Racismo no país dos brancos costumes

5 de maio, Teatro São Luiz I Lisboa

26.04.2018 | por martalanca | Joana Gorjão Henriques, racismo

Conclusões da Escola de Verão «Racismo, Eurocentrismo e Lutas Políticas» do Centro de Estudos Sociais da UC

A terceira edição da Escola de Verão «Racismo, Eurocentrismo e Lutas Políticas», realizada no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, entre 3 e 9 de setembro, abordou debates teóricos e políticos sobre o racismo e as lutas anti-racistas contemporâneas, com o objetivo de promover uma análise crítica de debates internacionais, políticas públicas e intervenções sociais em diversos contextos nacionais, em diálogo com as alternativas que têm sido propostas pelos movimentos de base.

Organizada por Marta Araújo e Silvia Rodríguez Maeso, ambas investigadoras no CES, a Escola colocou em diálogo docentes, investigadores e ativistas de vários contextos internacionais. Esta edição contou com a participação de docentes, investigadores, estudantes, profissionais e ativistas, provenientes da Austrália, Brasil, Espanha, França, Holanda, Hungria, Itália, México, Reino Unido e Portugal

Ao longo de seis dias, foram discutidos de forma interdisciplinar temas da atualidade como: racismo e políticas públicas; a memória do colonialismo e da escravatura; a propagação do discurso de ódio nos média, e, em particular da Islamofobiarepresentações de género e sexualidade; a política de fronteiras e a ilegalização da imigração na Europa.

As principais conclusões dos debates que se geraram foram as seguintes:

1) A simultaneidade, por um lado, da intensificação das campanhas pela memória do colonialismo e dos seus legados e a maior visibilização das lutas das populações racializadas, e, por outro, da regressão em termos do debate público e das próprias políticas contra o racismo em vários contextos;

2) Revela-se fundamental aproximar o debate público da realidade social concreta das populações que experienciam o racismo, uma vez que este processo histórico tem sido muitas vezes reproduzido através de iniciativas que elegem a figura do “muçulmano”, do “árabe”, do “negro” ou do “cigano” como alvos privilegiados da intervenção de agendas académicas e políticas que reproduzem lógicas racistas e desumanizadoras (por exemplo, no âmbito das políticas de integração e para a igualdade de género);

3) Com a proliferação do uso das redes sociais, a legislação e iniciativas políticas para a prevenção, regulação e punição do discurso de ódio na Europa revelam-se claramente insuficientes, uma questão associada a compreensões inadequadas do fenómeno do racismo e das suas várias vertentes (por exemplo, a islamofobia, o anti-ciganismo, ou o racismo anti-negros);

4) No contexto europeu, a política de fronteiras e a ilegalização da imigração materializa muitos destes debates. Na contemporaneidade temos assistido, por exemplo, ao dilatar das fronteiras como forma de estender o controlo e o policiamento de uma noção racializada da Europa, legitimada sobretudo pela prevenção da chamada ‘imigração ilegal’ e a ‘crise dos refugiados’.

De forma a intensificar o diálogo com as alternativas que têm sido propostas pelos movimentos anti-racistas, foram apresentadas iniciativas desenvolvidas no contexto do activismo político e educação através das artes. Nesse sentido, a Escola de Verão concluiu com a performance de Teatro-Fórum ‘Fel e Mel no Papel’, pelo Laboratório Ami-Afro do Grupo de Teatro do Oprimido de Lisboa (GTO-LX) e um debate com ativistas anti-racistas do contexto português. Estes últimos elencaram alguns dos principais desafios atuais do anti-racismo, tais como a construção de uma agenda política autónoma pelas populações racializadas e a possibilidade de alianças políticas com os partidos políticos, a débil resposta do Estado no combate ao racismo – nomeadamente no âmbito da legislação – e as experiências quotidianas de racismo institucional em âmbitos como a educação, o emprego, e a habitação.

Qualquer esclarecimento adicional sobre este assunto poderá ser obtido junto de Marta Araújo, através do email marta@ces.uc.pt

14.09.2017 | por martalanca | CES, eurocentrismo, Lutas Políticas, racismo

EXPOSIÇÃO Racismo e Cidadania

De 6 de Maio a 3 de SetembroTodos os dias, das 10H00 às 19H00 (última entrada às 18h30) PADRÃO DOS DESCOBRIMENTOS 

A exposição tem por objetivo discutir a relação entre racismo e cidadania num espaço de seis séculos, de 1497 ao presente. A exposição vai estar centrada no caso português, embora abra janelas comparativas para a compreensão do racismo como preconceito relativo a descendência étnica combinado com ação discriminatória. No período considerado, ocorreram a expulsão de muçulmanos, a conversão forçada de judeus, o tráfico de escravos, a colonização de territórios em África, América e Ásia, a abolição da escravatura, a descolonização e o início de um processo inverso de imigração.

A exposição visa estimular o grande público a questionar o passado e o presente das relações entre povos, conjugando emigração com imigração, exclusão e integração, ausência de direitos e acesso à cidadania.

Com curadoria científica e investigação de Francisco Bethencourt(Portugal) 

SEMINÁRIO

RACISMO E CIDADANIA
FRANCISCO BETHENCOURT, JORGE VALA, TERESA BELEZA (PORTUGAL)
SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL
DIA 24 DE MAIO
QUARTA, ÀS 18H00

26.04.2017 | por martalanca | racismo

Lançamento de "Racismo em Português - o lado esquecido do colonialismo"

Baseado na série do jornal Público “Racismo em Português”, um trabalho que envolve a rota da escravatura em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, pela mão de um historiador local, no dia 6 de Junho sai, para a Feira do Livro de Lisboa, a versão em livro deste projecto, ao qual se associou a editora Tinta-da-China. Chama-se Racismo em Português - o lado esquecido do colonialismo.
Nesse mesmo dia 6 de Junho estará também no website a versão multimédia do projecto, com vídeos e animação.


Dia 11 de Junho, às 17h, há um debate na Feira do Livro, com a jurista Romualda Fernandes, o analista Abilio Neto, o artista e activista Flávio Almada.  A apresentação é de António Araújo, pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Dia 9 de Julho, às 18h30, há novo debate na Fnac Chiado com alguns protagonistas do livro: Inocência Mata, Redy Wilson e Miguel de Barros.
O livro só entra no circuito comercial a 24 de Junho.

29.05.2016 | por claudiar | debate, lançamento livro, racismo

Violência policial e racismo no Franco Atirador

Franco Atirador é um programa de tv, na internet, que promove semanalmente um debate sobre a actualidade política e social portuguesa, moderado por Joana Amaral Dias e Nuno Ramos Almeida.

Nesta edição discute-se a violência policial nos bairros. O rapper e dirigente do Moinho da Juventude da Cova da Moura, LBC; a psícóloga Mónica Frechaut; o jornalista Carlos Narciso e o polícia António Ramos analisam as questões do racismo e violência policial em Portugal.


23.03.2015 | por martalanca | bairro, LBC, polícia, racismo, Violência policial

VIDAS NEGRAS IMPORTAM | Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial

O Dia Internacional Contra a Discriminação Racial marca o massacre de Sharpeville a 21 de Março de 1960. Na África do Sul do Apartheid, milhares manifestavam-se contra a lei que obrigava os negros a ter um passaporte interno, para poderem aceder aos bairros dos brancos. Os manifestantes dirigiram-se a uma esquadra e a polícia disparou, assassinado 69 pessoas e ferindo 180. O Apartheid caiu muito mais tarde, depois de muitas mais lutas. 

No ano passado vimos a polícia dos Estados Unidos da América matar vários jovens negros desarmados, e as manifestações que se seguiram. 

Já em 2015, em Portugal, outros foram espancados numa esquadra ao procurar saber dum amigo detido numa operação policial no seu bairro. 

o esquecemos as pessoas, a maioria negras, assassinadas pela polícia em Portugal nos últimos anos, sem haver condenação dos assassinos. 

Nem admitimos que os bairros vivam uma suspensão do estado de direito, onde a polícia até dispara contra pessoas nas varandas das casas. 

A 21 de Março de 2015 a partir das 16h
Estamos juntos no centro de Lisboa
Largo são Domingos

com Boss - Kromo di Guetto - Moreno Bfhg - Lbc - Hezbo MC - Loreta KBA - Primero G.
Contra o racismo institucional
Porque VIDAS NEGRAS IMPORTAM!

18.03.2015 | por martalanca | Discriminação, racismo

Tintin Akei Kongo (2015)

Tintim no Congo (1931) é o segundo álbum da famosa série de BD do autor belga Hergé. Foi-lhe encomendada pelo jornal conservador Le Vingtième Siècle e conta a história do jovem repórter Tintim e o seu cão Milú enviados para o então Congo belga para escrever sobre acontecimentos nesse território. Embora tenha reconhecido sucesso comercial e tornado-se derradeiro para definir a indústria de BD franco-belga, este álbum tem recebido duras críticas pela sua atitude racista e colonialista perante os congoleses, retratando-os como atrasados, preguiçosos e dependentes dos europeus. Hergé é sobretudo acusado de persistentemente alinhar a sua visão com o mais baixo denominador comum sem se questionar do racismo explícito ou das políticas coloniais que já eram criticadas por artistas e intelectuais francófonos do seu tempo. Ler aqui a crítica de Pedro Moura. 


Tintin Akei Kongo é uma tradução de Tintin au Congo em lingala, a língua oficial do Congo. A tradução foi comissariada por um artista e foi feita em colaboração com um tradutor oficial durante a sua residência artística na ilha de Ukerewe na Tanzânia. Esta tradução faz parte da linhagem de detournements como Katz [livro destruído por alterar o famoso Maus de Art Spiegelman], Noirs [os Estrumpfes Negros ficam todos azuis] ou Riki Fermier [em que o Petzi desaparece da sua própria BD], livros apontados de autoria provável ao grego Ilan Manouach. O artista, consciente das propriedades materiais da edição original, cheia dos seus potenciais significados, tornou explícitos os aspectos formais do objecto: o novo livro é um fac-simile da edição original e manteve os padrões de produção industriais das BDs “clássicas”. O objectivo desta aventura não é somente a reinterpretação do trabalho do autor para reinventar as intervenções possíveis sobre uma obra comissariando uma tradução, nem enfatizar a importância do discurso e da auto-referência para indicar a BD simultaneamente como linguagem e lógica de sistema. 
O objectivo é não só “reparar” um erro histórico tornando acessível este trabalho na língua daqueles que lhes interessa, os oprimidos, os insultados. Revela as escolhas tácticas de quem traduz obras. Não é de surpreender que afinal na África pós-colonial ainda se use o francês ou o inglês como línguas oficias para questões de Educação, Legislação, Justiça e Administração? Tintin au Congo reflecte as opinião da burguesia belga dos anos 30. Esta concepção do povo do Congo ou pura e simplesmente de qualquer negro visto como uma grande criança é uma parte da História do Congo tal como Os Protocolos dos Sábios de Sião fazem parte da falsa propaganda anti-semita na História dos Judeus. O Tintim no Congo tinha de ser traduzido para lingala!
Uma identidade nacional não é só criada por um processo interno de cristalização, de consolidação constante do que é a sua cultura nacional, mas também é definida pelas pressões oferecidas pelo exterior. Tintim no Congo, a versão original na língua francesa é ainda uma das BDs mais populares na África francófona. O facto de ainda não existir uma edição congolesa, fará lembrar ao leitor de Tintin Akei Kongo que a promoção cultural não é só governada por lucro ou outros valores de mercado. Ao juntar lingala às 112 línguas traduzidas no Império Tintim, Tintin Akei Kongo revela pontos cegos na expansão dos conglomerados da edição. 
Tintin Akei Kongo será apresentado no Festival de BD de Angoulême.

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05.02.2015 | por martalanca | 5eme Couche, BD, racismo, Tintim no Congo

Palestina: Colonialismo, Racismo e Resistência

Com intervenções de António Guerreiro, António Louçã, Boaventura Sousa Santos, Bruno Peixe Dias, Carlos Vidal, Inês Espírito Santo, Nuno Teles, Renato Teixeira, Shahd Wadi, Wissam Al-Haj.

Depois do acto falhado dos Acordos de Oslo de 1992 e dos recentes ataques a Gaza em Agosto de 2014, parece-nos que é tempo de voltar a pensar a situação Israelo-Palestiniana, com objectividade mas não, forçosamente, neutralidade. Procuraremos reflectir sobre o contexto histórico que resultou na criação do Estado de Israel nas suas dimensões, contraditórias e problemáticas, nacionalistas e colonialistas, as especificidade das formas de governo e administração que aí se foram desenvolvendo, bem como as estratégias de resistência a essas mesmas forma de governo.
Neste sentido, parece-nos importante trazer à discussão não apenas a actualidade que faz a agenda informativa dos noticiários, mas também os processos históricos que podem contribuir para uma análise crítica do presente; não apenas os aspectos militares do exercício do poder e da ocupação territorial, mas também os aspectos culturais mobilizados para a produção e naturalização de comunidades imaginadas. Daí seguiremos até à situação actual e à discussão das soluções que têm sido avançadas: dois povos dois estados ou um único estado multicultural e multinacional? Porquê e como?

Local: Atelier RE.AL
Rua Poço dos Negros 55, 1200-336 Lisboa
— 
Entrada Gratuita

05.01.2015 | por martalanca | colonialismo, palestina, racismo, Resistência

A branquitude está nua

Por Ana Maria Gonçalves para as Blogueiras Negras

Dada a velocidade com que consumimos novas informações, os assuntos abaixo parecem ultrapassados; mas não são. Sempre atuais, tendem a ocupar mais espaço nas nossas vidas e nos noticiários na proporção em que mais negros ocupem espaços nos quais não eram vistos anteriormente. E isso não significa necessariamente que o racismo esteja aumentando, mas que lhe são dadas mais oportunidades de se manifestar, quando negros estão em situação de igualdade ou superioridade social ou econômica em relação a brancos. Acontece no Brasil e em qualquer lugar do mundo cuja economia já foi baseada em regimes escravocratas e/ou que agora tenta lidar com o impacto das novas correntes migratórias, principalmente as originárias de ex-colônias africanas. O que vemos manifestado nessas situações de racismo e xenofobia, além do ato em si e sua negação, é o desconforto do sujeito diante do espanto causado pela falha de sua invisibilidade. Quando pegas em um ato ou uma fala racista, as pessoas dizem que foram mal interpretadas e que não esperavam tal repercussão, pois até então se sentiam seguras, escondidas atrás de sua branquitude. E aqui uso o conceito de branquitude de Ruth Frankenburg, como sendo “um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê aos outros e a si mesmo, uma posição de poder não nomeada, vivenciada em uma geografia social de raça como um lugar confortável e do qual se pode atribuir ao outro aquilo que não atribui a si mesmo”. Algumas análises sobre a atuação do ministro Joaquim Barbosa no STF e sobre as reações à vinda ao Brasil de médicas cubanas negras são bons exemplos dessa quebra de paradigma.

Não me espantou a indignação do jornalista Ricardo Noblat na nota “Que geração de jovens é esta?“. Para ilustrá-la, ele colocou a foto de um médico cubano negro sendo vaiado por jovens médicos brasileiros e escreveu: “A foto abaixo é emblemática de uma situação que deveria nos fazer corar e refletir.” E terminou com as exclamações: “Vergonhoso! E imperdoável!” Sim, a foto é emblemática, porque não podemos deixar de notar a negritude do médico. E é mais emblemático ainda que Ricardo, ao ilustrar a nota com a foto de um médico negro, não vê incoerência entre sua condenação dos médicos brasileiros e sua atitude em um artigo escrito havia menos de 10 dias, no qual ataca o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa:“Para entender melhor Joaquim acrescente-se a cor – sua cor.” Na nota sobre os médicos, Ricardo ainda pergunta “Que geração de jovens é esta?”, como se não soubesse a resposta, como se não estivesse tratando de uma geração que, assim como ele, reagia aos médicos cubanos acrescentando a cor – a sua cor. A geração hipocritamente criticada por Ricardo é filha, neta, bisneta e tataraneta daquelas outras gerações que, protegidas pela branquitude, acham que podem julgar negros tendo como base a cor. Essa geração não nasceu por combustão espontânea, mas cresceu vendo parentes, amigos, cônjuges e formadores de opinião questionarem o que consideravam ousadias de negros com frases do tipo “quem esse negro/essa negra pensa que é?”, do mesmo modo que o jornalista Ricardo começa seu artigo perguntando “Quem o ministro Joaquim Barbosa pensa que é?”. Para mais tarde nos lembrar que, para respondermos essa pergunta, não devemos esquecer a cor. Sempre a cor, e sempre a do outro. A do negro.

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13.09.2013 | por martalanca | Brasil, racismo

O começo e o final de uma semana a p&b em Viena; notas de Maria Vlachou

Chego a Viena numa sexta à noite. A cara do taxista diz-me que o seu país de origem poderá ser algures no Médio Oriente. Não fala inglês, por isso, não podemos falar. Alguns minutos mais tarde atende uma chamada. Oiço-o falar turco. “So, you´re from Turkey?”, pergunto quando desliga. Olha para mim através do retrovisor surpreendido e pergunta-me (provavelmente): “Percebe turco?”. Digo-lhe “Yunanistan” (“Grécia” em turco). Olha para mim ainda mais surpreendido e exclama: “You?! Yunanistan?!”. E continua em inglês: “Me, you, no problem, no problem.” Sorrio: “No problem”, digo-lhe. Quando chegamos ao hotel, agradeço-lhe em turco. Parece estar contente. 

…………………………………
Estou em Viena para um workshop sobre racismo e consciência cultural, financiado pelo Grundtvig, o programa da União Europeia de aprendizagem ao longo da vida – começa na segunda. A formadora principal é uma mulher preta que parece ser dinâmica e muito autoconfiante. Os participantes vêm da Bulgária, Roménia, República Checa, Polónia, Alemanha, Irlanda, Holanda, Reino Unido, Espanha e Turquia. Pessoas pretas e brancas – ou uma espécie de pretas e uma espécie de brancas – muitas originárias de países diferentes daqueles onde hoje residem, pessoas de várias idades e áreas, reunidas em Viena para debaterem o racismo.
É-nos pedido para falarmos das nossas expectativas face ao workshop. Digo-lhes que espero que as minhas ideias sobre o racismo sejam desafiadas, que o meu pensamento se desenvolva, porque sei que nenhum de nós se considera racista, mesmo assim, poderíamos ficar surpreendidos.
Um pouco mais tarde, é-nos dada pela formadora uma definição do racismo: “Racismo é discriminação com poder numa sociedade dominada pelos brancos.” Esta definição não me deixa confortável.
- “Vê o racismo hoje em dia como algo que apenas os brancos fazem contra os pretos?”, pergunto. - “Não sou eu que o estou a dizer”, responde a formadora, “é assim que tem sido definido.”
E nesse momento, com aquele género de resposta, sei que a semana que temos pela frente será mais complicada e menos interessante do que tinha antecipado. Mas desafiante, mesmo assim.
São várias as razões porque esta experiência me deixou profundamente preocupada e desiludida, para além de me fazer sentir desconfortável.
Em primeiro lugar, ao longo da semana, fomos bombardeados com afirmações (algumas delas sendo sérias imprecisões históricas), raramente, ou melhor nunca, fazendo referência a qualquer fonte bibliográfica e sem espaço para serem discutidas: assim, foi-nos dito que deveríamos esquecer os filósofos Gregos antigos e o seu contributo para a cultura europeia e mundial, porque tinham sido vistos no Egipto (só isso, “tinham sido vistos”); que Heródoto tinha feito a descrição de Cleópatra como tendo traços africanos (como, se viveu cinco séculos antes dela?); que Alexandre o Grande incendiou a biblioteca de Timbuctú (bem, acho que não se aventurou por esses lados); que os médicos hoje fazem um juramento escrito por um médico egípcio (mmm… será de Hipócrates que estamos a falar?).
Em segundo lugar, havia uma determinação em fazer calar qualquer pessoa, preta ou branca, que estaria a tentar colocar o racismo numa perspectiva mais contemporânea, mais ampla. Era-nos dito que este não era o tema do workshop ou os nossos comentários e questões provocavam risos irónicos ou respostas agressivas, uma vez que o nosso desejo para haver debate era visto como uma tentativa de minimizar a seriedade do racismo dos brancos contra os pretos a fim de lidarmos com a nossa “culpa de brancos”. Os argumentos para apoiar esta tese continuavam a chegar. Num passeio pela cidade (chamado “Black Vienna” no programa do workshop), uma jovem mulher preta – que vive na Áustria desde os 2 anos e que tem hoje nacionalidade austríaca – partilhou a história da sua participação numa peça de Tennessee Williams, fazendo de empregada (um papel típico reservado a actores pretos, disse-nos). Sentiu-se desconfortável com o uso da palavra “nigger” (preto) no texto de Williams. Queria que fosse substituída (vamos ver: teria ficado satisfeita se tivesse mudado um texto escrito nos anos 50 que apresentava uma história no sul dos EUA, onde um personagem branco (provavelmente racista) que queria rebaixar um preto usasse talvez o termo “african american” em vez de “nigger”? E talvez a criada devesse ser interpretada por uma actriz branca? A sério, é assim que se vai combater o racismo?). Depois disto, continuando o nosso passeio, fomos levados ao parque da cidade e foi-nos mostrado o local onde um jovem preto tinha sido atacado pela polícia com enorme gravidade (presumivelmente por ser preto), onde a ambulância demorou séculos para chegar, resultando o incidente na morte do jovem (umas semanas antes tinha ocorrido em Salónica, na Grécia, um incidente bastante parecido, quando a polícia não gostou do aspecto “anarquista” de um jovem – branco…).

A aparente incapacidade da comunidade preta de Viena em se organizar para lutar pelos seus direitos e para partilhar de forma mais ampla as suas preocupações com a sociedade vienense deixou-me também apreensiva e algo surpreendida. Foi-nos contada a história de Angelo Soliman, um homem preto que chegou a Viena no século XVIII e era muito respeitado pela sociedade local e um companheiro do imperador pela sua inteligência e vastos conhecimentos e até se casou com uma mulher branca… para depois da sua morte ser embalsamado e exposto no Museu de História Natural. Uma exposição do Museu de Viena sobre Soliman uns anos atrás foi severamente criticada pela nossa guia, pela forma como representava as pessoas de África, mas, aparentemente, não houve nenhuma reacção oficial da comunidade preta (mais sobre a exposição aqui). Mais tarde, quando perguntámos que tipo de associações tinham para serem representados na sociedade austríaca e nas suas relações com o Estado austríaco, foi-nos dito que este género de associação não era possível, uma vez que a maior comunidade africana era da Nigéria e as pessoas pertencem a tribos diferentes e no passado rivais… Como pode ser que sejam todos “um” (“pretos” ou “africanos”) quando atacados ou discriminados, mas que as tribos se metam no caminho quando é suposto organizarem-se?
Por último, uma outra razão de preocupação: a óbvia raiva e igualmente óbvia incapacidade (ou falta de vontade) de colocar as coisas numa perspectiva diferente. Quando foi mencionado o caso de Zimbabwe, e concretamente a forma como os brancos tinham sido tratados pelo governo de Mugabe, foi-nos dito que tinha sido feita justiça. Os pretos viviam lá desde sempre, os brancos chegaram depois, por isso, mesmo que nasçam e cresçam naquele pedaço de terra há décadas, não lhes é permitido chamá-lo “seu”… Por outro lado, jovens que hoje em dia são oficialmente Austríacos (pretos) – depois de terem vivido durante alguns anos no país – reclamam furiosos contra o racismo e a discriminação austríacos. Estão convencidos (ou preferem pensar, para poderem continuar a alimentar a sua raiva) que qualquer coisa que aconteça a um preto é porque é preto.
Não estou a negar este género de racismo – ao contrário, se o estivesse a fazer, não teria ido a Viena -, mas nas suas repetidas tentativas de nos fazer ver uma vítima preta, alguns de nós víamos simplesmente uma vítima: um pobre, uma mulher, um homossexual, um cigano… Fiquei muito impressionada quando um participante do Senegal, que vive hoje em Barcelona, nos disse que, quando um rapaz do Senegal foi assassinado por ciganos (que estavam a gritar “mata o preto”…), a comunidade recusou-se a ver este incidente como um crime racial e concentrou-se no crime, no homicídio que deveria ser punido. Tinha sido uma opção consciente para evitar virar uma comunidade contra a outra. O homicídio tinha sido visto como um homicídio.
E sinto que este poderá ser o caminho. Considerando que existe apenas uma raça, a raça humana, o racismo hoje em dia para mim só pode ter um significado metafórico. É discriminação com poder (independentemente da cor do discriminado e de que detém o poder). Numa entrevista com Mike Wallace, Morgan Freeman considerou o Black History Month “ridículo”, recusando-se a ver a sua história reduzida a um mês. Quando o jornalista lhe perguntou “Então, como vamos ver-nos livres do racismo”, simplesmente respondeu: “Parem de falar sobre isso Vou parar de te chamar branco e vais parar de me chamar preto. Sou Morgan Freeman para ti, e és Mike Wallace para mim.”
………………………………….
No final da semana, esperando pelos nossos voos no aeroporto – quatro de nós, pretas e brancas de diferentes origens – estamos a falar de viagens e depois das companhias low cost e dos seus serviços. Uma de nós, preta, conta-nos a história da sua tia que vinha para a Europa com a Easyjet e foi-lhe dito para esperar algures para fazer o check-in, tendo sido “esquecida” propositadamente e obrigada a comprar um bilhete novo. “Estão a ver, é o que fazem aos Africanos”.

Maria Vlachou

 

02.04.2013 | por candela | consciência cultural, Maria Vlachou, racismo, Viena

“Namíbia, Não!” encerra temporada em Salvador e se prepara para 3 apresentações em Portugal

Próximo fim de semana traz a última oportunidade para baianos conferirem a peça que há 2 anos faz sucesso em todo o Brasil.

Está chegando ao fim a temporada de Namíbia, Não! em Salvador. A montagem faz seu último fim de semana no Teatro Sesc Casa do Comércio (Caminho das Árvores), sábado e  domingo, dias 30 e 31 de março, às 21h e 20h, respectivamente. No mês de maio, a convite da Funarte, segue para 3 apresentações na Cidade do Porto, pelas comemorações do “Ano do Brasil em Portugal”.

“Temos viajado pelo país com a peça, mas realizar a temporada de comemoração dos dois anos de em Salvador, cidade onde esse esptáculo nasceu, tem um sabor especial. O público baiano pôde rever a história, e aqueles que ainda não tinham prestigiado essa comédia reflexiva, têm uma nova oportunidade. A temporada ainda contou com a novidade de trazer o ator Sérgio Menezes,  amigo e parceiro de outros espetáculos, que entrou no projeto Namíbia, Não! com toda garra e talento. Que venha o terceiro ano, com as novidades que o tempo nos dará!”, declara Aldri Anunciação, ator e autor do texto do espetáculo.

Jamile Amine/Comunika PressJamile Amine/Comunika PressO argumento parte da seguinte situação hipotética: o ano é 2016 e o governo brasileiro decreta que todos os cidadãos de melanina acentuada sejam deportados para um país da África. Com humor e inteligência, a partir do confinamento de 2 primos em um apartamento por causa desta absurda Medida Provisória, o espetáculo provoca uma discussão sobre a situação do negro no Brasil atual.

Namíbia,Não! é dirigida por Lázaro Ramos, estreou em março de 2011 no Teatro Castro Alves, em Salvador, e já se apresentou em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza e Brasília. Desde o seu lançamento contabiliza mais de 35 mil espectadores.

Desde sua estreia Namíbia,Não! tem acumulado importantes consagrações, validando sua qualidade artística. Contemplada com os Prêmios Braskem de Teatro 2011 e Myryam Muniz 2010, ambos na categoria Melhor Texto (autoria de Aldri Anunciação), recebeu recentemente o Prêmio Portal R7 de Melhor Texto de Teatro em 2012, escolha que deu-se através de votação popular, tendo mobilizado mais de 100 mil votantes.

O texto Namíbia, Não!, de Aldri Anunciação, foi  tema de palestra em Colóquio Internacional Sobre Literatura Brasileira Contemporânea realizado em parceria pela Freie Universität de Berlin, Université Paris-Sorbonne (França) e Universidade de Brasília, em Berlim, dias 11 e 12 de março, na Alemanha. Neste evento, a dramaturgia negra brasileira foi objeto de estudo e teve destaque no exterior. Em breve, Namíbia, Não! poderá ser traduzida e publicada em alemão.

28.03.2013 | por martalanca | Brasil, Lázaro Ramos, racismo, teatro

Tolerace - Final Conference

International Conference
(Anti-)racism and critical interventions in Europe
Social sciences, policy developments and social movements
19-20 February 2013

Venue: CIUL Auditorium (Picoas Plaza, Lisbon)
Free registration: www.ces.uc.pt
(English-Portuguese translation services will be made available)

In contemporary Europe, we are witnessing the vanishing of anti-racism from political cultures and academic discourses, in favour of an approach that intervenes on immigrants and minorities themselves via public rhetoric on
integration.

This conference will thus bring together an international community engaging in debates on racism and anti-racism to discuss the analytical approaches and main findings of the European research project
TOLERACE - The semantics of tolerance and (anti-)racism in Europe: public bodies and civil society in comparative perspective, coordinated by the Centre for Social Studies.

The debate will focus on key issues that bring about an in-depth analysis of racism and anti-racism, such as the historical legacies of national formation processes and colonialism, contemporary political developments in European contexts, and the role of academia and social organisations in policy advice.

The event is intended as an opportunity to engage with policymakers, academics, political activists, journalists and stakeholders at local, national and European levels, discussing the difficulties of addressing racism in contemporary European contexts, as well as to propose a way forward by identifying approaches and key areas in which a sound debate on anti-racism can be constructed.

19 February
Opening Session
9:30-10:00 Welcome and Registration

10:00-11:00
Critical interventions in contemporary politics in Europe: the future of an anti-racist agenda
Chair: Maria Paula Meneses (Centro de Estudos Sociais).

Boaventura de Sousa Santos (CES)
Louisa Anastopoulou (EC project officer) – to be confirmed
Silvia Maeso (CES)
Marta Araújo (CES)

11:00-12:00
Keynote address: Jorge Sampaio (UN High Representative for Alliance of Civilizations).

Lunch break

14:00-16:30
The vanishing of anti-racism within policy developments in education and employment
Chair: Frank Peter (European University Viadrina/U. of Bern).

Presentation of TOLERACE case studies:
Marta Araújo (Centro de Estudos Sociais): “The ‘prudent integration’ of the Roma/Gypsies: Racism, school segregation and white flight”
María Martínez (Universidad del País Vasco): “From the racial question to the social question: avoiding (anti)-racism in the Basque educational system”
Tina Jensen (The Danish National Centre for Social Research): “Discrimination and Employment in Denmark: ‘Old’ and ‘New’ Immigrant Groups”
Salman Sayyid (CERS, University of Leeds): “Muslims in the labour market in the UK: Leeds and Leicester”

Comments:
Eva Smith-Asmussen (U. of Copenhagen/ECRI) and Robert Rustem (European Roma and Travellers Forum).

Discussion
17:00-18:00
Keynote address
David T. Goldberg (University of California, Irvine): “Postracial Conditions”
20 February
9:30-11:30
The politics of representation: (anti-)racism and the media
Chair: Ian Law (CERS, University of Leeds)

Presentation of TOLERACE case studies:
Simona Pagano (European University Viadrina, Frankfurt): “Chasing the gypsy, immolating the gypsy, securing the city: Roma and ‘nomad camps’ in the Italian media”
Ángeles Castaño (Universidad de Sevilla): “Cultural diversity in the media: immigration, education and Islam in Andalusia”
Hakan Tosuner (European University Viadrina, Frankfurt): “Female Victims - Male Perpetrators. Representation of the Muslim ‘other’ in the German media”.

Comments: Nadia Fadil (University of Leuven).

11:45-13:00:
Documentary “Era uma vez um arrastão”/ “The Beach Rampage That Never Was”, Diana Andringa (2005)
Presentation by the documentary’s director
Discussion

Lunch Break

14:30- 15:30
Keynote address
Ramón Grosfoguel (University of California, Berkeley): Decolonizing Epistemic Racism/Sexism in Europe Today: “The Decolonial Perspective of Boaventura de Sousa Santos and Frantz Fanon in the Context of Decolonial European Struggles”.

16:00-18:00
Round table: The state, academia and policy advice: better horizons?

Chair: Silvia Maeso (CES)

Opening intervention: Kwame Nimako (University of Amsterdam)
Discussion:
Javier Sáez (Fundación Secretariado Gitano)
Arzu Merali (Islamic Human Rights Commission)
Mamadou Ba (SOS Racismo)
Sandew Hira (International Institute for Scientific Research)

18:30-19:30
Closing keynote address: Pedro Bacelar de Vasconcelos (Universidade do Minho).

web

07.02.2013 | por herminiobovino | Conference, conferência, lisboa, racismo

Chullage canta a morte de Steve Jobs

06.12.2012 | por martalanca | capitalismo, Chullage, racismo

FESTA BUALA + lançamento de "Racismo e Imigração em Portugal"

6ª feira, 15 de Junho, entre as 21h30 e as 3h da manhã no Zona Franca no Bartô (Chapitô) LISBOA 

Bruno Peixe Dias, Nuno Domingos, K-beça, Badiu Branku são os djs da noite!!!!

Os dois anos de existência do Buala e o lançamento de um livro sobre racismo e imigração são o pretexto para esta grande noite!

Um livro que revisita a agenda política, mediática e social-científica da imigração em Portugal e desconstroi as categorias operadas na construção de identidades, procurando identificar os pontos frágeis das descriminações.

Uma plataforma de cultura africana contemporânea, BUALA, que implica as diásporas negras e também reflecte sobre a relação de Portugal com a sua imigração. 

Conversa/apresentação do livro com o filósofo André Barata, o rapper LBC e os coordenadores do livro (Bruno Peixe Dias e Nuno Dias), música (do black atlantic e não só), imagens e encontros, são o que lhe oferecemos nesta noite.


11.06.2012 | por martalanca | buala, imigração, racismo

Eurocentrism and racism beyond the positivist order: the politics of history and education

Seminário Internacional
23 a 24 de Maio de 2011, 10h00, Aud. do Centro de Informação Urbana de Lisboa, Picoas Plaza, Rua de Viriato 13
[INSCRIÇÕES GRATUITAS]

On the 23rd and 24th May, the Centre for Social Studies will hold an International Conference to present and discuss the main findings of the project ‘Race’ and Africa in Portugal: a study on history textbooks, funded by the Foundation for Science and Technology (FCT). The conference aims at constructing a historically-informed debate on Eurocentrism and racism, bringing together international scholars that work on a diversity of approaches and disciplines, namely History, Anthropology, Political Sociology, International Relations, Sociolinguistics. Focusing on the politics of history and education, the conference will move the debate beyond the positivistic framings that have been characteristic of contemporary understandings of national identity, racism and knowledge in (post-)colonial Europe.

PROGRAMM

Continuar a ler "Eurocentrism and racism beyond the positivist order: the politics of history and education"

29.04.2011 | por martalanca | eurocentrismo, racismo

Parabéns aos 20 anos do SOS RACISMO

26.11.2010 | por martalanca | racismo

pretos e gays

Os direitos das minorias têm apenas em comum serem direitos. As minorias e as razões da sua discriminação nada têm de semelhantes. As minorias não são melhores do que as maiorias. Apenas as circunstâncias fazem delas vítimas da intolerância. E a verdade é esta: assistimos a uma progressão dos direitos das minorias sexuais e a uma regressão das minorias étnicas. Uma pista: num caso estamos perante direitos individuais, no outro perante direitos económicos. E, nos tempos que correm, isso faz toda a diferença.

23.09.2010 | por martalanca | étnicas, minorias, questões raciais, racismo