Papagaios ao espelho do colonialismo

Em Museu Encantador, Portugal e Brasil são colocados frente a frente, como papagaios ao espelho: o papagaio convencionado como bicho imitador da colônia, que repete, sem saber o que repete (o imitador colonizado aqui representado pelo Brasil), e o espelho como superfície da metafísica ocidental, onde se estrutura toda a relação de desqualificação do simulacro, pela importância atribuída à identidade e ao fundamento da representação (o colono que precisa ser espelho de um Outro, o colono aqui representado por Portugal). Entre o papagaio e o espelho, um processo (civilizatório) de mímica colonial, assistido pelo “desejo de um Outro reformado, reconhecível, como sujeito de uma diferença que é quase a mesma, mas não exatamente” e que, para ser eficaz, implica uma imitação onde se produz “continuamente seu deslizamento, seu excesso, sua diferença”1.
Registro performance, Museu Encantador, Eduardo VerderameRegistro performance, Museu Encantador, Eduardo Verderame
A relação entre papagaio e espelho permite pensar o estatuto da imitação dentro do contexto colonial. Tradicionalmente, as relações de imitação entre metrópole e colônia estabelecem uma relação cultural composta de uma ínfima série de repetições (na arquitetura, na música, na língua, na alimentação, nos costumes) que aprisionam o imitador (colônia) ao seu lugar de autômato (experiência do colonizado). O autômato colonial deve apenas imitar a partir da referência restrita da metrópole. Deste modo, a relação colonial estabelece uma relação platônica com a imitação. A relação é platônica no sentido em que emite um certificado de origem para o povo colonizado, mediante a relação de imitação que estabelece com a metrópole, tornando o imitador um anexo do original.
Porém, o imitador jamais deve se tornar, de fato, uma cópia perfeita do colono “civilizado”, já que ser capaz de uma imitação perfeita revela uma ameaça à hierarquia instituída na relação, acabando com a separação entre cópia e modelo. Tanto no caso platônico, como no caso colonial, existe uma relação de autoridade e, como em todos os casos de autoridade, coloca-se uma questão de ameaça à ordem instituída.

Registro instalação, Museu Encantador (Eduardo Verderame)Registro instalação, Museu Encantador (Eduardo Verderame)

Registro instalação, Museu Encantador (Eduardo Verderame)Registro instalação, Museu Encantador (Eduardo Verderame)
Deste modo, a imitação colonial é formadora e ameaçadora ao mesmo tempo, pois é instrumento de autonomia e pode, também, quebrar a soberania. Espera-se, portanto, que o imitador colonial não seja exatamente igual ao modelo, pois teme-se que a colônia se torne o simulacro da metrópole e quebre a relação de autoridade entre cópia e modelo. Claramente, essa relação de autoridade dificilmente pode ser obedecida, já que se trata de uma relação paradoxal, onde a mão que procura segurar a rédea da imitação impede que esta imitação seja demasiado próxima do modelo, ao mesmo tempo em que o próprio processo mímico é incontrolável e desconexo do desejo dos habitantes do território colonizado implicado em outras produções de imitações e invenções. A relação de imitação precisa, assim, ser
vigiada e controlada pelo modelo.




still de vídeo, Museu Encantador, Rita Natáliostill de vídeo, Museu Encantador, Rita Natálio
Essa relação entre papagaio e espelho, autoritária e inevitavelmente falha, habita os materiais da performance e da exposição final do
Museu Encantador. Numa tentativa de desmanchar esta relação de autoridade platônica da imitação, muitos dos vídeos da exposição torcem o sentido desta autoridade, misturando os elementos luso-brasileiros até sua indistinção, ou propagando o sentido das imitações até outras esferas, misturando níveis de realidades classicamente separados.
Por exemplo, no vídeo Ritual de Casamento, projetado no espaço da exposição, apresentam-se duas mulheres sem roupas2, que reavivam uma espécie de história da colonização em quadros, contada através de uma sucessão de encontros onde se trocam, negociam, usurpam ou misturam os poucos objetos que têm disponíveis, entre cocar de índio, chapéu de colonizador, ananás, vinho, flecha, etc. Numa simulação dos primeiros encontros entre colonizador e índio, em que a relação de troca e imitação era intrínseca ao encontro, neste vídeo os objetos transitam de corpo a corpo e, ao invés de construírem padrões fixos (do colonizador e do colonizado), prolifera a mistura, uma força-variação. Não por acaso, são duas mulheres e estão nuas, o chapéu de colonizador passa de uma cabeça a outra, troca-se cocar por vinho ou vinho por flecha, tocam-se os seios ou os sexos em troca de algo, e, aos poucos, constroem-se figuras misturadas numa erótica colonial, em fuga dos clichês da própria memória cultural.
Registro performance, Museu Encantador, Eduardo VerderameRegistro performance, Museu Encantador, Eduardo Verderame

Também na performance que foi apresentada no interior do espaço expositivo, o mesmo tipo de processo ocorria. Vagueando no espaço expositivo, três mulheres vestidas segundo o clichê do explorador colonial dos anos 50 (clichê que, ainda por cima, não corresponde necessariamente ao colono que chegou ao Brasil nos séculos XV e XVI, mas sim a um imaginário genérico da colonização) vão acoplando nos seus corpos objetos luso-brasileiros recolhidos na pesquisa. São mulheres que se apropriam de um lugar tradicionalmente ocupado por homens, onde se segue a máxima de Oswald de Andrade (“só me interessa o que não é meu”3), ao mesmo tempo em que se reafirma o valor da imitação dos clichês, até encontrar uma relação outra com a memória, desfeita dos dualismos. Essas mulheres vestem a pele do colonizador, animam um falso ritual sobre o seu corpo nu. O colonizador é, então, polinizado por um devir-repetidor, come da banana de Macunaíma, repete imagens indígenas ou posa para os espectadores de cocar e camiseta comercial da Amazônia, para que os volumes de gás dos mundos heterogêneos com que se relaciona (índio, colonizado) colidam na mútua assimilação, para que as suas vibrações íntimas sirvam como desbloqueadoras. Repetir os clichês aqui, liberá-los das suas referências, funciona como estratégia de liberação de outros sentidos para a memória colonial.

  • 1. Homi K. Bhabha, O local da cultura, Belo Horizonte: Editora UFMJ, 2013, p. 131.
  • 2. Rita Natálio e Joana Levi.
  • 3. Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago, Consultado em 15 de novembro de 2013.

por Ritó aka Rita Natálio
Vou lá visitar | 17 Novembro 2016 | autoridade, Brasil, civilizado, colonizado, colonizador, encontro, espelho, índio, Macunaíma, metafísica ocidental, metrópole, Museu Encantador, Oswald de andrade, outro, papagaio, performance, Portugal, ritual de casamento, simulacro, sujeito, troca