uma droga dura. Quando todos andavam à procura da nova Amália, Lula cantava fado nas ruas e uma vez quis conhecer a diva. Tinha umas coisas para lhe perguntar. Marcaram um encontro. Chegou o dia. Era uma quarta-feira, Lula lembra-se bem. Um dos músicos que devia ir com ela a esse encontro telefonou-lhe de manhã, ela acordou e achou que estava atrasada. Ele disse-lhe: “Amália morreu esta manhã” [6 de outubro de 1999].

No dia 12 de fevereiro de 2009, Caetano Veloso escreveu no seu blogue “Obra em Progresso”: “A cantora que mais me interessou nas últimas semanas foi Lula Pena. Uma portuguesa de voz grave e violão eletrificado que canta como um poeta”. Colocava um link para Lula a cantar no YouTube a “Rua do Capelão”, que é uma das 13 músicas do seu primeiro disco, Phados, que ela gravou em Bruxelas, em 1998.

Passaram-se 12 anos e só agora a portuguesa volta a editar um disco: Troubadour (Mbari) . Ela diz que “a respiração não é a mesma” ou que “a cabeça já não é a mesma”, e que o que os dois discos têm em comum é a sua voz (grave e invulgar), a guitarra acústica e a necessidade da palavra. Dividiu o seu disco em sete “actos” (um deles termina assim: “Meu amor?” “Sim, diz” “Já disse”.)

Os seus concertos são raros, num deles o seu coração batia tanto que ela não conseguia cantar. Nesse momento, só teve uma solução. Colocou o microfone no peito e todos ouviram as suas batidas. Fez-se silêncio e ela finalmente cantou.

Se querem ter uma sensação intrigante, ouçam Lula Pena. Ficarão arrepiados. Por Troubadour passam o fado, a bossa nova, a morna, o tango, a chanson e o flamenco.

Quando, há meses, Caetano esteve em Lisboa a fazer uma conferência na Casa Fernando Pessoa com (o poeta) Antonio Cicero houve um serão, como aquele que Amália fez para Vinicius de Moraes no final dos anos 60, em que Lula cantou para os dois brasileiros. As suas canções estão cheias de citações e alusões: “Partido Alto”, de Chico Buarque, mas também “Luna Tucumana”, de Atahualpa Yupanqui, e “A Noite do Meu Bem”, de Dolores Duran.

Ela está no Myspace (myspace.com/lulapena). Procurem-na.

ISABEL COUTINHO, Folha de S.Paulo, 29.08.2010

29.08.2010 | by martalanca | fado, Lula Pena, poesia