O Debate Cultural nos Novos Media

Abordo esta temáica na minha tese de mestrado em Comunicação, bem como no webinar “Património para Todos”, organizado pela associação Youth in Conservation of Cultural Heritage Portugal. 

O desenvolvimento da sociedade e da capacidade de cada indivíduo se interligar e partilhar informações está dependente da comunicação, que vem permitir diálogo, e que as pessoas se expressem sobre os mais variados assuntos, que se manifestem, que dêem a sua opinião e o seu contributo cívico, potenciando igualmente o fenómeno da globalização no campo do digital.  Hoje em dia, graças à tecnologia e através do bom uso e utilização dos recursos que a internet permite, sabemos através de um clique aquilo que se passa em praticamente qualquer lugar do mundo e, se assim não fosse, nós potencialmente não teríamos acesso, tão simples ou rápido, a tantas coisas que tomamos como garantidas. Cada vez mais a comunicação se constitui como ferramenta imprescindível para que o mundo se mantenha a funcionar nos moldes em que até agora tem sido sustentado. No decurso deste artigo pretendo mencionar a importância das novas tecnologias e apresentar os casos das entrevistas feitas a propósito de um evento sobre arqueologia na culturgest para defender a importância das plataformas no debate cultural online.

A cultura, no sentido geral de identidade coletiva partilhada e modo de experiência do mundo que molda comunidades, constitui-se como imprescindível para que uma sociedade ganhe vida e adquira características únicas; logo, mais do que interesse em refletir, existe uma necessidade em torno da exploração da área cultural para que esta seja entendida como criadora e difusora de ideias. O universo da comunicação e a sua estreita ligação à cultura realiza-se hoje também na área digital, no ciberespaço enquanto campo de expressão comunicacional, e em termos concretos podemos avaliar o seu potencial e as inúmeras ações que permitem aos indivíduos agir e moldar a sociedade atual, pois vivemos num mundo globalizado, e para alguns a informação está à distância de uma pesquisa online. Existe um conhecimento disponível sobre aquelas que são as várias comunidades que constituem a sociedade como um todo, e existe também mais informação disponível sobre todos os temas imagináveis.

Via - Fixe FestivalVia - Fixe Festival

O espaço online possibilita concretamente que qualquer pessoa que tenha internet e um dispositivo para aceder à mesma, publique as suas ideias que, por sua vez, chegam a outros indivíduos que possuam as mesmas características ou interesses. A partilha de opinião pode dar-se a vários níveis: cultural, político, económico. E ser feita de muitas maneiras: entre amigos, entre grupos, num chat privado, numa plataforma. Apercebemo-nos assim de que o atual “palco” comunicacional e de ação é a internet, é o campo online, pois permite à sociedade a inclusão em diferentes áreas e contribui para uma interação entre pessoas de diferentes classes. Refletindo nos benefícios imediatos, o ciberespaço e os meios de comunicação na produção e difusão de conhecimento especializado representam a oportunidade de expansão de ideais, e a promoção na abertura necessária para alterar perspetivas e posturas através da problematização de questões-chave. 

Apresento a plataforma BUALA como um exemplo no panorama português. O BUALA é um portal online que se insere nas novas formas de promoção de debate cultural no campo digital, concebido para promover, divulgar e partilhar artigos. É um canal de divulgação e veículo de exposição de vários tópicos do fórum cultural cujo destinatário principal é a comunidade online.

A existência do online enquanto canal propiciador de encontro é de grande relevância quando nos encontramos perante temas culturais, pois funciona como local de interação. Esta interação não é apenas desenvolvida através de conversas, mas também solidificada através da partilha e republicação de conteúdos entre plataformas. Existem igualmente vários tipos de relações estabelecidas nas comunidades virtuais que formam a comunidade virtual em si. Nestas comunidades virtuais inserem-se tanto as plataformas culturais quanto os indivíduos que usufruem dos seus conteúdos pois existe partilha entre os dois elementos. As plataformas digitais são geradoras de mudança porque vieram possibilitar realizar atividades que antes só existiam em contexto presencial, trouxeram avanços nas formas de comunicação, aproximaram pessoas e promoveram a descentralização da informação. As plataformas digitais vieram acrescentar valor à sociedade a partir do momento em que a mesma se mostrou recetiva à utilização desta nova ferramenta, potenciando assim o nível de interação entre indivíduos por forma a promover o debate cultural.Desta forma os indivíduos passaram a deter mais controle na informação a que acedem e quando acedem, não ficando assim privados da informação que procuram. 

A internet, tal como já referi, facilita as trocas entre várias pessoas e permite às mesmas criarem e divulgarem variados tipos de conteúdo; como podemos imaginar, grande parte desse conteúdo é associado à cultura, ou por ter índole cultural ou por afetar a cultura da sociedade que recebe e trata o conteúdo divulgado. Na atualidade, o debate cultural está intrinsecamente conectado aos Novos Media e Plataformas Sociais e esta crescente preocupação em compreender as questões culturais e divulgá-las eficientemente verifica-se no plano da comunicação mediada digital, e é vastamente defendida e apoiada por quem se interessa não só em adquirir um conhecimento efetivo nas mais diversas áreas, mas igualmente em produzir mudanças na sociedade. Diria, portanto, que o interesse em refletir acerca das questões culturais vai além da cultura em si e passa para outros campos da ciência, tendo conquistado o seu próprio espaço e estatuto no campo da reflexão, e numa crescente participação cívica por parte dos indivíduos. 

A divulgação cultural constitui-se hoje como uma grande prioridade na base de várias plataformas que promovem a intercomunicação e os temas culturais graças ao espaço onde se encontram - o espaço virtual. A tecnologia permite que se estabeleçam redes de contactos e que exista um interesse comum a essas redes em divulgar e promover a cultura. Este debate e promoção cultural online pode ocorrer de várias maneiras: através da partilha de informação sobre peças de teatro, espetáculos, lançamento de livros, e emissão de documentários online; através do apoio a uma plataforma de streaming ou programa de podcast; e através da união entre plataformas para realização de eventos em conjunto e assim trazer visibilidades aos mais diversos temas.

Os casos que vou apresentar são um exemplo da grande abertura e da conquista de espaço para debate por parte das redes sociais e plataformas culturais, pois estas mantêm-se abertas e dispostas a participar, recebendo e divulgando este tipo de iniciativas que trazem toda a atenção para o tópico em debate. A interação gerada em torno do caso trouxe para a esfera pública o debate acerca da necessidade urgente de desconstruir, elucidar e educar as pessoas sobre migrações forçadas. As entrevistas surgiram de um projecto apresentado na Culturgest chamado “Arqueologias da Hospitalidade” que visou apresentar a vida dos migrantes através de uma perspectiva arqueológica, apresentando-os como humanos e não como ideias pré-concebidas de vítimas frágeis que nos foram transmitidas pelos meios de comunicação social. O projecto contou com os investigadores Yannis Hamilakis, Rachael Kiddey e Rui Gomes Coelho.

Na primeira entrevistei procurei compreender melhor a situação da passagem, das políticas securitárias e de desprezo pelas vidas de quem tenta chegar à Europa, bem como a resistência dos aventureiros migrantes e de quem trabalha nos campos, entre outras coisas, pelas explicações e o posicionamento de Yannis HamilakisFoi-me elucidado pelo investigador como o papel da arqueologia na sociedade contemporânea, como os monumentos e como os lugares arqueológicos funcionam no presente; como fenómenos sociais específicos, incluindo o Estado-nação, confiam na arqueologia e em artefactos arqueológicos, achados e monumentos para construir a sua própria versão da realidade, a sua própria noção de imaginário. Falámos sobre Moria, um campo de refugiados, que estava sobrelotado, onde era suposto estar-se a salvo mas se sofria. 

Na segunda entrevista, conversei com Rachael Kiddey sobre o impacto de sermos forçados a fugir do nosso país. Sem nada. É tão horrível quanto soa. Perguntei-lhe qual seria o impacto da covid-19 na dinâmica das migrações e a resposta foi deveras preocupante: “ficarão presos nos campos porque todo o processo de asilo parou”. 

Na última de 3 entrevistas falei com Rui Gomes Coelho sobre o impacto da arqueologia na contemporaneidade. Em que se colocava uma questão mais geral: qual é a genealogia da crise de acolhimento na Europa, no contexto das migrações contemporâneas? Será que as coisas podiam ter acontecido de modo diferente?

A ligação que eu pretendo estabelecer é a seguinte: através dos media tradicionais como jornais, televisão e rádio temos conhecimento sobre estas temáticas. Algum, sim. Sabemos que os migrantes são salvos em alto mar, mas não sabemos os seus percursos enquanto ser humano. Não fazemos ideia de qual é o seu dia a dia. Não debatemos sobre isso. 

Ao termos acesso a plataformas culturais, ao apostar cada vez mais na abordagem deste tipo de temas, ao trazer o conhecimento destes eventos ao público, promoveremos o debate em torno destas questões. Antes do projeto da Culturgest, talvez algumas pessoas não se questionassem como era a vida no campo de refugiados, ou o que levariam consigo caso fossem obrigadas a deixar as suas casas. A promoção do debate cultural acarreta o poder de mudar opiniões e possivelmente leva os indivíduos a tomar decisões. Daí ser necessária uma contínua e forte aposta nas plataformas culturais, que promovem debates e cujo propósito máximo é elucidar os seus leitores e fornecer-lhes as bases necessárias para eles pensarem, explorarem e interligarem temáticas.

por Alícia Gaspar
A ler | 28 Setembro 2021 | Buala, comunicação, cultura, debate cultural, mediação da informação, novos media, plataformas digitais