"não posso escorregar na emoção fácil, que a saudade e a distância criam", entrevista a Ana Paula Tavares

Porque veio viver para Portugal?

Das várias gerações que estiveram em Angola eu fui a última da minha família que que por lá ficou. O meu reencontro com a família dá-se em 1992. Vim porque quis que os meus filhos tivessem mais oportunidades para estudar. Fui criada por uns padrinhos, com quem vinha várias vezes a Portugal, mas nunca tinha cá vivido e por isso custou-me.

Iniciou o trabalho muito nova e em vários pontos do país.

Comecei a dar aulas antes da independência. Depois da independência continuei a lecionar e todas as outras coisas que era preciso fazer na altura, desde a alfabetização, a formação política, um pouco de tudo. Achava que estar fora de Luanda me dava uma melhor perspectiva do país, sempre fui adiando a ideia de Luanda. Nasci no Lubango onde vivi até aos 20 anos. Quando me juntei com o meu marido fomos viver para o Huambo, depois para o Kwansa Sul, Benguela e só depois para Luanda.

Era motivante ess urgência de muitas coisas para fazer?

Logo em 1976 foi criado o Conselho Nacional de Cultura que seria o embrião do futuro Ministério da Cultura (primeiro Secretaria), e era organizado numa estrutura central e várias provínciais, chamadas de delegações provinciais da cultura, por isso fui destacada para o Kwansa Sul. A minha formação em História deu-me oportunidade de olhar para uma província que não era a minha, onde as línguas locais não tinham nenhum parentesco com a região de onde vinha – de uma sociedade de pastores do sul de Angola, (os nhanheca) passava para uma sociedade de pescadores, agricultores, gente ligada ao cultivo do algodão e do café. Tudo me transportava para outra realidade. Então quando fui nomeada, aproveitei para me deslocar por toda a província para conhecer e ouvir as línguas e a tradição oral, encontrar os famosíssimos monumentos de pedra da Kibala, os túmulos em pedra seca, as pinturas rupestres.

Fazer um levantamento,  era preciso documentar o país…

No fundo era um problema identitário. Tínhamos saído da situação colonial para outra situação de afirmação das nações. Era preciso recolocarmo-nos, sabermos quem éramos: que comunidade é esta onde me integro agora, o que se fala, e historicamente, como se relacionaram, como foi o tráfico de escravos, que memória têm.

Guarda essa pesquisa como um momento de grande entusiasmo?

Um grande momento de alegria que ainda por cima coincidiu com o facto de estar grávida. O país estava a nascer e as pessoas a fazer nascer as suas vidas. Mas muito atribulado. Na Independência eu já tinha fugido duas vezes, primeiro do Huambo quando foi ocupado pela Unita, em 1975, e houve uma perseguição aos quadros que não eram simpatizantes da Unita (Evidentemente que isto hoje parecem coisas pré-históricas.) Fui das últimas pessoas a fugir. Refugiámo-nos, com medo, num quartel da tropa portuguesa, que não quis abrir-nos os portões e ali ficámos, éramos centenas de pessoas. Disseram que no dia seguinte uma coluna sairia em direcção a Luanda e que se quiséssemos podíamos arriscar ir com eles. Lá parti nessa fantástica fuga que um dia alguns de nós acabarão por contar. O meu marido tinha sido reitor no tempo colonial no Sumbe e tinha sido expulso para o Lubango por causa de uma peça de teatro que incomodou as autoridades coloniais. Então, quando chegámos a Luanda, ouvimos dizer: “Kwansa Sul zona libertada” e fomos para lá onde podíamos ser úteis e trabalhar. Porém, passados três meses veio a invasão sul-africana. Cheguei a ter em minha casa 20 pessoas refugiadas, amigos que vinham do Lubango, de Benguela e fugimos juntos. Ainda passámos a Independência no Kwansa Sul, muitos de nós debaixo de mesas porque já estávamos a ser bombardeados. Fugimos para Luanda para nos reorganizarmos e depois fomos para a Gabela. Comecei a sentir-me mal e descobri que estava grávida e fiquei contentíssima. Não pensei em médicos ou assistência. A única coisa que pensei, eu que nunca tinha vivido com a minha mãe, é que ela fazia falta.    

E que fizeram na Gabela ?

Até o Sumbe estava ocupado pelo exército sul-africano, a Gabela era a frente onde se podia reorganizar a vida. Ficámos até março de 1976 e depois regressámos ao Sumbe para as nossas vidas.

E como era feita a pesquisa pelo país, ainda não havia certamente muitos registo….

Estudava as línguas nacionais?

Isso não se fez logo, mas sim, muita recolha de tradição oral, só que tínhamos poucos meios. O então Secretário de Estado, o poeta António Jacinto, enviou umas quatro cassetes enormes para eu filmar e enviar de volta, e eu mandei e provavelmente perderam-se. Não tinha máquina fotográfica nem gravador, apenas registava e enviava. Talvez tenha estado em sítios onde mais ninguém foi, pois ninguém previa que a guerra estava para começar outra vez

Mas sempre no quadro de um trabalho institucional, que cumpria uma militância.

Na base da militância e de grande inocência.

Essas recolhas também lhe serviram a título pessoal, com alguma repercussão na sua obra certamente.

Mais como um campo experimental porque actualmente as sociedades que estudo não têm nada a ver com aquelas, nem com aquela experiência de vida, mas como disciplina, campo experimental, como norma e vontade, evidentemente que sim. 

Na área da cultura quem eram as pessoas que estavam a produzir? Fazendo o paralelo com a literatura, como foi o período das Brigadas Jovens da Literatura?

A União e Escritores Angolanos foi criada logo a seguir à Independência que lançou o apelo aos jovens para homenagearem o poeta maior, com elegias em torno da figura de Agostinho Neto. Isso foi o mote, mas depois sentiram quase a obrigação de se reunirem, de produzir folhinhas, jornais, publicações. E surgiram as Brigadas Jovens da Literatura. Sobretudo em Luanda, mas as do Huambo, Benguela e Lubango também publicaram coisas interessantes.

O que acha desse tipo de literatura programática, que serve fins políticos?

Talvez na altura não houvesse como não passar por isso. Mas alguns jovens começaram a publicar por eles próprios ou criaram projectos como o Luandanje.

Ana Paula Tavares, fotografia de Marta LançaAna Paula Tavares, fotografia de Marta Lança

Chegou a escrever esse tipo de poemas na altura?

Não, fiquei caladinha. Eu sempre escrevi desde pequenina, até para resolver os meus próprios medos. Pensava-me uma pessoa muito mais velha do que era, e achava que estava a fazer coisas tão importantes como alfabetizar, os inventários culturais, andar de jipe para trás e para a frente, e a escrita era para a gaveta. No entanto, fui guardando e, com 30 e poucos anos disse,: “ou publico agora ou já não publico”. Então apresentei um projecto de Caderno ao Luandino Vieira e à UEA que tinha um conjunto de escritores consagrados que analisavam estes jovens pretendentes a escritores. Aquilo fugia um pouco à norma mas tiveram a sensibilidade de publicar. Chamava-se Ritos de Passagem  e causou alguma polémica.

Que tipo de polémica?

Fui acusada de ter falta de homem, ressabiada, pornógrafa. Mas teve um certo eco. Nessa altura surge uma data de gente a publicar que já não tinha a ver com o tipo de poesia de que falávamos, por exemplo Ana Santana, João Maimona, José Luís Mendonça. Surge o projecto Archote, um jornal que pretendia divulgar ficção e ensaio, onde de uma polémica entre Nelson Pestana Bonavena, Luís Kandjimbo e Carlos Pacheco em torno do primeiro poeta que publicou no século XIX (que era benguelense), resultaram ensaios muito bons e despoletou esta veia ensaística neles, apesar de terem seguido caminhos tão diferentes. Nessa altura, pessoas como Ruy Duarte e David Mestre  publicavam poesia e ensaio, respectivamente, sobre cinema e literatura. O Ruy Duarte começara o seu trabalho sobre os Muxiluanda da Ilha, que daria origem a Ana a manda. Arnaldo Santos também publicava ensaios. Uma coisa fundamental era o suplemento cultural de domingo no Jornal de Angola, foi ali que muita gente publicou pela primeira vez. E também a revista Mensagem e Novembro, além da actividade cultural que começou nos anos 80 que era a “Maka à 4ª feira” na UEA para discutir ideias e trabalhos.

E havia interesse pelo que se passava culturalmente noutras partes do mundo? Quais eram as principais referências? Calculo que latino-americanas…

Mergulhou-se noutras literaturas que passaram a circular. Cuba era uma referência fundamental. Tenho pena da má interpretação desta possibilidade de encontro de cubanos e angolanos, um equívoco ainda não resolvido, pois podia ter sido um encontro potenciador para ambas as partes.

Brasileiros, colombianos. O Garcia Marquez chegou a visitar Angola.

Sim, e escreveu um texto descrevendo imensos monstros o que mostra que os preconceitos não são apanágio de uma só civilização. Já o Jorge Amado foi e gostou, tinha muitos amigos, por exemplo o Luandino.

Actualmente continua a escrever, tem um programa de rádio, em que ponto mantém mais activa a relação com Angola?

Tenho um trabalho de investigação sobre as sociedades lunda e tchokwé. Estive lá durante algum tempo conversando com as pessoas, no fundo eles são o resultado de um império lunda e um corredor de 3 ou 4 impérios coloniais. Porque, naquela região há uma fronteira que foi belga (com a República Democrática do Congo), há outra mais a sul com a Zâmbia (com o Império britânico) e toda uma conjugação de interesses, belgas, franceses, britânicos. Estudo esses povos não só na sua dimensão e percurso históricos - de como chegaram a determinado momento, mas também como se deu o seu confronto com um modelo de exploração que foi um modelo único em toda a História colonial em Angola - a história da Diamang. Foi o meu objecto de trabalho para o doutoramento, na Universidade Nova de Lisboa.

Vai até ao momento actual?

Privilegiei o momento antes do modelo se implantar até ficar completamente cristalizado. Mas como trabalhei muito com a memória, é evidente que passa por momentos actuais, as pessoas não se limitam a falar do tempo da Diamang, contam a sua vida do ponto de vista do eu e até agora, com as interrogações para o futuro.

Também tem uma forte componente antropológica. E linguística?

Sim, é de História, mas não descura outras abordagens, língua e história oral. Mas eu não falo nenhuma das línguas em questão, então tive de ter muitas cautelas. Houve testemunhos que não incluí porque não confiei no intérprete, que às vezes baralha tudo. Dei conta de quanto as línguas se transformaram e têm empréstimos de outras línguas. Quando as sociedades mudam as línguas mudam também.

E a relação com a literatura, que é outra forma de conhecimento do país, a sua escrita está muito ligada àquela terra, às problemáticas e inspirações que de lá vêm. Como é escrever sobre um país onde não se está?

É emocionalmente doloroso mas ao mesmo tempo é isso que mantém acesso um certo desafio. Quando escrevo estou constantemente a pôr-me em causa, não posso escorregar na emoção fácil, que a saudade e a distância criam, que martirizam. Tenho de me controlar muito. Mas mantenho viva a ligação com o espaço, território, tradições sem deixar de lado coisas de outros universos que li, que me vieram parar às mãos. Por exemplo, um livrinho que publiquei O Lado da Lua (que é uma região e existe mesmo na cultura tchokwé) tenho um poema muito longo que se chama Japão. Uma senhora amiga pediu-me para traduzi-lo para sueco e fez-me um questionário cerrado: “como foi viver no Japão?”, “porquê o Japão?” e eu respondi: “eu não conheço o Japão, o meu Japão é o do Mishima, etc”. Não quer dizer que a minha Angola também seja ficcionada, porque sei que é osso, carne, membros, estômago, coração, mas obriga a essa atitude um pouco ambígua e esquizofrénica, de uma coisa possibilitar a outra para não cair na grande emotividade. Agora que há uma saudade imensa… E perde-se muita coisa. A Angola que eu deixei em 1992 não tem rigorosamente nada a ver com a Angola actual, e acho bem que as coisas mudem. Não tenho saudades nenhumas do tempo colonial, que era um tempo de injustiça, mesmo eu que ia à escola e à universidade, e estava do lado privilegiado, sei muito bem que é um sistema para esquecer (ou para lembrar….). Como também está resolvido sem nostalgia esses tempos de envolvimento quase amoroso: a Independência, o nascer um país, criarmos os filhos, uma avalanche de coisas que nos estavam a acontecer e nós tínhamos 20 anos.

E pensa um dia regressar a Angola para ficar?

Gosto de pensar que toda a minha vida gira em torno do dia do regresso. Não propriamente para viver em Luanda mas se possível para Benguela, Lubango ou Namibe onde eu pudesse entregar aos angolanos mais novos algum conhecimento do que fui lendo e juntando.

Entrevista originalmente publicada no suplemento Mutamba do Novo Jornal, 2009

por Marta Lança
Cara a cara | 24 Junho 2019 | Ana Paula Tavares, angola, língua, Literatura, poesia