Cronices Crónicas: Cartorzinhas... um problema de adultos

Há uns anos escrevi sobre Clara de Sabura (http://montedepalavras.blogspot.com/…/a-guine-bissau…), um filme que abordou ligeiramente mais ou menos e involuntariamente a questão das “catorzinhas”, mas de uma forma terrível, colocando-as, através da protagonista, no lugar de perpetradoras, em vez de vítimas. E depois, quando escrevi o artigo “ajoelhou vai ter que rezar” (http://montedepalavras.blogspot.com/…/ajoelhou-vai-ter…), prometi que iria discorrer sobre o tema “catorzinhas”, mas fui deixando passar até agora. Só me referi a isso porque os dois textos vão ajudar-me a construir o análise. Bora!

Catorzinhas, segundo o vocabulário popular, são miúdas de catorze anos (e menos) que se envolvem em relações sexuais com homens adultos. Consideradas miúdas terríveis, destruidoras de casamento, putas, entre outras caracterizações mais simpáticas. São as “meninas que estão a estragar a nossa sociedade”, na fala de alguém.

O fenómeno não é só guineense. Depois da guerra civil em Bissau, muitas pessoas refugiaram-se em Cabo Verde e quando voltaram trouxeram a expressão “pikena”, para se referirem às namoradas (na Guiné dizíamos e ainda dizemos “mininu” e é só aplicado às raparigas com quem se tem relacionamento sexual, não propriamente ou necessariamente como namorada). Pensando sobre a provável origem dos termos não me pareciam algo nascido entre os jovens, porque pessoas da mesma idade não chamariam meninos uns aos outros (lembro-me que uma vez uma “menininha” foi fazer queixa do meu irmão à minha mãe e referiu-se a ele como “aquele rapaz” - ele tinha 5 anos - rimo-nos do tratamento, porque rapaz seria eu que tinha 12, embora eu fosse também menino para a minha mãe). O termo “pikena” e “mininu”, terão certamente sido originado de adultos que se relacionam com miúdas novas, diria mesmo, menores de idade, “mininus” (no Braziu é novinha).

Na questão das catorzinhas, na Guiné, quem é vista de revés e como problemática são as próprias meninas que se relacionam com homens que deviam ser considerados pedófilos. A exploração delas é celebrada pelos homens adultos e, atrevo-me mesmo a dizer, pela sociedade guineense que não vê mal nisso, pelo menos da parte do homem.

Tabanka Djass, nos anos 90, cantou uma música, SUB-17, onde o protagonista diz que dormiu com uma menina que no fim lhe diz “amor, só tenho 15 anos”, falava de meninas abaixo dos dezassete anos, menores. Okay! Vamos dizer que ele não sabia até a revelação final, mas ainda no mesmo álbum tinha a música “RUSGA DI 7 I MEIA”, com história do “Ntoni Mansebu” que “paka mininus na skola, leba kubiku” (engata miúdas na escola e leva para o quarto). Aquilo era e é a normalidade de Bissau, ninguém estranha ouvir isso numa música, a própria música não foi feita para questionar a prática, apenas para contar a história de um “maaaaaaacho”.

Ramiro Naka, mais recentemente canta “NDURO TENE PO GROS” (o Nduro tem o pau grosso), na qual diz” atenson katorzinhas” (e quinzenhas e dezasseiszinhas e dezassetezinhas… nunca chegou às 18zinhas, serão velhas demais?). Tudo em modo de celebração (bem, a Guiné é um local onde até músicas de exéquias são feitas em modo celebrativo, olhem a tina por exemplo). De qualquer maneira esses artistas não problematizam, mas normalizam a pedofilia (aceite socialmente) em torno das catorzinhas.

Chachá di Charmi também tem a sua música, CATORZINHA, sobre ir buscar uma catorzinha para festa, “katorzinha djanti de, abo k Cha na pera” (Catorzinha vem depressa, és tu que o Cha deseja), é para festejar porque não há igual à catorzinha. Se algumas músicas não são tão muito explícitas, a música de Chachá é declaradamente um hino pedófilo.

Como disse antes, as catorzinhas são as más da fita, são elas que “vestem tchunas para atrair homens mais velhos e nossos maridos e não querem andar com os seus colegas, porque esses não têm dinheiro para lhes dar”. Mário de Max Poss na música, “RELATÓRIO”, diz “katorzinhas ta durmi ku kolegas di se pape” (as catorzinhas dormem com pessoas da idade dos seus pais). É verdade, também. Mas o problemático mesmo nessa relação são os pais que dormem com colegas das suas filhas, menores.

Há muitas músicas a falar mal das catorzinhas, muitas mesmas e ainda não ouvi (pode existir, eu é que não sei, porque nunca ouvi)… ainda não ouvi uma única a colocar-se do lado das catorzinhas e a culpar ou responsabilizar os adultos que fomentam essa prática.

O filme CLARA DE SABURA fala de uma menina que se safa na vida a dormir com pessoas. Pessoalmente, nada contra, cada um usa as habilidades que dispõe para sobreviver e estar confortável, o problema é quando retiram a alguém todas as possibilidades e só lhe resta essa. Mas o maior problema, no filme, é que Clara estava na ciclo preparatório e dormia com o professor (subentenda-se professores) para passar e depois com um ministro(?). É a realidade. Todavia, o filme sobre isso não disse nada e em vez de questionar essas figuras de poder que se aproveitavam dela, batia o tempo inteiro na Clara, deixando-a basicamente na posição daquela que corrompia os pobres homens.

Parece que não se quer ver que o problema das catorzinhas é de facto uma questão de homens adultos.

Há duas situações que concorre(ra)m para normalizar o fenómeno catorzinha na Guiné: i) a dita tradição, e ii) a pobreza.

Sobre a primeira: Guiné-Bissau, tal como o resto do mundo, é machista e patriarcal e, como praticamente todos os países africanos que conheço, poligínica (não sou contra este último modelo, desde que as partes estejam de acordo e não por causa de uma tradição machista patriarcal e desde que a poliandria seja permitida).

Todavia, enquanto que em algumas partes do mundo, apesar de muito precariamente, as meninas são “protegidas” de abusos pela lei, essa estrutura é praticamente inexistente na Guiné. Ainda hoje há casamentos forçados, meninas, meninas mesmo, menores de idade, são obrigadas a casar com homens maduros (alguns, velhos a cair de encurbadeça), e se isso é uma prática dita não-assim-tão-normal hoje, na geração do meu pai era bastante normalizada, e eles ainda controlam as coisas, e nós aprendemos com eles e reproduzimos.

Estamos habituados a que um homem tenha muitas esposas, habituados a marcar casamentos quando se descobre que a pessoa nasceu com uma vagina (e ainda nem sequer lhe demos um nome), às vezes, o casamento é marcado com homens já com outras esposas e com netas mais velhas que a recém-nascida. Habituados a que o homem possua mulheres (em todas acepções da palavra), que quando vemos um homem a desfilar com catorzinhas, assumimos simplesmente que ele está no seu direito e que ela é que é puta.

Segunda situação: pobreza.

Numa conversa, com um alguém (ele sabe quem é), ele estava a acusar as catorzinhas de vida fácil e de falta de perspectiva (nisso concordo, e já explico), e que os homens não têm culpa porque muitas vezes são seduzidos por causa do que podem oferecer, e quando lhe perguntei se não tinha medo que a sua filha, menor, fosse seduzido por um desses gajos e o que diria, se acontecesse, ele sentiu-se ofendido e respondeu: “não, não estou, pois não há sequer essa possibilidade! eu eduquei muito bem os meus filhos e nunca lhes faltou nada, dei-lhes sempre tudo, não são ilusionados”. A conversa todavia não desenvolveu porque outra pessoa chegou. Depois tive um quase eureka: “os homens aproveitam-se das catorzinhas porque sabem que elas não têm tudo, então seduzem-nas com bens materiais” É da carência. Sabemos que a carência fragiliza as afirmações e facilita o exercício de poder, por isso alimentamos a prática e mantemos o ciclo.

A Guiné é um país de machos, uma sociedade onde um homem ameaça outro homem dizendo-lhe “n na bidantau mindjer!” (vou tornar-te numa mulher!), para mostrar a sua força . Duas ideatices se refletem nesta frase: i) que um homem é superior à mulher, por isso é humilhante um homem ser reduzido a essa posição. ii) tornar alguém mulher faz-se com o pénis… bater na pessoa não bastará, será preciso violá-la? (eu vejo nisto, na verdade, um incofesso desejo homo-erótico, também nada contra, desde que não seja por violência).

O que tem essa descrição atrás a ver com a pobreza? Se calhar nada e eu só quis falar dela. Todavia, o cerne é que o macho tem que mostrar poder, não podes ter força se não tiveres muitas mulheres e nas nossas sociedades mais terra-a-terra, quanto mais ricos os homens, mais mulheres “possuem”. O que se verifica no facto de mal um homem ascender a uma posição social mais endinheirável, começa a colecionar “casas dois” por tudo o que é canto.

O poder, em todas as suas formas, ainda está concentrado na mão dos homens, e um bom homem, na nossa concepção, é aquele capaz de pôr almoço e jantar em cima da mesa. Agora imagina que esse homem põe isso e ainda põe teto sobre a cabeça, roupa sobre o corpo, saldo no telemóvel, luz em casa, água canalizada no quintal, saldo no telemóvel, carro na garagem, dinheiro no bolso, saldo no telemóvel, entre outras coisas, torna-se em não um bom homem, mas num espetacular homem.

As mulheres são treinadas desde criança a fisgar um bom homem e a estar numa boa porta de casamento, porque oportunidades para as mulheres sempre foram poucas, portanto elas têm de trabalhar muito para não serem trocadas e serem Apilis, o que significa aceitar a submissão. Estando os homens a ocupar as posições de poder, dormir com um bem posicionado é a forma mais rápida para encontrar trabalho ou um bom cargo, conforme a ambição, é certo, desde trabalhar na presidência da república, a conseguir uma bolsa de estudos, umas notas favoráveis, a lavar a roupa de um zé-ninguém qualquer capaz de pagar o suficiente para pôr mafé em arroz branco. O corpo passa a ser uma moeda de troca. Então com tudo nas mãos dos homens, o que resta às mulheres? O que restas às catorzinhas?

A adolescência é a idade onde somos mais impressionáveis. Quem de nós já não esteve apaixonado por uma figura de autoridade que levante um braço. Eu pessoalmente, houve um ano em que só apanhava 20 em biologia porque estava apaixonado pela professora. E experiências dessas repetiram-se várias vezes. No caso das meninas, professores homens aproveitam-se disso para abusarem das suas alunas.

Adolescentes apaixonam-se por pessoas mais velhas, adolescentes são impressionáveis, e num contexto onde uma menina vê muitas à sua volta com um simples relógio que ela não pode obter, pensem no quão fácil é ela ser seduzida por um telemóvel. Elas estão na idade de experimentação e de desafiar o mundo, muitas vezes acham que é uma afirmação da sua identidade e da sua autonomia dormir com um adulto. Portanto, cabe sempre ao adulto o trabalho de não corromper e de não facilitar.

Há situações em que é a catorzinha que põe o pão na mesa, porque dorme com este ministro ou com aquele comerciante lá do bairro, ou porque vai para os hotéis com homens da idade do pai (e os hotéis não querem saber da sua idade). A primeira vez que entrei num hotel de 5 estrelas, fartei-me de mandar fotos às pessoas, agora imaginem a impressão que isso não terá numa menina que nunca dormiu num molaflex antes.

Os pais fecham os olhos porque não há alternativa, o governo já não paga há 9 meses e estão a viver de mon-di-timba, o pai vive com vergonha, passa o tempo a cobar-mal à filha para levantar a cara à frente dos vizinhos, mas não deixa de exigir o peito de frango na sua tigela, embora desde há muito tempo que não dá o dinheiro de mafé e o pouco dinheiro que desenrasca é para a sua casa-dois ou para a catorzinha que ele por sua vez quer impressionar. A mãe também finge entre saber e não saber, mas lá aconselha quando estão sozinhas “faz um jeito para apanhares barriga, porque esse kriston-matchu tem dinheiro”.

Não há emprego para jovens na Guiné, os gajos passam tempo nas bancadas, e elas, cuidadoras da casa e da família desde mais novas, arranjam alternativas para alimentar os irmãos, futuros maaaaaachos, sentados nas bancadas a falar mal das catorzinhas e a moldarem-se no machismo. Essa falta de oportunidades, essa falta de perspetiva é que pesa sobre as meninas e que lhes molda o caminho. Se mesmo mulheres formadas e super-inteligentes precisam de dormir com presidentes e presidentes de assembleias e ministros e deputados e diretores e ministros e professores e padres e ministros e cobradores de toca-toca e/ou qualquer um que tenha algum poder, e isso é tão normal, qual é a perspetiva para uma catorzinha?

Recentemente alguém me falou que houve em Bissau, numa discoteca (não vou dizer o nome, porque má publicidade é publicidade), um evento chamado de algo como “festa das catorzinhas arrombadas” (aposto que foi um gajo nos seus quarenta ou cinquenta a organizar aquilo), isto é o que eu disse atrás, uma celebração da pedofilia e da impunidade.

Queria ver os governantes a tomar uma posição sobre esta questão, mas sendo eles os maiores financiadores da prática, não tenho fé nisso. Portanto, temos de ser nós a tomar atitude, a discutir cada vez mais o assunto, a chamar pedófilo aos pedófilos e a largar o pé das catorzinhas. Não me venham pra cá com merdas de tradição.

por Marinho de Pina
Corpo | 6 Dezembro 2021 | catorzinhas, machismo, patriarcado, pedofilia, sociedade