Cenas da memória colonial: a decadência e as ruínas de Macau

The Bedroom in English | 2015 | Tatiana Macedo (cortesia da artista)The Bedroom in English | 2015 | Tatiana Macedo (cortesia da artista)

A decadência não é só uma forma própria de uma certa vertente da modernidade. É também um modo de lançar um olhar retrospetivo em relação a um passado carregado e condicionador: as inapagáveis tintas da decadência, a que Frantz Fanon se refere no contexto colonial da guerra da Argélia. A decadência assume assim a forma de uma relação tensa entre presente e passado. E pode também ser inscrita dentro de uma dinâmica de transmissão do passado, onde a memória vivencial que se pretende transmitir sofre uma alteração, uma reformulação profunda, degrada-se e, de algum modo, perde força de representação: a identidade impossível com um passado escoado e próximo da extinção.

Uma cena dominada por uma decadência profunda é Macau assumida como pano de fundo de um filme, belo e complexo, Hotel Império[fn]O filme é de 2018, com distribuição nas salas em Portugal em Maio de 2019. de um diretor particularmente sensível aos temas da memória problemática do colonialismo português, Ivo M. Ferreira, realizador de Cartas da guerra, de 2016. O filme, coproduzido por Portugal e pela China, encena um conflito agudo entre temporalidades, culturas, espaços e línguas onde a idealização de uma interculturalidade chino-portuguesa, devida ao profundo convívio das duas culturas, esboroa-se de vez. Mas o filme expõe, sobretudo, um conflito surdo entre gerações que coexistem em planos autónomos e irredutíveis.
O que está em jogo é o destino – seria impróprio falar de futuro – de um hotel decrépito de propriedade de um português idoso e doente, cujos clientes são, na verdade, moradores marginalizados da cidade. A protagonista é a filha do dono, Maria, que não poupa esforços para tentar salvar os restos da estrutura, o resíduo controverso e familiar do passado, inclusive pondo-se ela própria à venda. O hotel situa-se na parte chinesa da cidade e recorta um microcosmo social que se configura através de uma atenta direção de luzes e sombras, com uma predominância noturna, pelas conotações de um mundo popular revelado por detalhes e seriamente ameaçado de ser engolido pela especulação imobiliária.
O que é interessante a partir do nome próprio do hotel – Império – é evidenciar a alegoria que se insinua entre a ideia do passado colonial de Portugal (que na Ásia chegou a construir um império, precoce e efémero) e o presente representado pelas ruínas de um edifício imperial improvável, próximo de ruir. O jogo de pormenores alegóricos disseminados pelas imagens é significativo: o quarto do pai, Gustavo, tem o retrato de Camões, uma viola portuguesa largada num canto, Maria canta o fado no célebre casino flutuante. São essas as evidências – talvez estereotipadas, mas pulsantes – da emersão de uma alegoria histórica do hotel/Portugal ambos afundados num presente problemático não só no plano material mas, sobretudo, no plano das ideias: uma ideia anacrónica. E as alegorias, como defende Walter Benjamin no volume sobre os Trauerspiels, representam no discurso, no reino do pensamento, o que as ruínas são no plano material.
A decadência afeta ao mesmo tempo o mundo dos objetos mas atinge também um universo de ideias e narrativas sobre o passado. O detonador do enredo e da sobrecarga decadente que carateriza o filme é um recuo simbólico para o passado proporcionado por uma figura enigmática e misturada: Chu, chinês e português, obcecado por Maria e pelo hotel. Na verdade, trata-se de um regresso, e o tempo em que ocorre o retorno é, por sua vez, simbólico: ocorre exatamente 20 anos depois do tempo do fim da soberania oficial portuguesa no território chinês de Macau.
Chu, que reúne traços ao mesmo tempo de alteridade e familiaridade, de próprio e impróprio, sendo na verdade o meio-irmão de Maria, regressa para reivindicar a sua metade do Império. Numa cena central que levou à imprópria classificação do filme como “thriller erótico” – a humilhação pela exposição e a oferta do corpo da irmã – emerge um traço constitutivo da obra que se traduz no uso pelo autor de citações literárias ou culturais. No presente caso trata-se de uma referência a uma situação de certo modo associável, representada no romance Campo de sangue de Dulce Maria Cardoso. Também as ressonâncias mitológicas – a evocação do mito clássico, dos irmãos iguais e diferentes, como os Dióscuros Castor e Pólux, gémeos mas concebidos por pais diferentes – acrescentam espessura à trama intertextual e tragicidade. Um certo ar trágico aliás, perpassa toda a estrutura do filme.
O que no entanto é importante salientar é como o filme Hotel Império define uma obturação problemática e irredutível da transmissão da memória intergeracional no contexto da decadência. No filme, a metáfora convencional da herança é dissecada para mostrar o seu lado substancialmente encoberto e subjetivo, o que corresponde à atitude diferenciada de quem como herdeiro é chamado a receber o património (neste caso negativo) que vem do passado. A mesma herança – a do Hotel Império – produz de facto duas reações opostas e contraditórias: por um lado, implica a decisão de continuar na linha do legado familiar (o caso de Maria); por outro lado, exibe a vontade de destruir a mesma linha hereditária com uma brutal damnatio memoriae, que implica uma vingança pelo avesso, da nova geração (Chu) em relação à mais velha.
No âmago da contradição, ambas constituem, no polimorfismo semântico da memória projetada de uma geração para outra, uma efetivação diferencial das memórias recebidas da geração anterior. Trata-se de um conflito, próprio de um tempo de decadência, que não só não se resolve como fica exposto e é exibido até depois do desenlace (pessimista), sobre o futuro controverso e incerto dos restos da memória familiar.
O que resta do Hotel Império, além de uma alegoria asiática com referência a Portugal? Não só um aglomerado de ruínas de um edifício que evoca a memória de um esplendor antigo e agora desbotado, que sobrevive só residualmente, mais como imagem estética do que como um fato documentável e reconhecido. Sobrevivem fantasmas assombrados de uma casa nunca inteiramente própria, mais imaginada do que real, que em Macau, hoje, disputa o seu futuro precário num debate iníquo de uma modernização sem alma e esmagadora. As condições ideais, em suma, para abrir o espaço definitivo a uma nostalgia pungente e inexorável que se torna assim o que está unicamente destinado a restar.

 

memoirs.ces.uc.pt  Artigo produzido no âmbito do projeto de investigação MEMOIRS– Filhos de Império e Pós memórias Europeias, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (nº648624), Programa Europeu para a Investigação e Inovação.

por Roberto Vecchi
Afroscreen | 6 Julho 2019 | Hotel Império, Macau