“Catembe” ou queixa da alma jovem censurada

Filmado em 1965, “Catembe” é um documentário de ficção realizado por Manuel Faria de Almeida sobre o quotidiano de Lourenço Marques. O transgressor da obra foi ter sido a primeira interpretação crítica da realidade colonial portuguesa. Após a censura da obra original – com 103 cortes e destruição da parte censurada - a segunda versão foi proibida. Dos seus 2400 metros originais restou metade pelo que figurou no Guinness Book of Records como o filme alvo de mais cortes por parte da censura na história do cinema. Filme inexistente no memorial fílmico do colonialismo português, foi projectado duas vezes após o fim da ditadura.

Catembe - 7 dias em Lourenço MarquesCatembe - 7 dias em Lourenço Marques

Maria do Carmo Piçarra: Como é que um realizador promissor lida com uma experiência de censura brutal, como foi o caso de “Catembe”?
Faria de Almeida: Uma pessoa fica desmoralizada, azeda. Se o filme tivésse saído naturalmente, depois teria agarrado outro filme e mais e tinha continuado. Como não foi assim, acabou-se em termos de cinema de fundo.

MCP: É a morte do autor antes da revelação plena?
FA: Com o tempo fiz documentários. Fui vivendo disso.

MCP: Fale-me um pouco do Faria de Almeida cineclubista e depois estudante de cinema. Como surgiu a ideia de ir estudar para fora? Que condições lhe foram colocadas pelo Fundo do Cinema?
FA: Fui um dos sócios fundadores do cine-clube de Lourenço Marques. Tinhamos a sorte da censura em Lourenço Marques ser muito boa… Passámos “O Couraçado Potemkine”, “A Mãe”, em pleno Salazarismo. Em 58, 59. Comecei a fazer filmes de amador e às tantas a gente quer saber se aquilo vale alguma coisa ou não. Tinha três ou quatro filmes e enviei-os para festivais cá em Portugal. E, espantosamente, os filmes ganhavam o primeiro prémio, o segundo prémio…

MCP: Eram filmes documentais?
FA: Documentais, sim. E, entretanto, foi a Lourenço Marques um grande amigo e entusiasmou-se com a minha vontade de ser alguma coisa mais do que só amador. Em Portugal mexeu-se para ver se conseguia que eu tivésse uma bolsa de estudos para estudar e fazer cinema.

MCP: Estamos em que altura? Final dos anos 50?
FA: Estamos em 60, 61. Parece que é 60.

MCP: Já o César Moreira Baptista estava à frente do Secretariado Nacional da Informação (SNI) e iniciara a política de dar bolsas para formar…
FA: Para formar gente nova. A escola de Londres aceitou-me. Fui a seguir ao Fernando Lopes de que eles tinham gostado bastante. Éramos três portugueses no curso. Um não tinha apoio de ninguém e outro tinha apoio da Gulbenkian. Eu tinha a bolsa do SNI…

MCP: Com condições…
FA: Tinha de estar pelo menos três anos em Portugal, depois da bolsa…

MCP: Quanto tempo demorou a formação em Inglaterra?
FA: Dois anos.

MCP: Fez duas curtas metragens…
FA: “Os Caminhos para a Angústia”, que nunca mostrei à censura, porque senão era banido. Era sobre um preto sul-africano e as matanças em 1, durante o apartheid. Foi o tal que a escola mandou para Amesterdão, onde ganhou. Depois, no segundo ano, fiz um que se chama “Viviana” e também tinha a música do “Angola é nossa”.

MCP: Também uma curta-metragem?
FA: Mas com história. Estupidamente pedi para me enviarem o negativo e remontei aquilo para ver se lhe tirava uma coisa com um padre, uma coisa do “Angola é nossa”, enfim, umas coisas assim… Refiz aquilo e perdeu a alma. Apesar disso ainda tentei que passasse. Foi à censura e a censura proibiu-o.

MCP: Que sucedeu a estes filmes? Estão depositados na Cinemateca?
FA:  Não. Esse “Viviana” não está na Cinemateca. Tenho-o arrumado num sítio qualquer. Não gosto do filme como ficou e gostava dele como estava antes. “O Caminho para a Angústia” também o tenho guardado. Aliás esse tal senhor que me ajudou a ter a bolsa… Mostrei-lhe o filme, em 16mm, lá em casa e disse que aquilo era muito para a esquerda. Aconselhou-me a que não mostrasse o filme.

MCP: O Faria de Almeida, na sequência do curso, teve um convite para os EUA?
FA: Não, foi para trabalhar com o Tony Richardson, em Inglaterra. Ah, e foi para trabalhar para as Nações Unidas.

MCP: Não pôde aceitar porque tinha de cumprir a obrigação com o SNI…
FA: De estar três anos em Portugal.

MCP: Ainda estagiou em França…
FA: Foi no IDHEC. Estavam lá o Alfredo Tropa e a Teresa Olga, ele no curso de realizador e ela no de anotadora. Estavam no último ano e eu estive nos últimos seis meses desse curso. O meu interesse era trabalhar na cinemateca para mexer nos filmes, nas fichas e também aprender mais alguma coisa.

MCP: Enquanto esteve em França, o António da Cunha Telles diligenciou no sentido de conseguir o apoio do Fundo do Cinema ao “Catembe”. Como e quando lhe surgiu a ideia para o filme? E o que o inspirou quanto ao uso do Cinema Directo?
FA: Nesse tempo, em  Inglaterra, o Cinema Directo aparecia e via-se o Dziga Vertov.  O Fernando Lopes acaba por fazer o “Belarmino” em Cinema Directo. Não sei… Eu gostava muito do Alain Resnais, do Chris Marker e da Agnès Varda.  O “Clio de 5 a 7”, contra a Guerra da Argélia.

MCP: E o “Catembe”, como vai tomando forma? É em Paris?
FA: Talvez,  não tenho ideia.

MCP: Nesse período o SNI estimula a realização de filmes que promovam as “províncias  ultramarinas” na metrópole…
FA: Aí é importante o Cunha Telles, que tinha ocupado um lugar de chefia na Mocidade Portuguesa… Inspirava uma certa confiança ao regime. Se era ele a propôr um filme sobre Lourenço Marques, por um realizador de Lourenço Marques e que tinha sido bolseiro do Fundo, parecia tudo muito bem.

MCP: A rodagem do “Catembe” dura quanto tempo?
FA: Quinze dias, três semanas.

MCP: Quando estava a filmar o “Catembe” sentia que aquilo ia correr tudo bem? Estava entusiasmado?
FA: Entusiasmado estava e acho que estava a correr bem. Havia pouco dinheiro, foi tudo feito com o mínimo dispêndio. Não se repete coisa nenhuma.

MCP: Porque optou por montar fotografias e sons quando filma o almoço e a sesta dos brancos, no primeiro Domingo?
FA: Penso que foi por uma questão económica. Não tenho a certeza. Ouve-se o homem a comer e, depois do caril, a soneca.

MCP: Catembe é a outra margem de Maputo. No filme original também era uma rapariga. Na versão censurada, ela quase desaparece. Surge em três ou quatro sequências desarticuladas entre si, sem sentido claro no filme. A história ficcional, da Catembe, foi completamente cortada…
FA: Completamente. Os bares – o Luso – isso foi tudo cortado…

MCP: O que é a Catembe significava para si?
FA: Essa é boa. Que pergunta levada da breca… Não sei.

MCP: Em que altura fica ciente de que o filme não vai mesmo poder ser visto?
FA: É quando chega o segundo papel da censura a dizer que não convém a sua exibição. Acabou. Peguei no filme e mandei-o para a cinemateca.

MCP: Para o catálogo do ciclo de “Cinema Novo” que a Cinemateca organizou nos anos 80, pediu-se aos cineastas do movimento que escolhessem os dez filmes portugueses mais importantes. Colocou o “Catembe” na sua lista. Por causa do significado simbólico?
FA: Talvez. Já não me lembro dessa lista mas acho que sim. É importante não esquecer.

MCP: O “Catembe” deve ser visto?
FA: Esta versão, apesar de ser curta, ainda tem muito interesse. Quando o Dr. Félix Ribeiro estava à frente da cinemateca exibiu o “Catembe”. No telejornal do dia anterior, o Carlos Pinto Coelho perguntou-lhe qualquer coisa sobre o “Catembe” e, como as pessoas ficaram a saber que o filme ia ser mostrado, a Cinemateca…

MCP: Encheu?
FA: Completamente. O Dr. Félix Ribeiro deixou as pessoas entrar para as coxias, ficou tudo sentado no chão.

MCP: No final da sessão houve alguma conversa?
FA: Estava lá para isso. Mas não puxei pela conversa. Fiquei não sei como, por ver o filme, por sentir que as pessoas gostaram. Tanta gente, tanta gente… Fiquei assim um bocado aparvalhado. Não puxei eu pela conversa. Estava cá atrás…

MCP: Sentiu que as pessoas gostaram?
FA: Sim, e mais. Quando estava em Macau (na RTP), soube que o Dr. Félix Ribeiro tinha passado outra vez o filme na cinemateca e a minha filha, que estava cá a acabar o curso de agronomia, foi e disse-me que tinha corrido bem. Foi em 1984.

MCP: Sente que por causa desta história acabou por não desabrochar como autor de cinema de ficção?
FA: É capaz de ter sido. Não se sabe.

 

Projecto Chão

Faria de Almeida (Manuel) (Lourenço Marques, 1934)

Diplomou-se em 1963 em Cinema na London Film School (antiga London School of Film Technique), com especialização em Realização, Montagem e Argumento. Como filme de curso realiza “Streets of Early Sorrow”(1963), com o qual ganhou o 1º prémio do Festival Cinestud de Amsterdão. Estagiou em diversos estúdios ingleses, nas televisões ATV e ITN e foi ainda assistente não executivo nos estúdios de Shepperton onde acompanha, entre outras, as filmagens de “Dr. Strangelove” de Stanley Kubrik. Estagia igualmente no Institute des Hautes Études Cinematographiques em Paris. Após o curso, e apesar dos convites para trabalhar nos E.U.A. com Tony Richardson e na Film Unit da Organização das Nações Unidas, regressa a Portugal por imposição das condições da sua bolsa de estudos. Foi presidente da Tobis Portuguesa de 1974 a 1976 e do Instituto Português de Cinema de 1976 a 77. Em 1977 entrou para o Centro de Formação da Rádio Televisão Portuguesa, que chefiou entre 1979 e 1982. De 1983 a 1985, colaborou na criação da Rádio Televisão de Macau, onde foi director de Programas e Formação. Após o período em Macau, regressou a Lisboa e à RTP para o lançamento da Europa TV – Portugal, onde trabalhou ainda na Direcção de Programas, na Direcção de Cooperação e no lançamento da RTP Internacional. Foi igualmente membro dos juris dos festivais de Valladolid e Santarém e publicou diversos livros, entre outros, “A Técnica do Cinema” (1970), “Cinema Documental” (1982) e “Cinema e Televisão – Princípios Básicos” (1989 e 1991). Da sua filmografia, dedicada sobretudo ao documentário, destaca-se “Catembe” (1965), “Faça Segundo a Arte”(1965), “Moçambique 65”(1965), “Para um Álbum de Lisboa”(1966), “Portugal Desconhecido”(1969), “Vida e Obra de Ferreira de Castro”(1971), “O Regresso”(1988) e “Aurélio da Paz dos Reis – Um Olhar Actual”(1995).

  • 1. O Massacre de Sharpeville aconteceu em 21 de Março de 1960, quando a polícia sul-africana disparou contra uma multidão de negros em protesto.

por Maria do Carmo Piçarra
Afroscreen | 16 Maio 2010 | censura, cinema, moçambique