Irmãos de língua, a cultura brasileira ganha terreno em África

Não se pode entender o Brasil sem entender África. Felizmente há indícios nesse sentido, uma vez que o gigante da América Latina acorda de um sonho encerrado em si mesmo (ainda marcas de uma longa ditadura militar e fechamento) e, olhando para o mundo, ganha curiosidade pelo continente dos seus ancestrais. Desta vez esta se dirige a uma África mais moderna, não apenas à da história do tráfico negreiro ou a matriz africana na composição do país, com orixás e samba à chegada. Não desmerecendo a procura incessante por esse vínculo antigo afro-brasileiro, refiro-me a novas relações que se nutrem de outros estímulos.

Antes de mais, há que dizê-lo, é uma relação movida pelo capital. Um dos pontos altos da política externa implantada em 2003 pelo ex-presidente Lula da Silva foi reforçar a relação económica com África. Em muitas viagens interatlânticas, fechou negócios, aumentou a representação diplomática do Brasil em países africanos de 18 para 34, incentivou cooperações (inclusive bolsas de estudo para estudantes africanos) e parcerias em vários sectores.

Depois vem a cultura, sempre a reboque da economia. Também dentro do Brasil se procura compreender a diversidade e atualidade cultural africana, com mais encontros, festivais de música, teatro, publicação de livros e convites a autores lusófonos. Outro factor interesante é a inclusão do ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos de ensino público brasileiro que tem procurado combater a profunda ignorância do Brasil quanto ao seu património de cultura negra, contaminações e resistências do Atlântico negro, desde o passado esclavagista. A crescente atenção àquilo que o continente africano produz atualmente também está a dar os seus frutos mas ainda há um longo caminho a trilhar contra visões ultrapassadas, homogenizantes e essencialistas.

pintura de Heitor dos Prazerespintura de Heitor dos Prazeres

Contribuindo ainda para uma imagem mais positiva e complexificada de África no Brasil, tem sido a significativa presença brasileira nos países africanos de língua portuguesa nos últimos anos. Em Angola, os laços diplomáticos e de soldiariedade são antigos (o Brasil foi o primeiro a reconhecer a independência de Angola, em 1975) e são atualmente fortalecidos por relações económicas: a Petrobrás chegou estrategicamente ao território que é hoje o terceiro maior produtor de petróleo de África; na construção de imobiliário e infra-estruturas. No que toca a estradas, saneamento, urbanização, e reconstrução do pós-guerra, o Brasil participa com as suas empresas (símbolo disso é a presença, desde 1984, da Odebrecht em Angola). Também Moçambique se revela um apelativo parceiro económico, na exploração de recursos como o carvão e o gás (caso da empresa brasileira Vale que investe instensamente na extração de carvão). Outra área com forte troca brasileira é a comunicação: empresas de audiovisuais e publicidade têm levado a Luanda técnicos brasileiros (com salários muito inflacionados em relação aos dos cidadãos locais), e formatos que em muito contagiaram o tipo de consumo, um modo de comunicar, e até de marketing político (desde as campanhas eleitorais às imagem do partidos). 

É também incalculável a influência das maiores emissoras de TV brasileiras – a Globo e a Record em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. Em certos televisores destes países o sotaque brasileiro ouve-se de manhã à noite, seja no formato de novelas, concursos ou notícias sobre o mais remoto vilarejo do Brasil. Os angolanos e moçambicanos estão a par de todas as novidades, das “estrelas” de ocasião, dos termos de calão, das tendências, dos dramas amorosos, e isso revela-se na maneira de vestir, de conviver e de construir frases, estendendo-se o português à afinidade cantada de ambas as normas, do Brasil e de Angola. Depois, a imparável questão linguística que introduz constantemente novos termos no português africano, ultra-criativo, tal como o português do Brasil. O movimento é de ambos os lados: sem esquecer como inúmeras palavras de origem banto - como quitanda, fubá, cochilo, bunda  - influenciaram o português do Brasil, em Angola usa-se também “bufunfa” como no Brasil, para dizer dinheiro, tema omnipresente na vida quotidiana

Há muitos anos que as novelas brasileiras fazem parte do quotidiano dos angolanos, prova disso é o célebre caso do mercado Roque Santeiro, um dos maiores mercados ao ar livre que ganhou este nome em Luanda devido à novela de grande sucesso exibida na década de 80 pela Globo. Mas agora os canais brasileiros encontram neste mercado um potencial que vai a par de toda a sua política externa em África, dirigindo programas e eventos que fidelizem milhões de telespectadores, foi o caso do Dia da Amizade Angola-Brasil, da Globo (2009), com um grande espetáculo de artistas em Luanda. Convidados como a banda Calypso, o apresentador Luciano Huck, a Xuxa e sua filha Sacha, e muitos outros convidados da cultura de massas brasileira. A Record com cinco escritórios em África e programação feita localmente, é também um sucesso de audiências em Moçambique e Cabo Verde, estando a igreja evangélica, a sua doutrina e influência cada vez mais implantada nestes países.

É certo que a influência excessiva da televisão brasileira nos hábitos e costumes dos países da África Lusófona, uma certa imposição de padrões cultural, provocou crises de “identidade” e dúvidas. Tem havido chamada de atenção de opinadores sobre a arma poderosade que a cultura mediática significa e que a reconstrução do país, nas suas diversas formas, deve passar por uma busca de paradigmas próprios, capazes de tirar o melhor partido destas relações sem ter de importar no mesmo pacote toda uma forma de estar e pensar. 

Além dos propósitos económicos óbvios, sejam eles um acesso privilegiado a matérias-primas e novos mercados africanos para uma economia pulsante brasileira, os países africanos de língua portuguesa desenvolveram uma relação cultural muito forte com o Brasil. “S. Vicente é um brasilinho”, cantava Cesária Évora numa ilha onde o Carnaval é pulsante e onde existe na praia da Laginha um calçadinho e não um calçadão mas lá estão a ginga e a informalidade de passerele. São sobejamente conhecidos os penteados e a vida das atrizes brasileiras: proliferam capas de revista com Taís Araújo e Juliana Paes. A influência da cultura popular é um facto consumado, mas seria interessante que outro tipo de trocas culturais fossem mais recorrentes. 

Relação musical 

Encontros na diáspora, descoberta recrípoca de sonoridades, familiaridade rítmica fazem da relação musical de Angola e Brasil igualmente uma história com barbas. 

O cantor angolano Waldemar Bastos chega ao Brasil e convive com músicos como Chico Buarque, João do Vale, Elba Ramalho, Djavan e Clara Nunes, e outros que tinham, em finais dos anos setenta, integrado o Kalunga Projecto em Angola, que foi a maior delegação brasileira artística de visita a outro país. “Estamos Juntos”, de 1983, é um marco definitivo na sua carreira, onde podemos recordar “A Velha Chica” ( “Xê, menino, não fala política”), e outros nomes como Dorival Caimmy e Martinho da Villa e um Waldemar na capa que mais parece o Caetano Veloso. Ainda nesse ano teve lugar “O Canto livre de Angola”, projecto sonhado por Martinho da Vila (grande mediador da música dos dois lados do Atlântico), com vários cantores angolanos como Filipe Mukenga (que mais recentemente tambem gravou com Zeca Baleiro), André Mingas (com muita influência da MPB na sua produção), Carlos Burity, Elias Dya Kimuezo. Maria Betânia, Milton Nascimento e Chico Buarque também já foram cantar a Luanda, e recentemente Lenine participou no Festival de Jazz de Luanda (2010). A brasileira Mart’nália tem a participação do angolano Yuri da Cunha e da caboverdiana Mayra Andrade no seu disco de 2010. 

Nas novas gerações e no que toca ao ritmos electrónicos da periferia, há quem tente encontrar um paralelo entre o kuduro angolano e o baile funk carioca. Mas não há necessariamente um contacto directo: “o kuduro está mais próximo do tecno e do house e o baile funk foi beber ao miami bass, uma corrente de hip hop da segunda metade dos 90, de cariz mais agressivo com grande teor sexual.” É Kalaf dos Buraka Som Sistema que nos explica. “Porém, como o kuduro vem da cultura do sampling, os kuduristas foram samplar principalmente vozes do baile funk. ”

Já no hip hop, Gabriel o Pensador teve uma incontornável força junto da juventude africana ao mostrar que era tão musical e forte na mensagem o gesto de se rappar em português, abrindo o potencial que a língua portuguesa pode ter, inclusive para passar ironicamente mensagens de crítica às injustiças e corrupção nos seus países. Alguns membros do rap underground angolano, como Keita Mayanga ou MCK mantêm uma relação muito viva com a música brasileira. 

Literatura 

Na literatura persisten uma relação sólida e contagiante, tendo sido fundamental para todos os escritores de África de língua portuguesa passar pelo realismo mágico da América Latina, lendo por exemplo Jorge Amado. Diz Mia Couto, numa entrevista televisiva (programa Roda Viva), “depois do modernismo, e de se libertar dos modelos europeus, o Brasil encontrou uma certa África, e nós encontrámos nisso uma certa sugestão, era o que queríamos fazer, fazendo uma ruptura com o Portugal que estava dentro da língua portuguesa.” A inventividade e soltura da língua, a capacidade de integrar a cultura popular e a oralidade num discurso com idioletos próprios, foi promovendo muitos paralelos. Os exemplos são já conhecidos, Guimarães Rosa influencia Luandino Vieira que, por sua vez, influencia Mia Couto, já Ondjaki refere a sua admiração por Manuel Bandeira.  

No Teatro há festivais de língua portuguesa no Rio de Janeiro e em São Paulo, o Mindelact em Cabo Verde convida sempre companhias brasileiras, mas poderia ser mais intensivo esse intercâmbio. No campo das artes, procura-se atualizar as relações entre Brasil e África nesse olhar contemporâneo. E os artistas serão sem dúvida o maior veículo, como disruptores de uma mentalidade fechada, pouco descolonializada e preconceituosa, quebrando estereótipos e outra amarras, com a força criativa e resistente que se encontra em várias manifestações da cultura brasileira e africana. 

 

(texto escrito em 2012 para a revista alemã KULTURAUSTAUSCH)

por Marta Lança
A ler | 1 Novembro 2018 | angola, Brasil, linguagem, palop