"falar de períodos críticos de transição da história de Angola", entrevista a José Luís Mendonça

No Reino das Casuarinas, de José Luís Mendonça (2014), tenta esclarecer estórias atravessadas na História de Angola, com sabor a desilusão. O estilo literário e o rigor jornalístico tornam a leitura aprazível. Um reino na floresta da Ilha de Luanda, um grupo de aparentes indigentes afinal tão visionários. O autor, director do jornal Cultura, tem esperança de se fazer ouvir num país onde diz faltar o diálogo, e onde não se deve deixar de sonhar com uma nova sociedade na qual o cidadão tenha valor. E tem propostas para tal.

 

No conto na revista Archote, nos anos 80, estas personagens já apareciam mas desconhecíamos o destino e a procedência das mesmas. Porque decidiu revisitar e transformar este conto? 

Eram só quatro personagens. Eu queria fazer um livro sobre o estrato da população que até pelos escritores são esquecidos. Deslumbrava-me muito saber como chegaram a este estado, de demência. Tive um amigo que enlouqueceu, dizia coisas incríveis. Morreu e, para o homenagear, quis escrever o romance. Juntei outros personagens. Descobri o PAM, era um cidadão que andava por Luanda, vestido de borracha. O Cuco vai narrando a sua vida e inclui os outros, que são amigos dele. E lá consegui fazer a trama. Estava muito calmo, com pouco trabalho, em Paris no ano de 2010.

Foi fazendo exercícios de memória, tornando paralela a sua história pessoal e a história nacional?

Todos os escritores querem falar das coisas fundamentais da história dos seus países. A ideia central era falar de períodos críticos e cruciais de transição da história de Angola. A insurreição de 61, a independência, o 27 de Maio e o pós-27 de Maio. Em 61 eu tinha cinco anos e assisti à violência e à repressão. Quando vejo o meu livro agora, como crítico, acho que fiz uma espécie de tratado sobre a sobrevivência pessoal e colectiva. O que mais me preocupa é a questão da segurança pessoal e colectiva. Como é que o cidadão comum, que não conhece a política nem a ideologia, que quer trabalhar e descansar, como pode sobreviver? Há forças ocultas a fazer os confrontos entre políticos, as grandes potências que vão afectar o tal cidadão, e como é que ele pode resistir a isso? Agora é o confronto entre terrorismo e civilização, um indivíduo pode estar numa praça e rebentar uma bomba. Pergunto: a segurança do homem esta em Deus, na religião, nas forças armadas, no dinheiro que tem ou onde?

José Luís Mendonça, fotografia de Ana BrígidaJosé Luís Mendonça, fotografia de Ana Brígida

 

Nesse sentido, como sobrevive o Nkuku do seu livro?

O Nkuku sobreviveu devido ao seu carácter inocente, alheado deste mundo. O que aconteceu em Angola e em muitos países africanos é que os responsáveis pela Guerra Fria e pela descolonização puniram a inocência dos cidadãos que não sabiam o que eram os partidos. Quando chegou a independência, muita gente não sabia que eram aqueles partidos que estavam a lutar na mata, só conheciam a UPA. As pessoas queriam uma independência e continuar a viver melhor, pelo menos que preservassem a vida. A independência veio como uma punição da inocência. 

Diz que o livro é um espelho da luta pelo poder em Angola. Nesses momentos de aceleração da História, usa-se a violência contra a qual antes se combateu – os mesmos mecanismos, repetição com outras figuras? Angola passou por períodos de violentação, em que ponto está agora?

O que nós aprendemos, quando estávamos a lutar contra o colonialismo ou tínhamos uma ideia de liberdade, mesmo que não estivéssemos na mata estávamos nas cidades, queríamos a liberdade. Pensávamos que o colonialismo estava errado, nunca ninguém pensou que a essência do poder é só uma: o autoritarismo e a autoridade. “Vamos acabar com o imposto!”, era uma ideia errada, temos sempre que nos submeter à autoridade, que às vezes é demasiada ou menor. Evolui, mas temos um Estado autoritário, um poder forte que é essencial para a manutenção da estabilidade política e social. Acontece isto em quase todos os países africanos neste momento, mesmo na Africa do Sul, veja-se os mineiros que foram mortos. Um Estado forte é necessário em África.

Refere-se a um Estado social para o bem comum ou ao poder?

O que analiso no livro é o alheamento entre os dirigentes e o povo humilde. Não existe comunhão de interesses nem diálogo, nem vontade de comunicar. No livro falo que o Nkuku apresentou uma proposta de ser ministro máximo no musseque. Existem pessoas que têm ideias que não são políticas, mais importantes, por exemplo como manter as ruas depois das chuvas?

Questões cívicas? 

Mas não se quer saber das ideias, principalmente vindas da juventude. Os bairros continuam degradados, as zungueiras estão nas ruas. Para mim a solução era criar condições no campo para voltarem para lá. Não temos onde expor as nossas ideias.

Nessa falta de comunicação, as pessoas acabam por organizar a sua vida de forma autónoma ou contam com o Estado?

Organizam-se, ou vão vender nas ruas, ou vão roubar e fazer coisas fora da lei, como puxar água e luz onde podem.

Há uma sociedade civil a crescer?

Sim, a consciência da sociedade civil aumenta mas não tem força por falta de espaço de diálogo. Você pode fazer uma manifestação, mas se eu não estou a ouvir? Nem sequer pego no caderno reivindicativo para analisar. Não adianta nada. O diálogo está a faltar. Até eu que estou a trabalhar para um organismo do Estado, escrevo para o jornal uma crónica a criticar o que está mal e não tem repercussão. Tinha uma coluna no Jornal de Angola, deixei de escrever, talvez ninguém lesse aquilo. A única vez que vi uma palavra ser aceite foi quando fiz uma crítica aberta e contundente à Sonangol: petróleo vai longe mas aqui dentro não há bombas de gasolina. Passado uns tempos começaram a aparecer bombas de gasolina, mas ainda há muitas dificuldades em abastecer.

 

 

O livro tem um lado informativo e didáctico. A literatura tem contado melhor a história de Angola do que outras ferramentas?

Não há um manual de História de Angola. Se houvesse podia terminar em 1945, Segunda Guerra Mundial, ou em 1961 para depois se resolver a questão dos partidos que ainda não se resolveu. A história da libertação não está bem esclarecida. O livro tenta esclarecer coisas que só quem as viveu as conhece. Após vários anos, as pessoas tentam santificar certas figuras e não se pode. O confronto dentro do partido do poder está a ser mais explicado agora. Havia lutas internas.

O 27 de Maio era o resultado de uma série de divisões internas anteriores?

Quando o Nkuku vai para a vida militar é antes da independência. Lá já era descriminado como pequeno-burguês. Já havia tendências separatistas antes da independência.

Ele ouve as notícias do 27 de Maio pela rádio e, pelo sim pelo não, vai queimar os livros do Nito Alves. Havia consciência do que estava em causa?

Ele não sabia o que aconteceu. O grande drama é que não só pessoas como o Nkuku que estiveram na vida militar, mas houve muitos civis que aderiram à ideologia da outra parte sem saber o que era aquilo, nem o que se estava a passar. E depois sofreram a repressão. O 27 de Maio tem de ser analisado como o antes da intentona e o pós-intentona. Se não for assim não se chega a lado nenhum. Houve alguma provocação antes do 27 de Maio, depois de ser vencida essa provocação a repressão levou muita gente inocente. Não sabiam que o movimento que tinha trazido a independência já transportava quezílias e dissensões internas. Todo o mundo achava que o MPLA era uma coisa unida quando não era. E os outros partidos também. É um grande drama na história de Angola.

Os jovens da OCA e da Revolta Activa já tinham sofrido repressões. Nos anos a seguir esses quadros que sobreviveram ficaram arredados da política?

Ao se afastarem também ficaram poucas vozes críticas lá dentro. Mas alguns estão a voltar com o Bloco Democrático.

 

 As contradições dos tempos

No livro aparece o Comité de Instrução Revolucionária. Quais as contradições entre as ideologias e a realidade em Angola, no discurso e na prática daquela época? Por exemplo, dizia-se que a classe operária é que ia governar mas não havia propriamente classe operária.

Sim, a ideologia em si era desfasada da realidade. O ser africano é muito místico, não temos religião, é próprio da cultura…

Como jogava isso com o materialismo dialéctico?

Pois, como se vai com o materialismo dialéctico para uma população que acredita no feitiço? E muitos soldados acreditavam. Um deles disse que eu tinha de levar um amuleto senão morria nos combates. Dizer que a matéria é a única coisa que existe, que não existe deus nem alma, é uma contradição para o que as pessoas acreditavam. Depois tivemos um conflito com a igreja. Depois era a abolição do comércio – num país que há 500 anos fazia comércio, de escravos, de borracha, não se podia pôr um anúncio no jornal para vender um carro. O socialismo é assim, o Estado tomou conta dos bares, dos hotéis, do comércio. E o comércio é a vida. Depois também se descriminava uma classe, os chamados pequeno-burgueses.

Não acha plausível que houvesse alguma relutância com as classes mais privilegiadas, se muitas já o eram no tempo colonial, enquanto assimilados?

Mas a maioria dos que criticavam também vinham dos assimilados. O chefe do CIRA era pequeno-burguês. A maior parte que chegava à frente do pelotão a dizer “abaixo os pequeno-burgueses” também viviam bem. Nos ficávamos a olhar parvos para aquela gente toda. Não entendia.

Viveu esses tempos com admiração e fervor revolucionário?

Sim, depois do 25 de Abril, quando chegaram os movimentos, nós íamos ao aeroporto, íamos a muitos comícios, todo o mundo estava numa euforia enorme. Acho que era infantilismo. Eu fui chamado para o MPLA mas os meus grandes cambas eram voluntários.

E quando e como começa a desilusão?

Quando começámos a ver as dificuldades para viver. Não havia comida, não havia uma cerveja, saía-se do quartel com calor para beber um fino tínhamos de comprar uma data de pratos de comida. As dificuldades eram do processo mas começamos a ver que a guerra não acabava. Pensávamos que ia acabar no ano seguinte e prolongou-se, pelos anos 80, pelos anos 90. Chegou a um ponto, no ano 2000, que vi que a guerra não ia mais acabar.  Então não fizemos projectos de vida, construir uma casa, projectos nas províncias. Em 1992, quando a guerra chegou a Luanda, piorou tudo. Quem tinha dinheiro investiu fora do país, quem pode mandou os filhos estudar fora. Quem não tinha ficava no país a aguentar aquilo tudo. Não tínhamos perspectiva de vida. Depois de 20 anos da independência não sabíamos o que íamos fazer. Estávamos a invejar os nossos amigos que estavam no Brasil ou em Portugal, a pensar “porque é que não fui como o meu primo?”

E o que sentiu em 2002 com o fim da guerra?

Um grande alívio. Finalmente podíamos começar a fazer projectos de vida e projectos sociais. Mas era preciso uma ordem. Como não havia, a ocupação de terrenos e de espaços económicos foi feita de forma anárquica e controlada por uma certa camada. Aí surgiu outra desilusão. Por exemplo, quem adquirisse um terreno para fazer a sua obra, era muito difícil legalizar. Você podia ficar muitos anos em que não sabia se ia passar por ali uma rua ou se iam fazer um projeto. Não houve ordem na configuração do espaço peri-urbano, fazerem as ruas. Aqueles bairros estão todos inclinados atravessados uma confusão. Só agora as pessoas podem fazer projectos. Depois surgiram gananciosos que começaram a roubar dinheiro. Há pessoas que hoje não têm casa pra morar, e uma delas sou eu porque paguei o dinheiro que ganhei na UNICEF a um senhor chamado José Ferreira Ramos, que depois foi para o Dubai e investiu o dinheiro não sei onde, conclusão não temos as casas há oito anos. Somos vários cidadãos da classe media, e o dinheiro é fruto do nosso trabalho. Com a idade que tenho não posso esperar mais para ter casa. Um empresário que não recebe os clientes, temos de recorrer à Justiça e a Justiça demora, o Estado devia intervir directamente para nos devolver o dinheiro, é um direito fundamental a habitação ainda mais com o dinheiro próprio. Não é só o povo que está a sofrer, somos também nós, os intelectuais, que conseguimos dinheiro com o nosso trabalho e vem alguém e rouba-nos. É inadmissível.

Tem tido uma voz interventiva na questão do património urbano. Que pensa sobre o modo como se está a transformar a cidade?

Os dirigentes querem criar uma cidade nova moderna, com muitos arranha-céus, mas onde fica a parte histórica? Há uma certa anarquia na construção. Não se resolveu o problema do plano urbanização da cidade, nem de outros como educação saúde. Falta concertação e explicação à população.

Neste livro divulga algumas ideias políticas e sociais para a cidade?

Expus todas as ideias sociais, politicas que vou escrevendo ao longo dos anos. Algumas delas já tinha publicado no Jornal de Angola, nomeadamente a sugestão de centrar o desenvolvimento na comunidade, a nível do município e não a nível central. África não se pode desenvolver enquanto continuar com a administração centralizada, tem que descentralizar para o nível do município e aí haver um micro-governo que resolva os problemas pequenos e que se deixe de políticas. Era preciso haver quadros à altura e cada círculo urbano criar o seu próprio plano de desenvolvimento, por exemplo no combate à pobreza. Um bom exemplo é a Pastoral da Criança que é um grupo da igreja católica que veio do Brasil, em que as irmãs vêm à civil e estão no Roque Santeiro e vão resolver o problema de nutrição infantil, da gravidez, da educação das crianças, etc, a resolver problemas que o Estado não consegue.

Mas não se incorre no erro de deixar que trabalhos das ONG e da igreja substituam a responsabilidade do Estado?

Mas se se pegasse nesse exemplo e ajudasse a crescer ia resolver o problema da subnutrição infantil, neste caso.  Pôr a população trabalhar para si própria.

A geração das incertezas

Durante os anos 80 e até ao fim da guerra houve alguma consciência crítica?

O país estava em guerra e essa gente tinha pequenos encontros. Por exemplo a revista Archote era uma tertúlia de jovens que eram da OCA, do partido comunista, que se reuniam para tertúlias culturais. Eu apareço convidado por uma moça que vivia em minha casa e publiquei lá. Só mais tarde é que vim a saber quem era o João faria, o Bonavena, o Vitória Pereira, que também estavam lá.

A geração seguinte à geração da independência? 

Na independência tínhamos cerca de 20 anos.

Em termos literários há quem vos chame a geração das incertezas, porquê?

Não sabíamos como escrever e contra quem escrever. Os outros sabiam que era contra o colonialismo.

Comparando as gerações, o que tinham em comum?

Era a desilusão total. O que podíamos dar ao país, foi na corda bamba e cada um foi-se formando. Acabámos por ter um percurso muito individual.

Nunca pensou afastar-se muito do país?

Não, vivi uns tempos em Paris mas a trabalhar para Angola. Um escritor sai do país e perde a criatividade. Tive uma bolsa para ir à União Soviética, à Bulgária nos anos 80, e disse que não queria. Não suporto o frio e não queria perder o contacto com o povo.

Como foi o seu trabalho na UNICEF?

Estou agora a tentar escrever os livros que não escrevi, não tinha tempo, trabalhava fora de horas. Foram 15 anos no registo casa, trabalho, províncias e viagens para fora do país. Falava muito inglês. Fez atrasar um pouco a minha vida, mas cresci também em termos de organização administrativa: fazer projectos, praticar inglês, falar com a imprensa estrangeira, mas isolou-me da vida cultural.  

Como se lembrou de instalar um “reino” na floresta da Ilha de Luanda?

A floresta da ilha é o sítio mais paradisíaco de Luanda. Quando era jovem era membro da Mocidade Portuguesa, tinha aquela farda, e fiz lá acampamentos. Dormi umas duas semanas. Era uma zona muito limpa, com as cigarras, as casuarinas – quando caem as folhas desta árvore fica um tapete bonito no chão. Passados 15 anos a floresta foi se degradando, foram cortando as árvores para fazer lenha, plantaram outro tipo de árvores mas já não tem nada a ver, tornou-se uma lixeira. Foi espoliada.

Uma nova sociedade 

E por outro lado o novo-riquismo da Ilha….

Sim, também degradaram por aí.  Aquilo é um símbolo ecológico e ambiental que se perdeu em toda a Luanda e talvez no país. Escolhi este cenário para as pessoas se lembrarem de que há outras coisas para além da política.

O reino vive de uma forma comunitária, com uma Constituição e regras próprias. Deu-lhe prazer projectar assim uma sociedade?

O que gostava era que realmente tivéssemos uma sociedade nova em Angola. Acho que todos queremos, até os que estão no poder a mandar.

Toda a gente se desiludiu?

Muito, e não sabemos como sair daqui.

Que sociedade seria a ideal?

É preciso o renascimento africano, que começa com a cultura, mas também com o social e económico. A palavra renascimento comparada com o Renascimento europeu passa por uma coisa: a não-alienação, a escolha de um modelo político próprio. Podíamos criar um modelo, ainda que tivesse laivos de capitalismo. Só pode existir se houver o diálogo entre os dirigentes e a população. O problema em Angola e em toda a África é que qualquer indivíduo que tenha um bocadinho de poder pensa logo em como adquirir riqueza.

Que valores colaboram mais com o desenvolvimento humano?

Uma pessoa que já tenha vivido no tempo colonial e depois da independência tem sempre termos de comparação. No tempo colonial alguém que estivesse a dirigir um município, havia uma fiscalização administrativa. Assim, tinha de fazer alguma coisa por aquele bairro. Hoje não há, então o indivíduo que está ali actualmente nem sequer sai do gabinete, não conhece as ruas.

Perde o contacto com a realidade?

Ele tinha de fazer algo pela comunidade. Não o fazendo é o próprio partido que está no poder que fica prejudicado.

Liberdade de expressão 

Consegue diferenciar a sua escrita jornalística da escrita literária ou interligam-se?

A literária tem um maior pendor artístico. Depois de ter escrito muito para jornais generalistas, sinto que agora que faço jornalismo cultural estou mais próximo do jornalismo literário. É o que espelha este livro. Tem aquele estilo rebuscado. Os dois géneros andam articulados.

 

Nas suas crónicas consegue falar com franqueza, ou sente alguma censura?

Mesmo quando estou a apresentar livros dos meus colegas falo à vontade. Os escritores em Angola sempre gozaram de alguma liberdade. Não houve escritores presos depois da independência, o Agostinho Neto decretou uma orientação que nenhum escritor pode ser preso, por isso é que Pepetela lançou o Mayombe. Então, mesmo ao falar e escrever as minhas crónicas eu sou livre. Claro que certos dirigentes não gostam de mim, dizem que é muito directo e tal, mas tenho a liberdade de o fazer. E penso que o partido também precisa dessas vozes críticas.

 

Dirige uma revista com ensaios e textos literários. No contexto de escassez de jornalismo cultural, a crítica ainda é pensada como algo destrutivo?

Foi deturpado o sentido da palavra crítica, até inimizades se criam por causa da crítica a um livro.

As pessoas não separam a pessoa da obra?

A pessoa nunca está afastada da obra. Mas se a obra é uma porcaria é uma porcaria. Por isso a crítica tem de avaliar a obra independentemente de quem a faz e das amizades. Ninguém critica um amigo. Mas quando se critica a obra de alguém desconhecido essa pessoa acha que se está a criticar ele próprio. Muitas vezes não é capaz de fazer uma obra melhor porque é preguiçosa, não lê, os jovens não leem, se criticamos um escritor jovem é um bico de obra, arranjamos um inimigo.

Mas consegue separar as águas no Cultura?

No Cultura saiu há pouco uma entrevista ao Manuel Rui na qual fala livremente. É um jornal de arte e cultura, aí estou bem instalado, convido quem quiser. E mesmo gente da oposição, o Jaca Jamba ou o Bonavena já escreveram.

As opiniões estão ainda muito partidarizadas?

Sim, tem de haver cidadania. Em vez de partidos o cidadão. O problema em África é a deficiência na administração e, para se ser cidadão, é precisa. Por sua vez, só será eficiente se for despartidarizada, quando os chefes não pertencerem ao “partido”.

 

Tem dado algum passo nesse sentido?

Há saída para Angola no combate à pobreza se estudarmos a teoria do direito administrativo e aplicarmos a Angola. Um dos aspectos é a fiscalização preventiva dos actos da administração pública.

 

Degradação do ensino

 

Dê exemplos de como fiscalizar.

Na escola a maior parte dos professores são corruptos, pedem dinheiro para passar os alunos. Mas ninguém cria inspeção escolar. Tornou-se de tal forma um círculo vicioso que era preciso perceber que tipo de pessoas podem fazer a fiscalização sem elas próprias caírem na corrupção. É preciso ouvir vozes que sugerem coisas como resolver o problema das zungueiras, da corrupção na escola. Também tenho dado algumas sugestões para resolver o problema da degradação da língua portuguesa. Com a formação dos professores primários. Senão, continua-se a chegar à universidade sem saber escrever.

 

Que nível têm os alunos?

O nível não tem nome. Não há nível. Tenho lido composições de alunos do terceiro ano da faculdade que nem eu na 2ª classe.

 

Como explica que o ensino se tenha degradado a esse ponto?

Pela falta de qualidade dos professores primários, pela corrupção na escola, pela falta de inspecção.

 

O livro é valorizado?

O livro agora é um inferno, ter um livro e lê-lo é como mandar alguém para a cadeia. Ler é um castigo. Os alunos não lêem nada, nem as matérias.

 

Não terá também a ver com a explosão da cultura mediática?

Também, mas acho o problema pior a falta de educação dos professores. Eu sugeri fazer um grupo de cidadãos angolanos para reciclar os professores. Ajudar na sua formação. Mas não tenho fórum que me ouça.

 

Entrevista publicada originalmente no Rede Angola.

por Marta Lança
Cara a cara | 19 Fevereiro 2018 | Administração, angola, Geração das incertezas, ilha, Independência, José Luís Mendonça, Literatura, No Reino das Casuarinas, utopia