Prefácio a Antologia Temática de Poesia Africana

Prefácio a Antologia Temática de Poesia Africana Não existe, no nosso caso, um documento comparável ao Manifesto de Légitime Défense, que propunha uma “ideologia de revolta” e formulava uma orientação precisa para os escritores negros de expressão francesa; o facto literário surgiu, porém, com ardor e talento, muito antes dos anos trinta deste século, ficando bloqueado, pelo condicionalismo colonial, no interior das fronteiras dos países de eclosão.

21.06.2011 | por Mário Pinto de Andrade

A estrutura social – mitos e factos

A estrutura social – mitos e factos A relação entre estes dois povos deve ser considerada como básica na analise da estrutura social. Como em qualquer sociedade existem três aspectos essenciais a serem considerados: o político-legal, o económico e o social. Como vimos, o relacionamento politico entre os portugueses e os africanos tem como antecedente a conquista. Os portugueses tentaram controlar o africano por meio da influência ou, em caso de fracasso, através da conquista militar que destruiu directamente a estrutura política africana.

15.06.2011 | por Eduardo Mondlane

Do nosso esforço espiritual

Do nosso esforço espiritual Depois do Egípcio e do Índio, do Grego e do Romano, do Teutónico e do Mongol, o Negro é uma espécie de sétimo filho, nascido com um véu e dotado de uma segunda visão neste mundo americano – um mundo que não lhe concede uma consciência de si verdadeira, mas apenas lhe permite ver-se a si mesmo através da revelação do outro mundo. É uma sensação estranha, esta dupla consciência, esta sensação de estar-se sempre a olhar para si mesmo através dos olhos dos outros, de medir a nossa alma pela bitola de um mundo que nos observa com desprezo trocista e piedade.

15.06.2011 | por William Du Bois

O neo-colonialismo em África

O neo-colonialismo em África Embora nominalmente independentes, estes países continuam a viver na relação clássica da colónia com o seu “patrão” metropolitano, isto é, a produzir matérias-primas e a servir-lhe de mercado exclusivo. A única diferença é que agora essa relação está encoberta por uma aparência de ajuda e solicitude, uma das formas mais subtis do neo-colonialismo. Como a França considera que só se poderá desenvolver perpetuando a sua relação actual com os países subdesenvolvidos que se mantêm na sua órbita, isto significa que o fosso entre aquela e estes se irá alargando. Para que este possa vir a ser diminuído, ou mesmo anulado, será necessário renunciar completamente à actual relação de patrão a cliente.

09.06.2011 | por Kwame Nkrumah

Racismo e cultura

Racismo e cultura Não é, pois, na sequência de uma evolução dos espíritos que o racismo perde a sua virulência. Nenhuma revolução interior explica esta obrigação de o racismo se matizar, de evoluir. Por toda a parte há homens que se libertam, abalando a letargia a que a opressão e o racismo os tinham condenado.

07.06.2011 | por Frantz Fanon

Cultura e colonização

Cultura e colonização Do mesmo modo pode falar-se de uma grande família de culturas africanas que merece a designação de civilização negro-africana e que cobre as diferentes culturas próprias a cada um dos países da África. E sabe-se que as transformações históricas fizeram com que o campo dessa civilização, a área dessa civilização, exceda em muito a África; e é nesse sentido que se pode dizer que há no Brasil ou nas Antilhas, tal como no Haiti e nas Antilhas Francesas ou mesmo nos Estados Unidos, se não focos, pelo menos franjas, dessa civilização negro-americana.

04.06.2011 | por Aimé Césaire

O etnógrafo perante o colonialismo

O etnógrafo perante o colonialismo Este esboço reproduz – numa versão bastante reformulada, mas marcada, contudo, pelas suas circunstâncias de origem – uma exposição, seguida de discussão, realizada a 7 de Março de 1950 na Associação dos Trabalhadores Científicos (secção das ciências humanas) perante um auditório composto, sobretudo, de estudantes, investigadores e membros do corpo docente.

02.06.2011 | por Michel Leiris

Caderno de um regresso ao País Natal

Caderno de um regresso ao País Natal E estes girinos como traços da minha ascendência prodigiosa! / Aqueles que não inventaram nem a pólvora nem a bússola que nunca souberam domar o vapor ou a electricidade / que não exploraram os mares nem o céu / mas conhecem os mais ínfimos recantos da terra do sofrimento / que das viagens só conheceram as de desenraízamento / que foram amansados com humilhações / que foram domesticados e cristianizados / e contagiados de degeneração / tam-tam de mãos vazias

31.05.2011 | por Aimé Césaire

De Toussaint L’Ouverture a Fidel Castro

De Toussaint L’Ouverture a Fidel Castro O Haiti teve de encontrar um factor de união nacional. Procuraram-no no único local onde poderia ser encontrado, em casa, ou mais precisamente, no seu próprio quintal. Descobriram aquilo que hoje é conhecido como negritude. É a ideologia social predominante entre políticos e intelectuais de toda a África. É tema de acaloradas elucubrações e disputas, sempre que se discute a África e os africanos. Mas, no que respeita à sua origem e evolução, a negritude é caribenha e não poderia ter sido senão caribenha, resultado peculiar da sua história peculiar.

31.05.2011 | por C.L.R. James

A presença africana

A presença africana Um negro das Caraíbas que empreenda uma viagem semelhante a África está menos seguro. A sua relação com esse continente é mais pessoal e mais problemática. Mais pessoal, porque as suas actuais condições de vida e o seu estatuto como homem indicam claramente as razões que levaram os seus antepassados a abandonar aquele continente. Essa emigração não foi um acto voluntário, foi uma deportação comercial cujas consequências deixaram marcas profundas em todos os aspectos da vida das Caraíbas. Estas consequências sentem-se de um modo mais profundo na sua vida pessoal e na sua relação com o ambiente que o rodeia: as políticas raciais e coloniais que constituíram o fundamento e o marco da sua passagem da infância à adolescência. A sua relação com África é mais problemática, porque ao contrário do Americano, ninguém lhe deu a conhecer a história desse continente.

31.05.2011 | por George Lamming

O novo Negro

O novo Negro O Novo Negro não passa despercebido ao sociólogo, ao filantropo, ao líder racial, incapazes de o explicar através das suas fórmulas limitadas. Pois a geração mais jovem vibra com uma nova psicologia, um novo espírito anima as massas e está a transformar, sem que os observadores profissionais disso se dêem conta, aquilo que tem sido um problema constante nas diferentes fases da vida negra contemporânea.

30.05.2011 | por Alain Locke

O contributo do homem negro

O contributo do homem negro Que o Negro já esteja presente na elaboração do novo mundo não o demonstra o envolvimento de tropas africanas na Europa; elas provam apenas que ele participa na demolição da antiga ordem, da velha ordem. O Negro revela a sua presença efectiva em algumas obras singulares de escritores e artistas contemporâneos; e também noutras, menos perfeitas, porventura, mas não menos emocionantes, oriundas de homens negros.

30.05.2011 | por Léopold Sédar Senghor

O velho e a lareira tardia

O velho e a lareira tardia o fogo ganhou labaredas de ser visto em seus amarelos dançantes, bailarinas línguas fogachadas a interromper o corpo da noite, as pontas saltitantes a brilharem no seu rosto de carreiros incontáveis, os pés menos ressequidos absorvendo os óleos pelos dedos da menina, os olhos circundantes na estranha espera do fechar dos seus olhos, o velho respirando devagar para saber dos odores do fogo, os olhos semi-fechados em abertura de fazer espreitamento do fogo, “ai, meu deus, esta é a minha maior alegria, uma lareira de verdade, assim nós a vermos um fogo sem ser de armas nem bombas, o descanso só... obrigado, meus filhos... obrigado mesmo”

19.05.2011 | por Ondjaki

Gempenstrasse

Gempenstrasse Gempenstrasse por estes dias é o refúgio e ponto de encontro de vários exilados políticos das pavorosas ditaduras latino-americanas, filha bastarda da Operação Condor engendrada por Henry Kissinger. Também há prófugos das tiranias africanas e fugitivos de déspotas asiáticos.

27.04.2011 | por Tchalé Figueira

"Terceira Metade": Pela sombra do silêncio

"Terceira Metade": Pela sombra do silêncio O que fazer com o seu segredo? Era o primeiro a despertar na Aldeia, e o único que sabia, agora, do segredo deste apagamento proibido. Estaria quebrado o ciclo? Seria perseguido pelos espíritos dos mais-velhos pelo seu descuido de natureza amorosa? E havia sido um descuido de natureza amorosa?

26.04.2011 | por Ondja ki

Maneiras de dizer

Maneiras de dizer A palavra amigo é uma conjura secreta, um pacto cuidadoso, pé-ante-pé num momento crucial, dois olhos atentos a controlar a fraqueza do outro. Para lhe remeter as culpas de tudo aquilo que está mal e de que ninguém afinal é culpado. Será? O miúdo pouco que se preocupa, é felino, usa o instinto para vender batiques feitos muito à pressa algures numa habitação que chamam de precária no Bairro do Aeroporto. Linhas circulares, girafas de pescoço torto, palhotas no mato de paisagens irreais aonde vivem homens e mulheres com dentaduras postiças.

17.04.2011 | por Aida Gomes

A Mãe

A Mãe A biblioteca da sala era composta por cinco livros: “Eva e a África” (?), “Portugal Amordaçado” (Mário Soares) , “O Barão Trepador” (Italo Calvino), “Lady L” (Romain Gary) e a Bíblia Sagrada. À direita ficavam os três álbuns de família; no lado esquerdo os pisa-papéis de água, com a Ópera de Sidney dentro, e as fotografias da família nas molduras e nos fundos da faiança, mandada gravar em Yokohama, por familiares embarcados, sinal de que haviam tocado um porto japonês (o Japão e o golfo Pérsico como última fronteira para os marinheiros crioulos).

12.04.2011 | por Joaquim Arena

O Bebé

O Bebé Boémio por excelência, Marhulane conhecia a noite como ninguém. Dormia até o sol se pôr, e, quase que num impulso de mola, saltava para a vida com o nascer do cinzento que o crepúsculo trazia. Exímio guitarrista, desafiava os rasgados agouros das corujas com acordes de labor elevado que arrancava da sua caixa acústica, tão amada como a sua esbelta Margarida, que embora se lamentasse do noctívago homem, a ele não poupava atenções e carinhos. Nisso ela não era austera. E, assim, lá iam levando a vida.

07.04.2011 | por Hilário Matusse

Os ventos que sopram na economia mundial

Os ventos que sopram na economia mundial O mundo visto de baixo é infinitamente mais complexo e diversificado do que o mundo visto de cima. O Fórum Económico Mundial tem essa característica essencial, vê «de cima», enquanto o Fórum Social tenta abrir espaços de leitura do mundo para os que estão «por baixo»

07.04.2011 | por Mário Murteira

Uma época de filhos de cães

Uma época de filhos de cães Mokhtar sentou-se na esplanada de um café de aspecto sórdido, mas cujo rádio difundia uma melodia da cantora mítica que lhe fazia lembrar Malika, a sua mãe, que não podia ouvir este lamento de um amor perdido sem que os olhos se lhe marejassem de lágrimas. A esta hora matinal, para além de um jovem adormecido sobre um banco, como um destroço rejeitado pela noite, o local proporcionava uma calma, sem dúvida precária, mas por agora propícia à reflexão

04.04.2011 | por Albert Cossery