"A universalidade de Frantz Fanon", de Achille Mbembe

Vale a pena ler no Artafrica este ensaio sobre Fanon… 

 

1. Esquecemo-nos com demasiada frequência que Frantz Fanon pertence a uma geração que passou, por duas ou três vezes, pela provação do desastre e, através da experiência de fim do mundo que toda a catástrofe consigo acarreta, indivisamente, pela provação do mundo. Poderia ter facilmente podido contar-se entre as inúmeras vítimas da segunda guerra mundial em que participou com dezanove anos de idade; e nunca teria sido questão de Pele negra, máscaras brancas, nem d’Os Condenados da terra. Conheceu a colonização, a sua atmosfera sangrenta, a sua estrutura de asilo, o seu quinhão de feridas, os seus modos de arruinar a relação com o corpo, a linguagem e a lei, os seus estados inauditos, a guerra da Argélia.
Estas duas provações - o nazismo e o colonialismo -, a que haveria que acrescentar o encontro amargo com a França metropolitana e os primeiros clarões das independências africanas, não constituem apenas experiências fundadoras, chaves de leitura de toda a sua vida, do seu trabalho e da sua linguagem. Fanon surge, inteiro, no molde desses acontecimentos e mantém-se erguido, firme, no intervalo que, a um tempo, os separa e os une2 . É aí, nessas três clínicas do real, que nasce, cresce e se esgota o nome de Fanon. É a essas três cenas - e, face a elas, à obrigação de cuidar que todas atravessa - que se deve o essencial da sua palavra, semelhante, na sua beleza dramática, na sua fulgurância e no seu brilho luminoso, ao verbo em cruz do homem-deus ameaçado de loucura e de morte.

 

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28.01.2013 | por martalanca | ACHILLE MBEMBE, artafrica, Frantz Fanon | 0 comentários

Achille Mbembe: "Donors have a simple notion of development"

SEPTEMBER 2009 -

“Relationships between Western cultural funding agencies and local artists and recipients have never been so bad. Instead of creating art, many artists in the Continent are forced to spend most of their time, energy and intelligence filling useless bureaucratic forms, begging, desperately trying to respond to ever-changing fads and policies when they are not checking the mood of ever-touchy ‘cultural attachés’ of Western consulates or agencies from whom they hope to get some support. This is a huge waste.”

Achille Mbembe

“We can keep dressing up the unlimited power of the donors and their money and the material poverty of the recipients in the fancy language of ‘partnership’, ‘empowerment’ or even ‘friendship’. All these words won’t mask the brutality of the encounter between those who have money but no good ideas and those who have some good ideas but no money. South Africa has the means to develop a powerful cultural policy. But the country profoundly lacks imagination. It could fund by itself a major Biennale in the global South.”

“Johannesburg could become a cultural and artistic Mecca. But the ruling party, the African National Congress, confuses ‘arts and culture’ with ‘heritage and folklore’. It is still trapped within a racial mindset to the point where the politics of race (who is black and who is not) overshadows any intrinsic value given to aesthetics as such. For South Africa to fulfill its potential, it needs to become an ‘Afropolitan’ nation in which white South African artists are presumed to be as ‘African’ as black South African artists.”

“Most Western donor agencies come to Africa with a simplistic idea of what ‘development’ is all about. They consider Africa to be a zone of emergency, a fertile ground for humanitarian interventions. The future is not part of their theory of Africa when such a theory exists. Africa is the land of never-ending present and instant, where today and now matter more than tomorrow, let alone the distant future. The function of art is to subsume and transcend the instant; to open horizons for the not-yet. Such is too, at least to me, the task of cultural criticism. In circumstances where millions of people indeed struggle to make it from today to tomorrow, the work of culture is to pave the way for a certain practice of the imagination without which people have no name and no voice. This struggle to write one’s name and to inscribe one’s voice in a structure of time that is opened to the future is a profoundly human struggle.”

Vivian Paulissen in POWER OF CULTURE

19.06.2011 | por martalanca | ACHILLE MBEMBE | 0 comentários

Achille Mbembe dia 17 de Junho, em Lisboa

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O autor de On the Postcolony” (2001), vencedor do prémio Bill Venter/Altron Award, e de “Sortir de la grande nuit. Essai sur l’Afrique décolonisée” (Paris, 2010) vem a Lisboa. Dia 17 de Junho, pelas 9h30, no Auditório 2 da Gulbenkian, Achille Mbembe apresentará o paper “Democracia e a Ética do Mutualismo. Apontamentos sobre a Experiência Sul-africana”, no âmbito da programação ‘Próximo Futuro’.

Leia o pensamento de Achille Mbembe no BUALA e também aqui.

Achille Mbembe por Jean-Claude Dhien, para Télérama Achille Mbembe por Jean-Claude Dhien, para Télérama

07.06.2011 | por martamestre | ACHILLE MBEMBE, próximo futuro | 0 comentários

Próximo Futuro - segunda parte

No próximo dia 16 retomamos a programação Próximo Futuro com renovado fulgor, com a inauguração de várias instalações nos nossos Jardins e com a estreia do espectáculo “Woyzeck on the Highveld” pela aclamada companhia de teatro sul africana Handspring Puppet Company.
No dia 17 realizam-se as Grandes Lições Próximo Futuro, com a presença de Achille Mbembe (Camarões), Eucanaã Ferraz (Brasil), Margarida Chagas Lopes (Portugal) e Ralph Austen (EUA).

Programa Grandes lições 

Sexta, 17 Jun 2011 09:30 Aud.3 Entrada livre

Transmissão directa online 
Achille Mbembe

Democracia e a Ética do Mutualismo. Apontamentos sobre a Experiência Sul-africana

Nasceu nos Camarões, em 1957, e é investigador em História e Política na University of the Witwatersrand (Joanesburgo, África do Sul). Faz parte da coordenação do The Johannesburg Workshop in Theory and Criticism (JWTC). Escreveu largamente sobre política, cultura e história africanas, sendo autor de múltiplas obras em francês, como “La Naissance du maquis dans le Sud-Cameroun”(1996). O seu livro “On the Postcolony” (2001) recebeu o Bill Venter/Altron Award, em 2006. A sua mais recente publicação é “Sortir de la grande nuit. Essai sur l’Afrique décolonisée” (Paris, 2010).
Eucanãa Ferraz (Brasil)
Da poesia – o futuro em questão

Qual o futuro próximo da poesia? Estaríamos, enfim, assistindo hoje à sua morte, largamente anunciada por pensadores e poetas ao longo do século XX? Há quem julgue haver sinais de que estamos, ao contrário, distantes do fim ou do esgotamento da poesia. Longe de extremos, talvez fosse possível considerar politicamente a actuação contínua e renovada dos poetas, avaliando-a como estratégia de manutenção e/ou criação de espaços viáveis para a inteligência, a subjectividade e a imaginação num mundo largamente dominado pela imagem e pela circulação tão avassaladora quanto a crítica de mercadorias. Mas os poetas nos dias de hoje acreditam nisso? Acreditar nisso não seria uma ilusão a ser descartada? Seria possível objectar que, entre outros problemas, a inserção da poesia no mercado editorial é mínima e que o lugar ocupado por ela nas escolas é acanhado. Além disso, o género, pelas suas próprias características, parece exigir bens indisponíveis para a sua fruição plena, como tempo, concentração e conhecimento de códigos específicos. Como ver alguma solidez no futuro de um género literário que parece confinado ao círculo estreito dos seus próprios produtores? Acresce uma pergunta: os novos media electrónicos são propícias à escrita, à leitura e à crítica de poesia ou, pelo contrário, acelerarão o seu fim?
Propomos um balanço do papel desempenhado pela lírica ao longo do século XX e uma reflexão sobre os seus impasses no mundo contemporâneo, com atenção especialmente voltada para o que seria o seu futuro nos contextos lusófonos.
Eucanãa Ferraz

Poeta, publicou, entre outros, os livros “Martelo” (1997), “Desassombro” (2002 - Prémio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional, para melhor livro de poesia), “Rua do mundo” (2004) e “Cinemateca” (2008). Os três últimos livros t foram editados em Portugal. Para a infância, publicou “Poemas da Lara” (2008) e “Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos” (2009). Organizou, entre outros, dois livros de Caetano Veloso, um de letras, “Letra só” (2003), e outro com textos em prosa, “O mundo não é chato” (2005, Famalicão: Quasi Edições, 2007); reuniu poemas e letras de canção na antologia “Veneno antimonotonia – os melhores poemas e canções contra o tédio” (2005); depois de preparar a “Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes” (2004), passou a coordenar a edição das obras do poeta no Brasil (Companhia das Letras) e em Portugal (Quasi Edições); publicou, na colecção Folha Explica, o volume Vinicius de Moraes” (2006). Também é professor de literatura brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Desde 2010, é consultor de literatura do Instituto Moreira Salles, onde organiza exposições, cursos, leituras e publicações. Edita, com André Vallias, a revista on-line Errática, voltada para arte e a literatura.
Margarida Chagas Lopes (Portugal)
Produção, utilização e partilha do conhecimento na economia global

Uma das contradições fundamentais da chamada era da globalização consiste na oposição resiliente entre os espaços eminentemente nacionais de produção das qualificações e competências e a utilização e reprodução das mesmas em contextos supranacionais cada vez mais amplos. Desta clivagem dificilmente superável tem vindo a resultar uma desigualdade crescente na acessibilidade ao conhecimento à escala global, desigualdade que o esgotamento das formas tradicionais de regulação em economia tem ajudado a potenciar. As insuficiências dos sistemas nacionais de educação e formação articulam-se com as dificuldades crescentes de (hetero)regulação dos mercados de trabalho e dos sistemas de inovação para alimentar fluxos crescentes de trabalhadores excluídos entre as novas periferias e os novos centros do desenvolvimento mundial.
Margarida M.S. Chagas Lopes

É professora auxiliar com agregação do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Universidade Técnica de Lisboa, e investigadora e membro da direcção do Centro de Sociologia Económica e das Organizações (SOCIUS). É responsável pelas disciplinas de Economia da Educação, Economia da Educação e Formação e Economia dos Recursos Humanos da licenciatura em Economia e dos mestrados em Economia e Políticas Públicas e em Sociologia Económica e das Organizações do ISEG. Integra o Grupo de Peritos do Observatório do Emprego e Formação Profissional, desde 1999. Entre os trabalhos publicados, contam-se títulos sobre Economia da Educação, Regulação dos Mercados de Trabalho, Educação e I&D, (In)Sucesso Escolar no Ensino Superior, Ensino Superior e Impactos do Processo de Bolonha, entre outros. ver 
Ralph Austen
As grandes incertezas da historiografia africanista: Existe um tempo ’africano’ e pode o seu passado anunciar o seu futuro?

A minha intervenção aborda dois conjuntos de problemas ligados entre si: a periodização do passado africano e a sua relação com os futuros africanos. A primeira questão é característica de África, na medida em que as periodizações que vigoram, em grande parte, do continente costumam ser definidas em função de iniciativas de agentes externos que entram ou se aproximam de África, em vez de corresponderem a dinâmicas geradas internamente. Por exemplo, na antiga colonização do Magrebe, o comércio islâmico através do Saara e ao longo da costa do Índico, os empreendimentos marítimos europeus junto às costas do Atlântico e do Índico, o colonialismo europeu do interior do continente e uma era ’pós-colonial‘ (oposta a ’nacional‘) eram definidos não apenas pelo colonialismo, mas também por mudanças na política económica internacional (desenvolvimento ‘fordista’ seguido pelo neoliberalismo global). A principal incógnita, que liga este passado ao futuro, é o estado-nação como formação espacial e sociopolítica. O actual mapa político de África é entendido como um produto do colonialismo, mas as fronteiras herdadas só se fixaram na altura da independência, pois, mesmo durante as décadas de ocupação europeia, sofreram alterações consideráveis. Devemos prever o futuro de África em termos de forças externas contínuas (migração, ONG, novos media); nos seus próprios termos formais nacionais, tendo em conta as políticas/comunidades pré-coloniais mais débeis e menos delimitadas (mas mais autonomamente definidas); ou num parâmetro sem precedentes no passado africano? 

Ralph A. Austen (EUA)

É professor emérito de História Africana na Universidade de Chicago, onde antes presidiu à comissão de estudos africanos e afro-americanos e ao Programa de Relações Internacionais.  Entre as suas publicações contam-se “African Economic History: Internal Development and External Dependency” (1987), “In Search of Sunjata: the Mande Oral Epic as History, Literature and Performance” (1998), “Middlemen of the Cameroon Rivers: the Duala and their Hinterland” (1998), “Trans-Saharan Africa in World History” (2010) e “Viewing African Cinema in the Twenty-First Century: Art Films and the Nollywood Video Revolution”. Neste momento, realiza uma investigação sobre o intelectual e escritor maliano Amadou Hampâté Bâ e um trabalho provisoriamente intitulado ”The Road to Postcoloniality: European Overseas Expansion, Global Capitalism and the Transformation of Africa, the Caribbean and India”.

Exposição - Fronteiras. Encontros de Fotografia de Bamako
Notícia - O Estado das Artes em África e na América do Sul 

mmagalhaes@gulbenkian.pt

 

07.06.2011 | por martalanca | ACHILLE MBEMBE, próximo futuro | 0 comentários

ACHILLE MBEMBE no Próximo Futuro

ACHILLE MBEMBE no Centre for Creative Arts (University of KwaZulu-Natal)ACHILLE MBEMBE no Centre for Creative Arts (University of KwaZulu-Natal)Em Junho, esperamos que se junte a nós logo no dia 16 (quinta-feira), às 17h00, na inauguração das intervenções propostas para o JARDIM da Gulbenkian pelos artistas Bárbara Assis Pacheco (Portugal), Délio Jasse (Angola), Isaías Correa(Chile), Kboco (Brasil), Nandipha Mntambo (África do Sul), Rachel Korman(Brasil), e o colectivo Raqs Media (Índia).

No dia seguinte, 17 de Junho (sexta-feira), às 09h30, terá início a segunda parte das LIÇÕES do Próximo Futuro (2011), reunindo investigadores, poetas e professores de diversas geografias (Brasil, Camarões, EUA e Portugal), em torno de reflexões sobre “Democracia e a Ética do Mutualismo” (a partir da “experiência Sul-africana”), “Qual o futuro próximo da Poesia?”, “As grandes incertezas da historiografia africanista” e “Produção, utilização e partilha do conhecimento na economia global”.

Alguns links (complementares às respectivas bios no Jornal) para conhecer os conferencistas de dia 17 de Junho:

Achille Mbembe (Camarões)

What is a postcolonial thinking?

Donors have a simple notion of development

The invention of Johannesburg

Eucanãa Ferraz (Brasil)

Não saberia dizer a hora…

Entrevista

Errática

Margarida Chagas Lopes (Portugal)

Entrevista Antena 1

Desemprego e Interioridade

Principais actividades e trabalhos em Economia da Educação e da Formação

Ralph Austen (EUA)

The Department of History

Trans-Saharan Africa in World History

Postcolonial African Literature

Próximo Futuro

 

20.05.2011 | por martalanca | ACHILLE MBEMBE, próximo futuro | 0 comentários