Luta ca caba inda: do arquivo ao fragmento

No princípio foi um gesto. No auge da luta de libertação, o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) decidiu enviar para Cuba um conjunto de jovens para se formarem profissionalmente. Dos 25 jovens chegados em 1967, quatro deles – Flora Gomes, Sana na N’Hada, Josefina Lopes Crato e José Bolama Cobumba – iriam estudar cinema, sendo-lhes endossada a posterior tarefa de filmar a luta. Uma luta, na verdade, que era já objeto de atenção militante e que vinha servindo de pano de fundo a vários documentários, de que o mais famoso à época terá sido Labanta Negro! (Piero Nelli, 1966). A Amílcar Cabral não passara despercebida a importância das imagens na construção da futura nação1. É aliás sintomático que, meses depois do seu assassinato, a cerimónia da declaração unilateral de independência, a 24 de Setembro de 1973, tenha sido antecedida, na véspera, da projeção do documento filmado por Flora Gomes aquando do II Congresso do PAIGC, ocorrido entre 18 e 22 de Julho nas regiões libertadas do leste da Guiné.

Spell Reel | 2017 | Filipa CésarSpell Reel | 2017 | Filipa César

Parte do material filmado nas décadas de 1970 e 1980 encontrava-se depositado no INCA (Instituto Nacional para o Cinema e o Audiovisual), criado em 1977 em Bissau. Uma “aliança” que veio a conectar artistas, cineastas e investigadores europeus e guineenses, e que tem a artista e cineasta Filipa César (n. 1975) no epicentro, tem permitido salvar essa memória fílmica do país, através de um processo de digitalização e tratamento levado a cabo em Berlim nos últimos anos. Alguns desses documentos têm sido objeto deapresentações em vários locais do mundo; circulado em regime de itinerância em zonas da Guiné onde foram registados; e alimentado a filmografia experimental e (auto)reflexiva de Filipa César, que teve em Spell Reel (2017) um dos seus últimos passos.
Este trabalho colaborativo de localização, digitalização, divulgação e recomposição recebeu o nome de Luta ca caba inda (A luta ainda não acabou), apropriando-se do título de um inacabado projeto que se iniciara no INCA, em 1980, visando registar o país seis anos depois da independência. A mesma expressão dá também título a um livro – Luta ca caba inda: time place matter voice. 1967-2017 (Archive Books, 2017) – que se ancora neste processo. Aqui se cruzam diálogos e comentários de diferentes protagonistas (feitos entre 2010 e 2017) com o registo de documentos visuais – boa parte deles nunca terminados ou exibidos publicamente – sobre luta e o processo posterior de construção da nação.
O livro condensa alguns aspetos relevantes do projeto. Ao não ter registo explícito de autoria, aponta para a natureza colaborativa deste trabalho de resgate e releitura. Mais: acaba por sugerir a forma como esta documentação viva permite problematizar a própria noção de autoria enquanto gesto soberano que conservaria a autoridade de determinar a exposição (ou ocultação) das imagens, guiar interpretações e conferir sentidos. Na capa, um excerto de Sana na N’Hada traduz isso liminarmente:
“A certa altura, parece que entramos em competição direta com aquelas coisas maliciosas em que as suas imagens se tornaram quando apresentadas num contexto diferente! (…) o facto de, desde o início, não se ter tido intervenção pode tornar-se bastante louvável: o autor da imagem torna-se o seu dono, apesar de si próprio. A imagem ganha uma nova vida, um novo destino, com ou sem nós. Ultrapassa a nossa tutela”2.
Por outro lado, é um livro composto de fragmentos: excertos testemunhais, fotogramas, registos de filmes inacabados, reportagens e capas de livros sobre a luta. Esta ideia de fragmento remete para a precariedade de um arquivo que, sujeito a um conjunto de vicissitudes históricas e à própria corrosividade que o tempo instaura, se assemelharia mais a um conjunto de estilhaços [“assemblage of shrapnel”] (Filipa César, p. 166). Em termos materiais, os registos recuperados (e os não recuperados) são por isso resíduos do presente, mas condensam, de igual modo, imagens de um passado por cumprir. Por outras palavras, instituem um peculiar regime de historicidade em que passado, presente e futuro colapsam em função da própria natureza incompleta e instável do arquivo. Composto por imagens e sons, assim como por rasuras e silêncios, a documentação visual abre espaço a uma trama que contempla representações, tempos históricos e trajetos biográficos e os reenquadra a posteriori. 

Como já acentuou Paulo Cunha, o trabalho de Filipa César mostra como o cinema na Guiné-Bissau sintetiza o vestígio arqueológico, o documento escrito e a memória subjectiva. Este livro traz-nos, pois, o registo escrito de um processo de resgate e releitura de um tempo que surge vivo na exata medida em que a sua dimensão de ruína envolve o cuidado para que se recuperem os fragmentos existentes e, simultaneamente, um exercício hermenêutico que os torna visíveis e contemporâneos.
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Artigo produzido no âmbito do projeto de investigação MEMOIRS Filhos de Império e Pós memórias Europeias, financiado pelo Conselho Europeu.

 

  • 1. Para uma visão panorâmica sobre o cinema na Guiné-Bissau e o seu papel na construção da nação, cf., entre outros: Paulo Cunha e Catarina Laranjeiro (2017), “Guiné-Bissau: do cinema de Estado ao cinema fora do Estado”, Rebeca - Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual 5, 2: 1-23.
  • 2. “At a given moment one seems to be in direct competition with those mischievous things that your images have become in a different context! (…) the fact that since the beginning one hasn’t had agency can become quite commendable: the author of the image becomes its owner despite him/herself. The image gives itself a new life, a new destiny, with or without us. It overcomes our guardianship”.

por Miguel Cardina
Afroscreen | 13 Janeiro 2019 | arquivo, Filipa César, Guiné Bissau, Memoirs