Octa Push em Nairobi

Num projecto comissionado pelo The Goethe Institute, “10 Cities” serão palco, até 2014, de uma experiência multicultural única que juntará músicos e produtores de música electrónica e cultura club (5 cidades europeias e 5 africanas).

Depois de Angola, Lagos e Joanesburgo, Nairobi será a próxima cidade onde a música electrónica europeia, e a cultura club em geral, representada pelos portugueses Octa Push e Batida, vai interagir com bandas locais, de 14 de Abril a 1 de Maio, com o objectivo de produzirem temas em conjunto, que serão reunidos posteriormente numa compilação.

Durante estas duas semanas de intensa cooperação e produção musical, decorrerão ainda DJ sets, live-acts e concertos pela capital queniana.

Deste projecto constam os produtores europeus e africanos: Diamond Version (Alva Noto e Byetone), Gebrüder Teichmann, Jahcoozi, Pinch, Rob Smith, Dirty Paraffin, Vakula, Dubmasta, Wura Damba, Oboyega Oyedele, Djeff, DJ Satellite, Just A Band, Camp Mulla, Marco Messina, Lucio Aquilina e claro, Octa Push e Batida.

Tudo isto acontece pouco antes do álbum de estreia dos Octa Push ser editado, em Junho, pela inglesa Senseless, cujo primeiro single, “Françoise Hardy” (clicar para ouvir), conta com a participação do vocalista dos Youthless, Alex Klimovitsky.

www.ten-cities.com  ::  www.facebook.com/octapush 

 

03.04.2013 | par franciscabagulho | afro-beat, musica electrónica

Nik Bärtsch’s RONIN: A banda de jazz zen-funk apresenta novo álbum, “LIVE” (ECM), na África Austral

Música ritual japonesa, sons clássicos, espaço arquitectónico, improvisação, funk – elementos que se entrelaçam metodicamente, porém de forma artística e harmoniosa, pelo quarteto suíço Nik Bärtsch’s Ronin.

A banda Ronin, constituída em 2001 e liderada pelo compositor e pianista Nik Bärtsch, natural de Zurique, é dotada de um som idiossincrático forte. Com o baterista Kaspar Rast, Sha nos clarinetes baixo/contrabaixo e sax alto e Thomy Jordi no baixo. Cada membro do grupo dispõe de enorme controlo e visão não só em relação aos sons que ele próprio produz mas também às sonoridades que surgem da combinação com os restantes instrumentos. É aqui que os instrumentos se fundem como componentes de uma orquestra sinfónica, ao mesmo tempo que acompanham a visão estética da música ritual groove.

Com uma presença irresistível no palco, e distinguida pelo Wall Street Journal como um dos seis melhores espectáculos ao vivo em 2011, a Ronin conta agora com o apoio da Pro Helvetia, a Fundação Suíça para a Cultura, para fazer chegar ao Cape Town Jazz Festival, Joanesburgo, Durban, Suazilândia e Moçambique a energia hipnotizante que caracteriza as suas actuações ao vivo. A banda oferecerá ainda vários workshops que se realizarão em locais seleccionados.

“Isso demonstra bem a versatilidade e a franqueza da chamada música moderna que não se 
impõe limites mas visa talvez romper as fronteiras existentes.” Hans-Jurgen von Osterhausen, Jazzpodium (Alemanha).

CIDADE DO CABO
Sexta, 5 de Abril de 2013 | 19h00
Cape Town International Jazz Festival
Cape Town International Convention Centre
Moses Molelekwa Stage
Ingresso de um dia R440
www.capetownjazzfest.com

Workshop:
6 de Abril | 16h00
Sala VOC, 3º Andar, Cape Sun
Por inscrição

JOANESBURGO
Segunda, 8 de Abril | 19h30
The Music Room, 8º andar do Edifício University Corner, Universidade Wits, Jorrisen Street, Braamfontein.
R50 Bilhetes à venda no local; entrada livre para estudantes.
Estacionamento subterrâneo disponível no Edifício University Corner. Entrada localizada na Jorrisen Street

DURBAN
Quarta, 10 de Abril de 2013 | 18h00
The Centre for Jazz and Popular Music
Campus Howard College da UKZN
Estudantes R10 | Pensionistas R20 | Adultos R35

MALKERNS
Suazilândia Quinta, 11 de Abril | 20h00
House on Fire, Malandela’s Complex Malkerns
E 70 Bilhetes à venda no local
www.house-on-fire.com

MAPUTO
Moçambique Sábado, 13 de Abril | 20h30
Centro Cultural Franco Moçambicano – Auditório CCFM
Avenida Samora Machel, 468 Maputo
Público em geral 250 Mt, Membros do CCFM 150Mt
www.ccfmoz.com

03.04.2013 | par herminiobovino | África do Sul, jazz, Moçambique, música, Zen-Funk

Zanele Muholi was honoured at the Index on Censorship Freedom of Expression awards in London.

Muholi won the Index Arts award, for which she had been nominated alongside Russian punk group Pussy Riot, Saudi Arabian filmmaker Haifaa al Mansour, and Indian cartoonist Aseem Trivedi.

The Index Awards are, according to the organizers, ‘an extraordinary celebration of the courageous and determined individuals around the world who have stood up for free expression, often at great personal risk’. Dedicating the award to two friends who were victims of hate crimes and later succumbed to HIV complications, Muholi said: ‘To all the activists, gender activists, visual activists, queer artists; writers, poets, performers, art activists, organic intellectuals who use all art forms of expressions in South Africa. The war is not over till we reach an end to ‘curative rapes’ and brutal killing of black lesbians, gays and transpersons in South Africa.’

According to The Guardian, CEO Kirsty Hughes said: ‘Zanele has shown tremendous bravery in the face of criticism and harassment for ground-breaking images which include intimate portraits of gay women in South Africa, where homosexuality is still taboo and lesbians are the target of horrific hate crimes. She has won the award both for her courage and the powerful statements made by her work.’

Born in Umlazi, Durban, in 1972, Muholi describes herself as a ‘visual activist’, presenting positive imagery of black lesbians and transgendered persons through her work. Her series of black and white portraits, Faces and Phases, was exhibited at Documenta 13 in 2012, as was her documentary, Difficult Love, which has been shown to acclaim at festivals around the world.

Works from Muholi’s Faces and Phases series are currently on exhibition at Yancey Richardson Gallery in New York, through 6 April.

 

GALERIA DE ZANELE MUHOLI NO BUALA 

Ler aqui artigo sobre o trabalho da artista 


02.04.2013 | par martalanca | Zanele Muholi

ÁFRICA NO FESTIN [3 > 10 ABR 2013]

FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa está de volta ao Cinema São Jorge, em Lisboa, para a sua quarta edição.

Entre 3 e 10 de abril serão exibidos 77 filmes, entre 24 longas e 53 curtas-metragens (ficção, documentário e animação), provenientes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.

Entre as novidades desta edição, destaque para uma homenagem ao cinema de Angola e para uma maratona de documentários, no dia 8 de Abril, onde serão exibidos oito filmes, entre longas e curtas-metragens.

alguns lembretes:

QUARTA, 3 DE ABRIL

O GRANDE KILAPY
Angola/ Portugal/Brasil, 2012, 100 minutos, Ficção
Realização: Zezé Gamboa
Com: Lázaro Ramos, Pedro Hossi, João Lagarto, Patrícia Bull, Adriana Rabelo, Sílvia Rizzo, Hermila Guedes, São José Correia

Horário: 3 de abril | 21h30 | Sala Manoel de Oliveira

Sinopse: Joãozinho é um vigarista com uma profunda ética de amizade, bon vivant a todo o custo, é uma pessoa simples e que vive indiferente às contingências de vida numa colónia portuguesa. Por forças das circunstâncias Joãozinho acaba por se tornar uma personagem incómoda e subversiva para o regime colonial português.

NOS TRILHOS CULTURAIS DA ANGOLA CONTEMPORÂNEA
Angola, 2010, 58 minutos, Documentário
Realização: Dias Júnior
Com: Orlando Sergio

Horário: 4 de abril | 22h00 | Sala 3

Sinopse: Produzido no âmbito da série DOCTV-CPLP, que apresentou ao público nove documentários inéditos produzidos nos países da CPLP e em Macau, este documentário traça os trilhos da linha entre o passado, o presente e o futuro de uma linha férrea de importância extrema que atravessa Angola de leste a oeste. Em 50 minutos, o documentário, que levou 16 dias de rodagem e seis meses de produção, centra a sua ação no troço Lobito/Cubal (ambos municípios de Benguela), num percurso de aproximadamente 153 quilómetros.

CULTURAS VIVAS
Angola, 2012, 45 minutos, documentário
Realização: Chico Júnior
Com: Povos hereros

Horário: 5 de abril | 20h00 | Sala 3

Sinopse: Este documentário retrata e valoriza algumas etnias do sul de Angola com destaque para os subgrupos do grupo Hereros, que mesmo com os quinhentos anos de colonização e de imposição religiosa, mantiveram-se firmes na conservação da sua cultura ancestral, a mesma que faz parte do acervo de culturas desta imensa Angola. A sua interação com outros grupos bantus, o confronto permanente durante a transumância e a sobrevivência do gado são também problemas abordados nesta obra.

MANIFESTO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO
Moçambique, 2012, 5 minutos, Documentário
Realização: Diana Manhiça
Horário: 6 de abril | 18h00 | Sala 3

Sinopse: Originalmente editado como um manifesto do KUGOMA para a introdução da seção de Arquivos de Imagens em Movimento do festival, em 2012, as imagens filmadas por Diana Manhiça e Ilda Abdala durante a remoção de caixas e películas irrecuperáveis do acervo do INAC (Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema), em Maputo, foram cruzadas com registos do Simpósio do Festival Dockanema de 2010, e excertos de entrevistas do Projecto “Fora de Campo” de Catarina Simão. O contexto é definido por elemento textuais, da Declaração sobre a Conservação e Preservação do património Audiovisual da UNESCO, de 1980.

SEGUNDA-FEIRA, 8 DE ABRIL

BAFATÁ FILME CLUBE
Portugal/Guiné-Bissau, 2011, 77 minutos, Documentário
Realização
: Silas Tiny.

Horário: 8 de abril | 15h30 | Sala 3

Sinopse: Em Bafatá, na Guiné-Bissau, Canjajá Mané, antigo operador de cinema e guarda do clube da cidade, repete os mesmos gestos há cinquenta anos. Mas atualmente o cinema está fechado e não existem espectadores. Dos seus tempos como trabalhador do clube até aos nossos dias, restam apenas recordações. Na cidade, somente as pedras, árvores e o rio resistiram à erosão do tempo. E com eles, algumas pessoas, que ficaram para perpetuar na memória do mundo e dos homens, que ali já viveu gente. São essas pessoas por quem Canjajá procura e espera pacientemente até hoje.

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02.04.2013 | par martalanca | cinema, cinema africano, festin

The beginning and the ending of a b&w week in Vienna; Maria Vlachou´s notes

I arrive in Vienna on a Friday night. The taxi driver´s face tells me that his country of origin might be somewhere in the Middle East. He doesn´t speak english, so we can´t talk. A few minutes later he answers a phone call. I hear him speaking turkish. “So, you are from Turkey?”, I ask, when he hangs up. He looks at me surprised through his mirror and asks me (probably): “You understand turkish?”. I tell him “Yunanistan” (Greece, in turkish). He looks at me even more surprised and says: “You?! Yunanistan?!”. And he continues in english: “Me, you, no problem, no problem!”. I smile: “No problem”, I tell him. When we arrive at the hotel, I thank him in turkish. He seems pleased.

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I am in Vienna for a workshop on “Racism and Cultural awareness”, funded by Grundtvig, the European Union programme for lifelong learning. The main trainer is a black woman who seems to be dynamic and very self-confident. The participants come from Bulgaria, Romania, the Czekh Republic, Poland, Germany, Ireland, the Netherlands, UK, Spain and Turkey. Black and white people – or kind of black and kind of white  - many originating from countries other than the one they´re presently residing in, people of different ages and backgrounds, gathered in Vienna to discuss racism
We are asked to talk about our expectations from this workshop. I tell them I expect my views on racism to be challenged, my thinking to go a bit further, because I know that none of us considers him/herself to be racist, yet, we might be surprised.
Later on, we´re given by the trainer a definition of racism: “Racism is discrimination with power in a white dominated society.” I am not comfortable with this definition.
-  “Do you see racism today as something that just white people do to black people?”, I ask. -  “It´s not me saying it”, the trainer answers, “this is how it´s been defined.”
And at that moment, with this kind of answer, I know that the week ahead of us will be more complicated and less interesting than I had anticipated. But challenging, nevertheless.
There are a number of reasons why this experience left me deeply concerned and disappointed, apart from uncomfortable.
First of all, along the week, we were bombarded with statements (some, actually, being serious historical inaccuracies), rarely, or rather never, referring to any kind of bibliographic source and not supposed to be further discussed: so, we were told that we should forget about the ancient Greek philosophers and their contribution to european and world culture, because they had been seen studying in Egypt (just this, “they had been seen”); that Herodotus described Cleoparta as someone with african traits (how did he do that, if he lived five centuries before her?); that Alexander the Great burnt the library of Timbuktu (actually, I think he went the other way); that doctors today are taking an oath written by an egyptian doctor (mmm… would that be Hippocrates?).
Secondly, there was a determination to hush anyone, white or black, who might attempt to put racism into a contemporary, broader perspective. We were either told that this was not the subject of the workshop or our comments and questions were met with ironic laughs or agressive responses, as our wish for debate was seen as an attempt to minimize the seriousness of white racism against blacks in order to deal with our “white guilt”. The arguments to support this kept coming. In a tour around the city (called “Black Vienna” in the workshop programme), a young black woman - living in Austria since the age of two and an Austrian citizen today – shared her story of entering a play by Tennesse Williams as the maid (typical role reserved for black actors, she said). She felt uncomfortable with the use of the word “nigger” in Williams´s text. She wanted it to be changed (Let´s see: she would be happy to change a text written in the 50s and presenting a story in the american south, where a white - probably racist - character wishing to depreciate a black would maybe use the term ‘african american’ instead of ‘nigger’? And maybe the maid should be interpreted by a white actress? Seriously, is this the way to fight racism?). After this, continuing our city tour, we were also taken to the city park, to be shown the spot where a black youth was seriously beaten by the police (presumably for being black), with the ambulance taking ages to come, the attack resulting in the youth´s death (two weeks before a very similar incident had taken place in Salonika, Greece, where the police didn´t like much the “anarchist” looks of a – white – youth…).
An apparent inability of the black community in Vienna to get organized in order to pursue their rights and widely share their concerns with the viennese society, was equally worrying and rather surprising too.

We were told the story of Angelo Soliman, a black man who arrived in Vienna in the 18th century, was greatly respected by the local society and a companion to the emperor himself for his intelligence and vast knowledge and even got married to a white woman… only to be embalmed and displayed at the Natural History Museum after his death. An exhibition about him at the Vienna Museum a few years ago was heavily criticised by our city tour guide, for the way it was depicting african people, but, apparently, there was no official reaction from the black community (read about the exhibition here). Later on, when we asked what kind of association they had to represent them in the Austrian society and in their dealings with the Austrian State, we were told that such kind of association was difficult, as the biggest community comes from Nigeria and they belong to different, and in the past rival,  tribes… How can it be that they are all one (“black” or “african”) when attacked or discriminated, but tribes are getting on the way when they should be getting organized?
Finally, one more reason of concern: the obvious anger and equally obvious inability (or lack of willingness) to put things in perspective. When the case of Zimbabwe was referred, in what concerns the treatment white farmers got from Mugabe´s government, we were told that this was justice. Black people had always lived there, whereas white people arrived much later, so, even if they are being born and raised on that piece of land for decades now, they are not allowed to call it “home”… On the other hand, young people who are officially today (black) Austrians – after having lived in the country for a number of years -, rage against austrian racism and discrimination. They are convinced (or prefer to think, in order to continue nurturing their anger) that whatever happens to black people is because they´re black.
I am not denying this kind of racism – on the contrary, if I did, I wouldn´t be there –, but in their repeated attempts to make us see a black victim, some of us would just see a victim: a poor person, a woman, a gay, a Roma… I was particularly impressed when a Senegalese participant, living in Barcelona, told us that, when a Senegalese boy was killed by Romas (shouting “kill the nigger”…), the community refused to see this as a racial crime and concentrated on the crime itself, the murder that had to be punished. It was a conscious choice to avoid turning one community against the other. The murder was seen as a murder.
And I feel that this might be the way forward. Considering that there is only one race, the human race, racism for me today can only have a metaphorical sense. It is discrimination with power (regardless of the colour of the discriminated or the powerful). In an interview with Mike Wallace, Morgan Freeman considered Black History Month to be “ridiculous”, refusing to see his history resumed in a month. When asked “So, how are we gonna get rid of racism”, he simply answered: “Stop talking about it. I´ll stop calling you a white man and you stop calling me a black man. I am Morgan Freeman to you and you´re Mike Wallace to me.”

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By the end of the week, waiting for our flights at the airport – four of us, blacks and whites of different origins – we discuss travelling and eventually low cost companies and their services. One of us, black, shares the story of her aunt, who was coming to Europe with Easyjet, and was told to wait somewhere for the check-in, being on purpose “forgotten” and having to purchase another ticket. “This is what they do to Africans, you see.”

Maria Vlachou

02.04.2013 | par candela | cultural awareness, Maria Vlachou, racism, Vienna

O começo e o final de uma semana a p&b em Viena; notas de Maria Vlachou

Chego a Viena numa sexta à noite. A cara do taxista diz-me que o seu país de origem poderá ser algures no Médio Oriente. Não fala inglês, por isso, não podemos falar. Alguns minutos mais tarde atende uma chamada. Oiço-o falar turco. “So, you´re from Turkey?”, pergunto quando desliga. Olha para mim através do retrovisor surpreendido e pergunta-me (provavelmente): “Percebe turco?”. Digo-lhe “Yunanistan” (“Grécia” em turco). Olha para mim ainda mais surpreendido e exclama: “You?! Yunanistan?!”. E continua em inglês: “Me, you, no problem, no problem.” Sorrio: “No problem”, digo-lhe. Quando chegamos ao hotel, agradeço-lhe em turco. Parece estar contente. 

…………………………………
Estou em Viena para um workshop sobre racismo e consciência cultural, financiado pelo Grundtvig, o programa da União Europeia de aprendizagem ao longo da vida – começa na segunda. A formadora principal é uma mulher preta que parece ser dinâmica e muito autoconfiante. Os participantes vêm da Bulgária, Roménia, República Checa, Polónia, Alemanha, Irlanda, Holanda, Reino Unido, Espanha e Turquia. Pessoas pretas e brancas – ou uma espécie de pretas e uma espécie de brancas – muitas originárias de países diferentes daqueles onde hoje residem, pessoas de várias idades e áreas, reunidas em Viena para debaterem o racismo.
É-nos pedido para falarmos das nossas expectativas face ao workshop. Digo-lhes que espero que as minhas ideias sobre o racismo sejam desafiadas, que o meu pensamento se desenvolva, porque sei que nenhum de nós se considera racista, mesmo assim, poderíamos ficar surpreendidos.
Um pouco mais tarde, é-nos dada pela formadora uma definição do racismo: “Racismo é discriminação com poder numa sociedade dominada pelos brancos.” Esta definição não me deixa confortável.
- “Vê o racismo hoje em dia como algo que apenas os brancos fazem contra os pretos?”, pergunto. - “Não sou eu que o estou a dizer”, responde a formadora, “é assim que tem sido definido.”
E nesse momento, com aquele género de resposta, sei que a semana que temos pela frente será mais complicada e menos interessante do que tinha antecipado. Mas desafiante, mesmo assim.
São várias as razões porque esta experiência me deixou profundamente preocupada e desiludida, para além de me fazer sentir desconfortável.
Em primeiro lugar, ao longo da semana, fomos bombardeados com afirmações (algumas delas sendo sérias imprecisões históricas), raramente, ou melhor nunca, fazendo referência a qualquer fonte bibliográfica e sem espaço para serem discutidas: assim, foi-nos dito que deveríamos esquecer os filósofos Gregos antigos e o seu contributo para a cultura europeia e mundial, porque tinham sido vistos no Egipto (só isso, “tinham sido vistos”); que Heródoto tinha feito a descrição de Cleópatra como tendo traços africanos (como, se viveu cinco séculos antes dela?); que Alexandre o Grande incendiou a biblioteca de Timbuctú (bem, acho que não se aventurou por esses lados); que os médicos hoje fazem um juramento escrito por um médico egípcio (mmm… será de Hipócrates que estamos a falar?).
Em segundo lugar, havia uma determinação em fazer calar qualquer pessoa, preta ou branca, que estaria a tentar colocar o racismo numa perspectiva mais contemporânea, mais ampla. Era-nos dito que este não era o tema do workshop ou os nossos comentários e questões provocavam risos irónicos ou respostas agressivas, uma vez que o nosso desejo para haver debate era visto como uma tentativa de minimizar a seriedade do racismo dos brancos contra os pretos a fim de lidarmos com a nossa “culpa de brancos”. Os argumentos para apoiar esta tese continuavam a chegar. Num passeio pela cidade (chamado “Black Vienna” no programa do workshop), uma jovem mulher preta – que vive na Áustria desde os 2 anos e que tem hoje nacionalidade austríaca – partilhou a história da sua participação numa peça de Tennessee Williams, fazendo de empregada (um papel típico reservado a actores pretos, disse-nos). Sentiu-se desconfortável com o uso da palavra “nigger” (preto) no texto de Williams. Queria que fosse substituída (vamos ver: teria ficado satisfeita se tivesse mudado um texto escrito nos anos 50 que apresentava uma história no sul dos EUA, onde um personagem branco (provavelmente racista) que queria rebaixar um preto usasse talvez o termo “african american” em vez de “nigger”? E talvez a criada devesse ser interpretada por uma actriz branca? A sério, é assim que se vai combater o racismo?). Depois disto, continuando o nosso passeio, fomos levados ao parque da cidade e foi-nos mostrado o local onde um jovem preto tinha sido atacado pela polícia com enorme gravidade (presumivelmente por ser preto), onde a ambulância demorou séculos para chegar, resultando o incidente na morte do jovem (umas semanas antes tinha ocorrido em Salónica, na Grécia, um incidente bastante parecido, quando a polícia não gostou do aspecto “anarquista” de um jovem – branco…).

A aparente incapacidade da comunidade preta de Viena em se organizar para lutar pelos seus direitos e para partilhar de forma mais ampla as suas preocupações com a sociedade vienense deixou-me também apreensiva e algo surpreendida. Foi-nos contada a história de Angelo Soliman, um homem preto que chegou a Viena no século XVIII e era muito respeitado pela sociedade local e um companheiro do imperador pela sua inteligência e vastos conhecimentos e até se casou com uma mulher branca… para depois da sua morte ser embalsamado e exposto no Museu de História Natural. Uma exposição do Museu de Viena sobre Soliman uns anos atrás foi severamente criticada pela nossa guia, pela forma como representava as pessoas de África, mas, aparentemente, não houve nenhuma reacção oficial da comunidade preta (mais sobre a exposição aqui). Mais tarde, quando perguntámos que tipo de associações tinham para serem representados na sociedade austríaca e nas suas relações com o Estado austríaco, foi-nos dito que este género de associação não era possível, uma vez que a maior comunidade africana era da Nigéria e as pessoas pertencem a tribos diferentes e no passado rivais… Como pode ser que sejam todos “um” (“pretos” ou “africanos”) quando atacados ou discriminados, mas que as tribos se metam no caminho quando é suposto organizarem-se?
Por último, uma outra razão de preocupação: a óbvia raiva e igualmente óbvia incapacidade (ou falta de vontade) de colocar as coisas numa perspectiva diferente. Quando foi mencionado o caso de Zimbabwe, e concretamente a forma como os brancos tinham sido tratados pelo governo de Mugabe, foi-nos dito que tinha sido feita justiça. Os pretos viviam lá desde sempre, os brancos chegaram depois, por isso, mesmo que nasçam e cresçam naquele pedaço de terra há décadas, não lhes é permitido chamá-lo “seu”… Por outro lado, jovens que hoje em dia são oficialmente Austríacos (pretos) – depois de terem vivido durante alguns anos no país – reclamam furiosos contra o racismo e a discriminação austríacos. Estão convencidos (ou preferem pensar, para poderem continuar a alimentar a sua raiva) que qualquer coisa que aconteça a um preto é porque é preto.
Não estou a negar este género de racismo – ao contrário, se o estivesse a fazer, não teria ido a Viena -, mas nas suas repetidas tentativas de nos fazer ver uma vítima preta, alguns de nós víamos simplesmente uma vítima: um pobre, uma mulher, um homossexual, um cigano… Fiquei muito impressionada quando um participante do Senegal, que vive hoje em Barcelona, nos disse que, quando um rapaz do Senegal foi assassinado por ciganos (que estavam a gritar “mata o preto”…), a comunidade recusou-se a ver este incidente como um crime racial e concentrou-se no crime, no homicídio que deveria ser punido. Tinha sido uma opção consciente para evitar virar uma comunidade contra a outra. O homicídio tinha sido visto como um homicídio.
E sinto que este poderá ser o caminho. Considerando que existe apenas uma raça, a raça humana, o racismo hoje em dia para mim só pode ter um significado metafórico. É discriminação com poder (independentemente da cor do discriminado e de que detém o poder). Numa entrevista com Mike Wallace, Morgan Freeman considerou o Black History Month “ridículo”, recusando-se a ver a sua história reduzida a um mês. Quando o jornalista lhe perguntou “Então, como vamos ver-nos livres do racismo”, simplesmente respondeu: “Parem de falar sobre isso Vou parar de te chamar branco e vais parar de me chamar preto. Sou Morgan Freeman para ti, e és Mike Wallace para mim.”
………………………………….
No final da semana, esperando pelos nossos voos no aeroporto – quatro de nós, pretas e brancas de diferentes origens – estamos a falar de viagens e depois das companhias low cost e dos seus serviços. Uma de nós, preta, conta-nos a história da sua tia que vinha para a Europa com a Easyjet e foi-lhe dito para esperar algures para fazer o check-in, tendo sido “esquecida” propositadamente e obrigada a comprar um bilhete novo. “Estão a ver, é o que fazem aos Africanos”.

Maria Vlachou

 

02.04.2013 | par candela | consciência cultural, Maria Vlachou, racismo, Viena

MOSCA 8 - 8th Cambuquira Short Film Festival

10 to 14th of July, 2013

THE FESTIVAL

MOSCA – The Cambuquira Short Film Festival - is focused on the diffusion of Brazilian and foreign audio-visual productions, as well as promoting a critical film-going public. The festival program includes Brazilian films screening, special programs of foreign movies, debates, workshops, exhibitions, children’s activities, a bar-restaurant and a travelling outreach festival. Since 2005, MOSCA has been contributing to the revival of film-going rituals in this small town, while also providing and expanding cultural and artistic opportunities for the local population.

DATES AND VENUE

MOSCA 8 will unfold from 10 – 14 July, 2013, in the Brazilian town of Cambuquira, located in the south of Minas Gerais, and otherwise renowned for its naturally mineral springs. The festival is warmly held at Cine Elite - an old city cinema that had been closed for about 20 years, but which in 2001 was lovingly restored by the cultural institution “Espaço Cultural Sinhá Prado”.

The venue and the town share a charming and idiosyncratic architecture, with calm and serene walking streets. This video, made for MOSCA 7, gives a glimpse of Cambuquira’s beauty and attraction:http://vimeo.com/44820975#at=0

After the primary festival in July, MOSCA continues its work with a travelling outreach festival, spreading the film-going spirit to other communities.

Service: 8th CambuquiraShort Film Festival  – MOSCA 8

Place: Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de Melo Franco, 481 – Cambuquira-MG / Brazil 

Date: 10 to 14th of July, 2013 

Realização: Associação Comercial Educacional e Cultural Sinhá Prado Guimarães and Ministério da Cultura. 

Audience: the program is for all ages

Free admission

01.04.2013 | par martalanca | Brasil, cinema, festival