E quão livres são os imigrantes?

E quão livres são os imigrantes? Redescobrimos no século XXI em Lisboa a cidade cosmopolita, desaparecido durante a maior parte do século XX. Somos morenos, somos louros, somos negros, somos mulatos, somos asiáticos, somos sul-americanos, somos de muitas nacionalidades, somos europeus, somos portugueses. Somos cada vez mais pessoas crescendo com diferentes coordenadas. Um em cada oito bebés que nascem no país tem pelo menos um dos pais estrangeiro. Falar sobre diversidade não é moda; é o nosso futuro. Este é um debate sobre “migração”, “discriminação”, “integração”, entre jovens para os quais estas palavras são o quotidiano.

15.06.2011 | por Susana Moreira Marques

Viagens da teoria antes do pós-colonial

Viagens da teoria antes do pós-colonial Os textos aqui publicados apontam para um modo alternativo de utilizar a diferença, na medida em que sublinham outros momentos distintivos, anti-coloniais, face a discursos legitimadores – na pós-colonialidade – de processos de interdependência inevitável, embora geradores de desigualdades económicas, sociais, políticas e raciais. Nesse sentido, os actuais debates em torno do multiculturalismo, da interculturalidade ou da hibridização/mestiçagem não transcendem, em parte, as premissas que enformaram os discursos coloniais e as reacções – anti-coloniais – a estes.

29.05.2011 | por Manuela Ribeiro Sanches

Nos Campos da Rebeldia

Nos Campos da Rebeldia "Disidentes, rebeldes insurgentes. Resistência indígena y negra em América Latina. Ensayos de historia testimonial" é sobre a rebelião contra o sistema instaurado por Espanha e Portugal no continente americano, firmado na servidão das populações autóctones – transformadas em índios – e na escravidão dos negros importados da África. O conceito central é a rebeldia; a dissidência remete a um antes da rebeldia aberta ou a uma rebeldia em estado latente; enquanto a insurgência, o estado supremo da rebeldia, remete para as suas manifestações mais radicais.

20.05.2011 | por Jeferson Bacelar

Julgamentos de feitiçaria, hegemonias locais e relativismos

Julgamentos de feitiçaria, hegemonias locais e relativismos Dizer que existe prática de feitiçaria em Moçambique é a mera constatação de um facto evidente e recorrente, quer o recurso a ela tenha em vista provocar efeitos activos ou proteger-se deles, seja para fins considerados legítimos ou ilegítimos, benéficos ou malévolos. A questão da eventual eficácia dessa prática já tenderá a dividir os leitores, entre um cepticismo assumido, atitudes de dúvida plausível, elaborados discursos acerca de eficácia simbólica e um receio ou concordância mais ou menos envergonhados.

18.05.2011 | por Paulo Granjo

As Milongas da Rainha Njinga

As Milongas da Rainha Njinga O «diálogo» entre portugueses e africanos nas guerras do Congo e de Angola (séculos XVI-XVII). A motivação principal para os portugueses iniciarem seus contactos com as populações da África central foi, oficialmente, a conversão dos reis autóctones ao cristianismo. De facto, a evangelização das populações autóctones fazia parte das condições impostas pelo Papa às potências ibéricas quando repartiu o «mundo» entre eles (Tratado de Tordesilhas: 1494). Ora, uma leitura mesmo superficial dos relatórios portugueses da conquista da Área Congo-Angola demonstra que as preocupações que ocupavam realmente a atenção dos conquistadores eram bem diferentes. Nos matos e nas savanas de Angola desenvolveu-se uma guerra permanente entre os portugueses, ávidos de conseguir o maior número possível de peças para a exportação, e os «reis» ou senhores autóctones, que procuravam, embora de maneira amiúde contraditória, defender a sua soberania e também, às vezes, a sua própria posição no comércio escravista.

16.05.2011 | por Martín Lienhard

O mundo é uma tribo - 'Africa Remix' revisitada

O mundo é uma tribo - 'Africa Remix' revisitada 'Africa Remix' configura 'uma geografia que privilegia as conexões da África com a Europa e os EUA, reforçando a centralidade dessas regiões e a dependência africana. Por um lado, parece não ter havido interesse em saber se e como a constituição desse campo contou com esforços na América Latina, na Oceania e no Oriente; uma vez mais, um mapa feito pelo e para o Ocidente, que se dispõe a olhar o outro para nele se ver. Por outro lado, é preciso reconhecer que certas nações européias e os EUA continuam sendo os pólos dinamizadores do sistema de arte internacional, por onde passa e se pensa a produção artística com pretensões mundiais'... 'Alguém quer ver a África aqui?'

11.05.2011 | por Roberto Conduru

O Projecto Crioulo - Cabo Verde, colonialismo e crioulidade (Parte IV)

O Projecto Crioulo - Cabo Verde, colonialismo e crioulidade (Parte IV) Hall deslocou-se de uma posição de radical negro para o campo do híbrido, não existe um sujeito negro inocente que possa usar a etnicidade como uma força de resistência legítima, e o racismo é uma força ambivalente porque atravessada por posições de género, etnicidade e desejos especulares. Gilroy desafia tanto o essencialismo (por exemplo, as reivindicações de autenticidade dos afrocentrismos) quanto o anti-essencialismo que vê a negritude como uma construção; a sua alternativa é a contemplação de um Atlântico Negro como uma contracultura hibridizadora. Bhabha vê o nacionalismo como algo que nunca é homogéneo ou unitário, e localiza a agência no acto de enunciação interruptiva (interruptive enunciation) de Derrida, focando na intersticialidade das identidades criadas nos confrontos coloniais.

08.05.2011 | por Miguel Vale de Almeida

O Projecto Crioulo - Cabo Verde, colonialismo e crioulidade (Parte II e III)

O Projecto Crioulo - Cabo Verde, colonialismo e crioulidade (Parte II e III) A crioulização tem claramente a sua base no estudo do complexo Afro-Americano e nas sociedades de plantação das Caraíbas, talvez apenas com ramificação para o Brasil como instância comparativa. Na sua review da antropologia da Afro-América Latina e Caraíbas, Yelvington (2001) diz que a actual preocupação antropológica com os processos de globalização, dispersão, migração e transnacionalidade, com o colonialismo, o hibridismo, etc., elide muitas vezes a produção fundacional que remete para os estudos da diáspora africana nas Américas.

06.05.2011 | por Miguel Vale de Almeida

O Projecto Crioulo - Cabo Verde, colonialismo e crioulidade (Parte I)

O Projecto Crioulo - Cabo Verde, colonialismo e crioulidade (Parte I) Escravatura ou liberdade, homogeneidade cultural europeia e diversidade africana, desequilíbrios de género, criação de grupos intermediários são, pois, determinantes. Para Mintz e Price, o conceito de “crioulização” surgiu como um útil substituto de “aculturação” e “assimilação”, pois descreve uma expressão sincrética que leva ao surgimento de novas formas culturais, tal como no passado aconteceu na Europa.

06.05.2011 | por Miguel Vale de Almeida

Os lugares da juventude no contexto urbano de Cabo Verde

Os lugares da juventude no contexto urbano de Cabo Verde Corpo, consumo, sexualidade, expressividade, festividade, colectividade, informalidade e ilegalidade serão assim analisados como os lugares centrais dos novos desafios, negociações, inovações e afirmações dos jovens contemporâneos de Cabo Verde, das suas formas de estar no mundo.

30.04.2011 | por Filipe Martins

"Terceira Metade": Novos horizontes – Arte africana contemporânea e política pós-colonial

"Terceira Metade": Novos horizontes – Arte africana contemporânea e política pós-colonial A pós-independência na África é um espaço de ambivalência, em que as aspirações de seu povo vão, frequentemente, em oposição a seus líderes e às influências externas. Sua riqueza é aleijada pelo controle financeiro ocidental que visa uso próprio dos recursos do continente. Nos últimos anos, o rápido crescimento da influência econômica da China sobre a África se tornou mais um aviso do novo agente fomentado pela globalização e da resultante expansão política e econômica. Ainda não há indícios de uma mudança, onde os tentáculos dessas influências alcançam cada vez mais áreas afetadas por conflitos e governos fracos. Neste conflito terreno, nós devemos carregar conosco as palavras de Walter Benjamin “A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de emergência’ em que nós vivemos não é uma exceção, mas sim uma regra.”

25.04.2011 | por Stina Edblom

Moçambique: Infectados e afectados: as crianças que a SIDA deixou

Moçambique: Infectados e afectados: as crianças que a SIDA deixou A epidemia que mais mata no mundo roubou-lhes os pais, deixando-as entregues a si próprias ou ao cuidado de terceiros. Lutam contra o estigma, discriminação, desapropriação de bens, maus tratos físicos e psicológicos, abusos sexuais, trabalho forçado, abandono escolar e gravidez precoce. Enfrentam a doença e a morte. São apenas crianças – mas há as que se erguem dos escombros para quebrar o ciclo da desesperança. Para essas, SIDA rima com Vida.

19.04.2011 | por Cristiana Pereira

Figuras d'Mindel – Djunga Fotógrafo

Figuras d'Mindel – Djunga Fotógrafo Nunca português de Lisboa ranjou tante nota na nôs terra cma agora! Agora que estou a ver pamode quês gente de Angola tem quês português tromentode. Senhor Salazar, quel quê Rei de Lisboa, disse come tude português que vai pra terra d’África vai pra ensinar amor na nome de Cristo. Mas ê mentira, pamode se els ia na nome de Cristo, desde quel tempe antigue atê hoj-im-dia, ês tude, branco e prete, já era irmão; stava tude na mesma camada.

17.04.2011 | por Djunga Fotógrafo

Vende-se: mortos e vivos

Vende-se: mortos e vivos Apesar de abolida em 1836, persistem nas sociedades contemporâneas formas cruéis de escravatura e exploração. Hoje chamam-lhe tráfico de pessoas e é um lucrativo negócio ilícito que movimenta anualmente até 32 mil milhões de dólares – o mais rentável a seguir à droga e às armas. Moçambique não só é país transitário nos movimentos migratórios, como um importante abastecedor da indústria do sexo, trabalho doméstico e exploração infantil na vizinha África do Sul. Para além dos vivos, existem os mortos que nunca chegam a conhecer o seu macabro destino: extracção de órgãos para feitiçaria.

15.04.2011 | por Cristiana Pereira

África e os desafios da cidadania e inclusão

África e os desafios da cidadania e inclusão Ao designar de proto-nacionalista a geração de seu pai, Mário de Andrade admitiu que as lutas fragmentadas pela dignidade dos filhos da terra tinham uma vertente que levaria a uma reivindicação de tipo nacional. Ele mesmo, filho, acabou integrando a geração que luta pelos direito à auto-determinação e independência, e fê-lo com a ideia de que a Nação era um instrumento utilitário para unificar lutas fragmentadas. Ou seja, era uma invenção social conveniente que ganhou forma com a contribuição dos próprios protagonistas. Nada de diferente em relação ao pan-africanismo, outra construção hipotética, inventada pela diáspora militante, que não dispunha de identificação territorial própria no continente.

11.04.2011 | por Carlos Lopes

Artes em alguma África e demorou tanto tempo

Artes em alguma África e demorou tanto tempo A partir dos anos sessenta, há uma ebulição em muitos países africanos com a criação de escolas de arte. A par das primeiras exposições de autodidactas, acontecem os primeiros festivais de artes negras e até a fotografia de autores africanos se impõe em África, em países europeus e em alguns fóruns nos EUA. Está em fase de redacção a história do que foram estes movimentos artísticos, as suas escolas, os seus protagonistas, a sua difusão internacional, mas uma coisa já sabemos: ela foi desigual e heterogénea conforme os países, a natureza do ex-colonizador, a maior ou menor presença de artistas e escritores autodidactas, assim como a maior ou menor opção pela escolha da escrita em línguas universais ou em línguas locais, com diferentes impactos na comunidade literária internacional.

08.04.2011 | por António Pinto Ribeiro

A revolução egípcia: dez anos de gestação

A revolução egípcia: dez anos de gestação Em vez de surgir, subitamente, do nada, a revolução egípcia é o resultado de um processo que se foi gerando ao longo da década anterior.

04.04.2011 | por Hossam el-Hamalawy

Alerta de crise alimentar em gestação

Alerta de crise alimentar em gestação Apesar da atual subida dos preços não ter ainda alcançado os níveis de 2008, hoje os riscos são mais elevados para as populações fragilizadas sem condições de melhorar o seu poder de compra

02.04.2011 | por Nicole Guardiola

Inês não é morta

Inês não é morta É sempre escuro no país do futuro porque falta fazê-lo, e ninguém o fará senão nós. Portanto, quanto a Atlânticos e Índicos em todas as suas margens falantes de português, acredito que Inês não é morta. Depende de haver quem fale e quem escute, como podemos escutar Lula Pena e ela ser fado, morna ou Caetano Veloso, sendo única: ela própria.

01.04.2011 | por Alexandra Lucas Coelho

Sair do paradigma da dívida, a partir da leitura de João Vário

Sair do paradigma da dívida, a partir da leitura de João Vário João Vário (João Manuel Varela, 1937-2007), poeta caboverdiano. Em toda a poesia deste autor encontramos o mesmo imenso obstáculo à decifração – perseverança na opacidade, que se gera pela reflexão que hesita e pela atenção ao que vem, o nascer do mundo, na sua irreconhecível e demasiado próxima escrita. Estamos perante uma afirmação da poesia como enigma desencadeador de enigmas, isto é, como pensamento inspirador de pensamento.

31.03.2011 | por Silvina Rodrigues Lopes