Aida Gomes, escrever para se descobrir - 2

Ar de menina e de quem pensa muito sobre cada gesto da vida, do trabalho aos encontros. Um sorriso franco e uma pele dourada, olhar vivo mas também melancólico, a escritora Aida Gomes iniciou-se no mundo das letras. Nasceu no Huambo em 1967 (em Lundimbale), onde viveu até aos 8 anos, mas a sua identidade em construção levá-la-ia a muitos portos e influências. Em Portugal passa nove anos e na Holanda vinte cinco, dos quais cerca de catorze a residir em sete países diferentes, como Camboja, Moçambique, Suriname, Libéria, Sudão e Guiné-Bissau, onde mora actualmente. Crescer entre várias culturas fê-la também crescer emocionalmente, e em conhecimento, sentindo-se composta por todas estas parcelas: origem angolana, infância e adolescência entre Angola e Portugal, formação adulta na Holanda, experiências nas áreas de desenvolvimento e todas as vivências.

É socióloga de formação mas o seu sonho passa por um moinho, que já comprou, onde não se importava de ficar a escrever até ao fim da vida, porque “a escrita e a leitura sempre (lhe) proporcionaram o consolo de que necessitava tanto na tristeza como na alegria”. Aprendeu a ler aos quatro anos e quando não escrevia, lia, com o pai Dostoievsky, Balzac, Zola, Hemingway e Eça. A música sempre por perto, da clássica aos ritmos africanas, da pujança da música brasileira ao jazz. Encontrar a história dentro da história e polir as palavras pode ser um “processo lento e minucioso”. Para contar este processo Aida recorda quando trabalhou numa fábrica de móveis e ficava horas a polir uma cómoda: “o verniz era à base de óleos naturais. Havia um com base em óleo de casca de laranja. No fim passava a mão pelas gavetas e portas e era como se tocasse em veludo. O cheiro de madeira misturado com o perfume de laranja. Quando escrevo e reescrevo (e deito fora e recomeço) e me esqueço das horas, busco conseguir um pouco desse toque de veludo e odores nas palavras.”

Publicou em revistas e jornais e lançou em Portugal, em Fevereiro no Correntes de Escrita, o seu primeiro livro: Os Pretos de Pousaflores pela editora Leya. Por mais que nos pareça ouvir uma voz auto-biográfica é preciso clarificar que a família de Os Pretos de Pousaflores é inventada, explica-nos Aida Gomes por email, depois de um breve encontro em Bissau.

 

Fotografia de Marta JorgeFotografia de Marta Jorge 

A diversidade da língua portuguesa entusiasma

A avidez de perceber o mundo e a sua curiosidade fê-la experienciar outras culturas e formas de organização, convivendo com imagens, cores e pensamentos sempre mais amplos. Sabe que de África terá sempre um conhecimento limitado, pois “nos caminhos da curiosidade em saber, África é o caminho mais longo a percorrer.” E ainda continua à descoberta de um novo padrão nas cores dos panos ou do sabor novo de alguma fruta que “deslumbra pelo achado dos primeiros odores e paladares.”

No convívio com a diversidade da língua portuguesa, aprendeu essa maleabilidade e riqueza de sotaques do português. É que escrever entre várias culturas enriquece, pois “cada língua tem a sua própria ironia, humor e sentimento” mas é a língua portuguesa que mais a preenche e entusiasmou-se de novo com os clássicos das várias literaturas lusófonas, reaprendendo a língua e a sua melodia. “Escrevi uma vez em holandês sobre como numa torre de apartamentos numa cidade holandesa as vidas de um libanês, uma italiana, uma brasileira, uma holandesa e um tradutor do Turquemenistão, refugiado político na Holanda, a braços com o pesado esforço de traduzir a poesia de Lord Byron, do inglês para a sua língua, se cruzam na mesma noite. Queria perceber como indivíduos de várias origens se comunicam em holandês. Mas as palavras eram nesta língua, para mim, como tijolos e as frases eram construídas quase matematicamente, paredes e geometria.”

Os Pretos de Pousaflores proveio de uma necessidade muito forte de escrever em português, sua língua. Então pegou numa história antiga, de quando tinha vinte anos, sobre Angola, e Portugal, as pontes que ancoravam a sua vida e das quais sentia saber pouco. Nem sequer tinha família a justificar a ligação a estes países: cresceu sem mãe e o pai faleceu quando ela tinha dezoito anos. Vivia na Holanda e ia trabalhando para onde o mundo a chamasse. Então esforçou-se para que a sua imaginação a levasse a encontrar a família que sempre imaginou e recriar lugares onde angolanos e portugueses falassem uns com os outros, com insultos se necessário, cruzando “a parte racional e a subjectiva, a ironia e a poesia; o olhar africano com o olhar europeu”. É um livro a descobrir.

Hoje em dia Aida Gomes trabalha na Guiné Bissau no contexto de missões de paz da ONU, é um país com muitas dificuldades mas o mais positivo dos seus dias passa pela “generosidade, humildade e a bênção do sorriso guineense, apesar de tantos avanços e recuos.”

 

ler a primeira parte desta conversa aqui 

Fotografia de Marta JorgeFotografia de Marta Jorge

por Marta Lança
Cara a cara | 4 Março 2011 | Aida Gomes, língua portuguesa, Literatura