Escrita

Porquê contar a relação da África com a Escrita, através do bastão do [rei] Dembo Kakulu Kakahenda (Angola) e não através de um documento escrito sobre papel? Porque este bastão não é apenas uma insígnia de poder africano. Ele é também um suporte de escrita, já que apresenta aposto um lacre, marcado com um carimbo daquela chefia. Atrás desta peça está uma longa história que começa no século XVI, quando os Portugueses levaram a escrita alfabética para o antigo reino do Kongo e para Angola. O poder dos brancos não só se impôs através da guerra e da escravatura, como chegou com o papel, a escrita, o lacre e o carimbo. Porém, a escrita foi rapidamente apropriada pelas chefias africanas que contra- taram escrivães e secretários, constituíram arquivos e estabeleceram intensas correspondências internas e com Luanda. A possibilidade de redigir cartas, testamentos, petições, etc, tornou-se numa poderosa arma de negociação e de resistência do ponto de vista africano. Mas não só. Se a escrita começou por representar o poder dos conquistadores e foi depois apropriada como meio de comunicação, ela acabou por se tornar também numa insígnia de poder africano, como o prova o lacre aposto ao bastão do Dembo Kakulu Kakahenda.

 

Bastão do Dembo Kakulu Kakahenda com um lacreMadeira, Sociedade de Geografia de Lisboa

Bastão do Dembo Kakulu Kakahenda com um lacreMadeira, Sociedade de Geografia de Lisboa.alt. 116cm ©Carlos Ladeira 

 

 

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Contar Áfricas! é uma exposição-ensaio, um exercício científico-museológico em que importa a diversidade de África e não a “visão” que de África tiveram os portugueses. As peças de Contar Áfricas!, foram escolhidas, uma a uma, por investigadores da antropologia, artes, geografia, história e literatura que, ao longo das suas investigações, têm estudado África e temas que com ela se relacionam, ou têm realizado propostas metodológicas, pedagógicas ou de intervenção cívica que se cruzam com o tema da exposição. O conjunto das peças e da palavra definitória de cada uma delas, destacada pelo seu curador, foram agrupadas em três núcleos, Espaços e Poderes, Conquista e Exploração, Símbolos e Cores. Estas orientações de leitura visual e de conteúdos, geradoras de muitas mais palavras explicativas, entrecruzam-se no espaço expositivo, permitindo a cada visitante construir ou corrigir, para vir a contar África. A multiplicidade dos curadores, peças e palavras, construíram o objectivo da exposição: uma chamada de atenção sobre a diversidade de África, nos seus poderes, organizações sociais, culturas e valores, mostrando algumas das diferenças e originalidades que se registam em tão vasto território.

(do catálogo da exposição)

por Catarina Madeira Santos
Vou lá visitar | 4 Fevereiro 2019 | Contar Áfricas, escrita