sem título

O meu corpo não está à venda, o meu corpo está vivo. O meu corpo partilha-se, troca-se, empresta-se e até se dá por uma boa causa. O meu corpo está frio. O meu corpo está quente. O meu corpo precisa de martelada, de cair à bruta ou de cair facilmente nas mãos de um monstro. O meu corpo não é meu. O meu corpo cai de um prédio. O meu corpo é a violência de poder ser outro. O meu corpo é um corpo. Um corpo simpático. Um corpo a cair de um corpo. Um prédio a despenhar-se. Um morto. Um vivo. Um monstro. Um espelho em frente a um espelho. O meu corpo é uma mulher porque come e respira como uma mulher. O meu corpo é uma cabeça porque é uma cabeça de carne. O meu corpo é o resultado de uma equação de realidade. Uma divisão mal feita, um resto de um resto. O meu corpo pode ficar doente ou ser encontrado no destroço de uma guerra. O meu corpo pode vir a ser feliz numa cama muito suja. O meu corpo só quer confundir-se com o resto da paisagem. Confundir-se com a estupidez pura. Não ter ideias. Precisar dos outros. Escrever o seu nome com nomes de outros. O meu corpo é material para ser esfolado (aliás, mudar-lhe a pele é das melhores coisas que lhe podem fazer). O meu corpo é a vertigem de uma ideia a nascer para dentro de uma ideia. Quanto mais dentro no fora mais fora no dentro. O corpo está aqui. O meu corpo não está à venda. O meu corpo está vivo.

 

por Rita Natálio
Corpo | 18 Abril 2013 | corpo, mercadoria, partilha