Breve historial do teatro em Angola

A introdução do teatro em Angola dá-se pelos missionários. No interesse de evangelizar o pagão africano e torná-lo filho de Deus, a igreja sempre se serviu de representações religiosas, realizadas em escolas espalhadas pelos missionários cristãos pelo país afora. A Igreja teve, portanto, um papel de relevo na introdução do teatro em Angola, e mantém, na actualidade, esse forte ascendente sob vários grupos teatrais: só em Luanda são mais de cem ligados a Igrejas, escolas ou empresas e, omnipresentes em África, a ong´s.

QUATRO E TRINTA, Teatro Miragens, Luanda.QUATRO E TRINTA, Teatro Miragens, Luanda.

O Colectivo Miragens Teatro, que esteve em Almada o ano passado com 4 e 30 (ver OBSCENA #20), tem vindo a destacar-se como um dos grupos de teatro actuais mais consolidados. Foi fundado em 1995 numa comunidade religiosa (São Luís), no Bairro Rangel, uma das periferias de Luanda de onde surgem muitos kuduristas e gente de talento espontâneo. No seu site de apresentação, Miragens refere que pretendem “usar o teatro para informar, formar e recrear com base no trabalho de profunda pesquisa, sobre a história de Angola, o que [o] levou a ser considerado um ‘grupo-escola’, uma vez que traz sempre dados científicos, e não só, nas suas obras.”

Trazer “dados científicos” ou “verdadeiros”, uma mensagem de redenção ou de bons costumes, para estes grupos o teatro tem obrigação de documentar e agir sobre a realidade. Há sempre propósitos sociais ou metafísicos a ele ligados. Ensinar “bons” comportamentos (prevenir o HIV, apelar ao estudo, condenar a violência doméstica), defender valores morais e familiares ou resolver questões existenciais, do teatro espera-se uma função especializada ou instrumentalização (política e outras) para chegar a algum fim.

Mas é um traço forte ter sido ligado à Igreja desde sempre. No tempo colonial, foi neste âmbito que as parcas expressões teatrais se foram desenvolvendo. Veja-se que a única peça de um autor angolano publicada antes da independência aborda, nem mais nem menos, o nascimento de Cristo.

NANDYALA OU A TIRANIA DOS MONSTROS, de José Mena Abrantes (Angola)NANDYALA OU A TIRANIA DOS MONSTROS, de José Mena Abrantes (Angola)Só entre 1845 e 1865, refere Mena Abrantes no livro O Teatro em Angola (edição da Cena Lusófona) se encontram referências sobre um teatro feito em Luanda por “jovens portugueses da classe do comércio”. Existiam sociedades dramáticas que apresentavam sessões de duas peças: um drama e outra mais ao estilo da farsa. Um dos grandes dinamizadores desse teatro foi o cônsul do Brasil em Angola, o senador Saturnino de Sousa e Oliveira, que dirigiu e actuou em muitas récitas dessas sociedades. Como era comum aos espectáculos da época, só os homens tinham o privilégio da interpretação, tendo ainda o público feminino um lugar destinado, de excepção.

Escusado será dizer também que, num regime altamente apologista de segregações baseadas na cor e nas classes sociais, não há memória de que a população autóctone pudesse ter algum acesso a este tipo de “oferta teatral”.

Nos anos 70 havia alguns grupos de liceus de referência, como o Salvador Correia ou Dias de Novais, com algum espírito crítico.

Teatro pós-independência

Durante os anos que se seguiram à independência, a expressão teatral, no país acabado de nascer e que se dizia socialista, o teatro praticado era institucional e por vezes engajado no discurso político. De existência efémera e actividade irregular, surgiram alguns grupos. Ligados à Secretaria de Estado da Cultura, por exemplo, houve o GAT (Grupo de Animadores de Teatro), o GIT (grupo de Instrutores de Teatro) e o GET (Grupo Experimental de Teatro). Dessa altura era também o Kapa-Kapa, grupo tutelado pela UNTA (Central Sindical) e, como indício de grupos independentes, o Tchinganje e o Xilena.

YERMA, de Garcia Lorca, Elinga Teatro, LuandaYERMA, de Garcia Lorca, Elinga Teatro, LuandaA partir dos anos 80 o movimento teatral ganha fôlego com a criação do grupo cultural Os Makotes da Escola 1º de Maio, do grupo da Faculdade de Medicina, do Horizonte Nzinga Bande da escola homónima, o Oásis e o Elinga Teatro, que vinha da filiação de Tchinganje e do Xilena.

São poucos, mas resistentes, os grupos que, nessa conjuntura difícil e prolongada de guerra, inacessibilidade e recursos nulos, conseguiram manter a actividade, apresentando espectáculos, incentivando acções de formação e, sempre que possível, suscitando o intercâmbio internacional.

Da década de 90 e 2000 dos grupos mais conhecidos nomeiam-se Júlu, (1992), Etu-Lene (1993) e Miragens (1995), Henrique Artes (2000), o Pitabel (2001) e outros.

Há uma proliferação de grupos que se apresentam quase diariamente, não lhes falta entusiasmo nem vontade de fazer teatro, em salas improvisadas e clubes de bairro. Numa fórmula que só vinga se arrancar da plateia muitas gargalhadas com cenas de pancadaria se a mulher não cozinhou o funge ou as trapalhices durante o Comba (óbito), ou as meninas de programa em troca de saldo para o telemóvel, as manobras do feitiço, com algumas críticas aos poderosos, acusação à delinquência juvenil, violência doméstica, álcool, droga e outros problemas-hábitos sociais, insistindo nos mesmos temas, este tipo de enfoque é o dos grupos que compõem a maior parte do panorama. Sem meios técnicos nem formação, todos possuem um imenso voluntarismo e persistência no fazer teatro mas, na falta de referências, o desconhecimento da história universal do teatro, o facto de não terem estudado ou raramente poderem assistir a outro tipo de peças, os modelos ficam numa espiral que impossibilita-os de sair daquele imbróglio. As mesmas técnicas, personagens-tipo e fórmulas de sucesso repetem-se até à exaustão. Muitas vezes são os próprios que escrevem os seus textos dramáticos, vivem muito da improvisação ou auto-encenam-se, quase sem cenários e sem obedecer às convenções mínimas de tempo e espaço teatrais.

QUATRO E TRINTA, Teatro Miragens, Luanda.QUATRO E TRINTA, Teatro Miragens, Luanda.

Na questão religiosa que tanto tem estado por detrás do teatro em Angola, num país onde proliferam falsas igrejas, é curioso ter sido um texto de tamanha polémica religiosa, o romance Caim, de José Saramago, a última encenação de Mena Abrantes com o grupo Elinga, um texto provocador com ‘brincadeiras sérias’. Este Caim, errante pelo mundo pelos seus pecados, castigado a testemunhar os episódios apresentados nos textos bíblicos, a destruição de Sodoma e Gomorra, o Dilúvio e a transformação da mulher de Loth em estátua de sal. Devido às polémicas teses do escritor que recentemente nos deixou num incomparável luto literário - “Caim nunca existiu”; “Sem a Bíblia seríamos outras pessoas – provavelmente melhores”; “Tudo aquilo é absurdo, disparatado”; “Um manual de maus costumes” - alguns actores desistiram de entrar na peça, que não excluía cenas violentas, devido a conflitos com as suas convicções católicas. 

 

parceria BUALA / OBSCENA

por Marta Lança
Palcos | 2 Julho 2010 | Colectivo Miragens Teatro, Elinga Teatro, igreja, Mena Abrantes, Teatro em Angola