Deslubrante Estupefação

Posfácio a Histórias Contadas - Baseadas em mitos, contos e lendas da Ilha de Santiago, de João de Deus Lopes da Silva

Os primeiros textos de João de Deus Lopes da Silva que tive a oportunidade de ler foram os poemas da sua autoria constantes da colectânea antológica Jogos Florais 12 de Setembro de 1976, publicada em 1977 pelo recém-criado Instituto Cabo-Verdiano do Livro, então dirigido pelo eminente jurista e intelectual Dr. Manuel Duarte (autor do célebre ensaio “Cabo-Verdianidade e Africanidade”, bem como de um não menos conseguido panfleto anticolonial assinado por A. Punói e constante do seu livro póstumo de ensaios literários, culturais e políticos editado em 1998 pela Spleen-Edições intitulado Cabo-Verdianidade e Africanidade, e outros Textos).
A antologia de poesia acima referida resultou do concurso literário homónimo, realizado um ano antes e do qual foi vencedor o poeta Arménio Vieira (Prémio Camões 2009) e no qual o poeta Osvaldo Osório ficou em segundo lugar, tendo sido atribuídas menções honrosas aos poetas Jorge Carlos Fonseca, João de Deus Lopes da Silva, Pedro Delgado, Vasco Martins e Vera Duarte. O livro integrava assim os textos dos galardoados de modos diversos no concurso literário acima referido e viria a constituir, tal como a revista Raízes, criada no mesmo ano de 1977, e não obstante o regime de partido único então vigente, uma importante referência do pluralismo estético-ideológico então predominante nas letras cabo-verdianas nesses tempos inaugurais do Cabo Verde independente e soberano. Mais tarde, viria a ler a sua colectânea de poesia intitulada Ressaca e publicada, em edição do autor, em 1982, na sua cidade natal da Praia.
Da leitura desses textos poéticos, tinha-me ficado a impressão de um autor preocupado em retratar o nosso meio ambiente e social mediante um olhar e uma mundividência autoral impregnados de telurismo e de um grande apego às coisas da terra e aos pequenos e grandes dramas das nossas gentes, olhar e mundividência esses, aliás, muito característicos tanto da literatura claridosa, em especial da poesia de Jorge Barbosa, como também das vagas neo-claridosas que se lhe seguiram (como se pode, aliás, verificar no António Nunes do livro Poemas de Longe, de 1945) e que muito marcaram e continuam a marcar as modernas letras cabo-verdianas. Ficou-me, ademais, ressaltado no espírito o forte halo nostálgico que, na minha primeira impressão de aprendiz de poeta e agora confirmada na minha actual condição de poeta e de ensaísta, impregnava os mesmos textos e de que o poema “Trapiiche” é um exemplo emblemático.
Foi, pois, com acrescida curiosidade que, já depois da fundação do Movimento Pró-Cultura (um grupo literário-cultural, de matriz geracional e de cariz plural e eclético, fundado na cidade da Praia em 22 de Março de 1986, por coincidência também o ano do falecimento do Sr. Pantxol, nome por que era carinhosamente conhecido e tratado nas suas cidade, ilha e terra natais o autor em referência), recebi, enquanto Director da Fragmentos (revista do mesmo Movimento Pró-Cultura, cujo primeiro número foi dado à estampa em Setembro de 1987), alguns inéditos em prosa do mesmo autor, para aquilatar das possibilidades da sua publicação na mesma revista. O portador de tão valiosa foi Tober (nome de casa por que é conhecido António Carlos Lopes da Siva, um dos filhos do escritor ora em pauta e actual vereador da cultura da Câmara Municipal da Praia). A inicial curiosidade transformou-se rapidamente em agradabilíssima surpresa embebida de uma certa comoção em razão do teor dos textos, das temáticas abordadas nos mesmos textos e de alguma rebelde virulência retórica que deles emanava.

Com efeito, para além de responder a um dos mais importantes desideratos da revista Fragmentos e que, a par da publicação de obras de novos escritores, consistia em trazer a público r as páginas esquecidas de escritores nossos já falecidos (na senda, aliás, do que fizera a revista Raízes pela mão e pelo empenho de Félix Monteiro em relação, por exemplo, a Eugénio Tavares e Guilherme Dantas), os textos de João de Deus Lopes da Silva respondiam ao programa da revista em contribuir para dar a conhecer os autores que vinham contribuindo, e neste caso de forma decisiva, para o alargamento temático e estético-ideológico do campo de jurisdição da literatura cabo-verdiana e, em especial, da sua prosa de ficção. Tanto mais que, como se sabe, os autores claridosos fundadores se debruçaram preferentemente na sua prosa de ficção, e pelas razões memorialísticas e vivenciais amplamente aduzidas e fundamentadas por Arnaldo França, sobre as ilhas das quais eram originários e/ou nas quais viveram e que, por isso, melhor conheciam porque, na sua óptica, delas possuíam um conhecimento mais directo, vivenciado e vívido, ilhas essas que, por outro lado, eram sinónimas de pessoas e lugares localizados em São Nicolau, São Vicente e Santo Antão.

Dessa circunstância quiseram alguns polemistas, com destaque para o autor de Consciencialização na Literatura Cabo-Verdiana (o livrinho maldito, no dizer de Gabriel Mariano) publicado em 1963, pela Casa dos Estudantes do Império e que pretendeu demolir não só os pressupostos político-culturais como também o essencial ou, pelo menos, grande parte da obra literária e ensaística dos três escritores claridosos fundadores) extrair a ilação de que esses mesmos poetas e prosadores claridosos padeceriam de um certo barlaventismo literário e político-cultural imputando-lhes ademais preconceitos culturalistas eurocêntricos e/ou , como agora diria Gabriel Fernandes, lusitano-crioulos, os quais estariam na base da sua deliberada pretensão de arredar a ilha de Santiago da literatura e da cultura caboverdiana erudita em razão da alegada maior africanidade e negritude da grande ilha no cômputo geral das ilhas cabo-verdianas.
É a circunstância acima referida que também explica o grande impacto que posteriormente viria a ter a obra neo-claridosa e neo-realista de Teixeira de Sousa quando o mesmo autor se abalançou a alargar e aprofundar as temáticas claridosas tradicionais, abordando questões típicas, senão singulares, da ilha do Fogo, como o exacerbado racismo anti-negro da aristocraca crioula branca da ilha do vulcão e a estrutura social de matriz escravocrata-latifundiária e a sua decadência com correlativa ascensão social do mulato e do negro da mesma ilha.
A surpresa embebida de comovido deslumbramento a que acima me referia fundava-se na circunstância de me deparar com um autor que, pela primeira vez na história da literatura caboverdiana, escrevia, e de forma positiva e afirmativa, sobre grandes mitos, estórias, lendas e factos históricos relacionados com a história da ilha de Santiago e que, por isso, vinham sendo transmitidos por via oral de geração em geração e integravam de forma indelével a memória colectiva das gentes da ilha maior e primordial de Cabo Verde.
Chã das Caldeiras Fogo Cabo VerdeChã das Caldeiras Fogo Cabo Verde
Lugar de destaque nesse património mítico e lendário ocupavam e ainda ocupam as histórias relativas à Revolta de Ribeirão Manuel, com os seus homens e as suas facas, as suas crianças a ajuntar as pedras e as suas mulheres e os seus machados sob a liderança da célebre Bombolon de Melo, tal como se vem preservando nas tradições orais da ilha de Santiago e vem sendo recriado por poetas como Kaoberdiano Dambará (pseudónimo de Felisberto Vieira Lopes), Nzé de Sant´Y Ago (nome literário ou pseudoheterónimo de José Luís Hopffer C. Almada) ou Danny Spínola.
Idêntico lugar de destaque nas narrativas orais e na memória colectiva das populações da ilha de Santiago ocupou e ainda ocupa Lázaro, o Salteador, uma espécie de Robin dos Bosques da grande ilha, com a sua famosa cova (gruta ou caverna), onde alegadamente se refugiava depois das suas lendárias façanhas contra as autoridades escravocratas e latifundiárias da época. Sendo uma figura com lugar cativo na mitologia da ilha de Santiago, Lázaro foi uma figura realmente existente na atribulada história das ilhas, à semelhança de Matias Pereira, o líder dos Valentes de Julangue, e de outros líderes de quilombos e de bandos de foragidos da clausura e da desumanidade da escravocracia, por isso anatemizados com o estigma de vadios. Lázaro, figura tão realmente existente no atribulado passado histórico caboverdiano que, segundo informações do malogrado Pedro Freire Delgado, importante poeta em língua cabo-verdiana da nossa geração e, na altura da transmissão da mesma informação, oficial de justiça no juízo criminal do tribunal regional da Praia, os autos do processo-crime, no qual foi condenado à morte por esquartejamento, ainda jazem no mesmo tribunal judicial da cidade da Praia.
Relembre-se que, a par de outras revoltas populares, como as dos camponeses dos Engenhos e da Achada Falcão em Santa Catarina de Santiago, dos esfaimados da ilha de S. Vicente liderados pelo mestre-marceneiro Ambrósio que Gabriel Mariano enalteceu, mitificou e imortalizou como capitão Ambrósio, a revolta de Ribeirão Manuel foi muito utilizada nas campanhas de mobilização política popular para a independência, especialmente na sua função de símbolo e prova da resistência do povo caboverdiano contra o poder colonial e os seus apaniguados internos consubstanciados nos agentes de autoridade e nas classes possidentes, em especial nos famigerados morgados, tanto os de extracção reinol / metropolitana como os de feição nativa islenha caboverdiana.
Tal como previsto, a publicação na revista Fragmentos da novela “Lázaro, o Salteador” e do conto “Revolta em Ribeirão Manuel” tiveram um forte impacto e asseguraram, desde logo, ao seu autor um elevado prestígio, especialmente entre as então emergentes gerações de letrados caboverdianos, e um lugar destacado na literatura das ilhas, em especial na prosa de ficção.
Com efeito, esses dois textos vieram de alguma forma retomar o que, na verdade, tivera na ilha de Santiago o seu início baptismal, isto é, o lançamento dos alicerces da prosa de ficção caboverdiana fundada na história da ilha maior e primeira de Cabo Verde e materializada no romance O Escravo, de José Evaristo de Almeida. Relembre-se que este último romance, publicado inicialmente no ano de 1856 e reeditado por Manuel Ferreira nos anos oitenta do século XX, tem como epicentro o amor de um escravo (João), pela sua ama/dona mestiça e decorre no contexto da sociedade escravocrata caboverdiana então em desagregação e, simultaneamente, em rápido processo de ascensão social de novas elites mestiças crioulas na primeira metade do século XIX. A intriga do mesmo romance tem como pano de fundo alguns acontecimentos marcantes na história de Cabo Verde, como, por um lado, a malograda rebelião anti-escravocrata de Monte-Agarro que, liderada por Gervásio, Narciso e Francisco, pretendia instalar uma espécie de Haiti caboverdiano no chão de Santiago, doravante almejada livre de terratenentes e negreiros brancos, e, por outro lado, a reacionária revolta branca reinol do batalhão caipira, de alguma forma também retratada, se bem que forma assaz livre e por demais “criativa”, no filme A Ilha dos Escravos, do realizador português Francisco Manso.
Relembre-se ainda neste contexto que, segundo alguns autores, como a especialista de literatura caboverdiana, Elsa Rodrigues dos Santos, uma das falas do escravo João reivindicando a sua plena humanidade e a dos seus companheiros de raça e de infortúnio representa o primeiro grito da negritude em terras cabo-verdianas.
Depois de um lapso de tempo imediatamente sequente à publicação do romance O Escravo que ficou inicialmente marcado pelo protagonismo de vários autores nativistas das ilhas, de entre os quais o bravense Eugénio Tavares, o maiense Luis Loff de Vasconcelos e alguns prosadores santiaguense, como, por exemplo, António Arteaga, com o seu Amores de uma Creoula (obra romanesca publicada em forma de folhetins no célebre jornal praiense A Voz de Cabo Verde), a literatura cabo-verdiana cultivada por santiaguenses viria a relevar-se com maior vigor e mais assiduidade no domínio da escrita poética graças ao labor de vates inapagáveis, como Jorge Barbosa (autor igualmente de um romance inacabado, ainda inédito, intitulado Bia Graça, e de alguns contos publicados na revista cultural praiense, mais conhecida e, até, celebrizada como Boletim Cabo Verde), António Nunes, Arnaldo França, Mário Fonseca e Arménio Vieira, aos quais se viria juntar depois um grande número de poetas de mérito revelados no período pós-colonial, em especial nos anos oitenta do século XX.
Na prosa de ficção, foi quase total o silêncio santiaguense durante quase toda a gesta modernista do período colonial, iniciada com o movimento claridoso e com os seus emblemáticos prosadores Baltasar Lopes e Manuel Lopes (aos quais se juntaria, nos anos quarenta do século XX, o escritor sanvicentino António Aurélio Gonçalves) e continuada por escritores da segunda e das sequentes vagas neo-claridosas e, até, anti-claridosas, como Henrique Teixeira de Sousa, Teobaldo Virgínio, Luís Romano ou Gabriel Mariano. Felizmente que o silêncio ficcional que então envolveu e obscureceu a ilha de Santiago não foi completo e total pois que nesse período foram revelados alguns escritores santiaguenses quer no célebre e eclético Boletim Cabo Verde, como nos casos de Maria Helena Spencer e Pedro Duarte, quer ainda na própria revista Claridade, já na sua terceira fase, como no caso de Virgílio Pires.
Neste contexto, representa João de Deus Lopes da Silva um caso assaz sui generis, pois que, abstraindo-nos do facto de ele poder ter-se iniciado nas lides literárias nos anos trinta do século passado com a publicação de duas novelas, cujo teor, aliás, o autor das presentes linhas confessa desconhecer de todo em todo, designadamente a novela Os Cinco Milhões, em 1937, e a novela Eterno Amor, em 1939 (não sendo todavia de se descartar a possibilidade de o autor dessas obras ser um seu homónimo), viria a conseguir uma menção honrosa num concurso literário organizado pelo acima referido Boletim Cabo Verde e, consequentemente, a merecer a publicação na mesma revista cultural de um conto (“Codé”), à semelhança, aliás, do que ocorreria com outros contemplados por essa revista com prémios de diverso nível, como, por exemplo, Gabriel Mariano (futuro grande escritor, poeta e ensaísta) ou José Leitão da Graça (futuro político nacionalista e radical de esquerda).
Desde então, isto é, desde esses tempos do hegemónico consulado literário-cultural da revista Claridade e dos seus prestigiados mentores, desde esses áureos tempos do Boletim Cabo Verde, do qual aliás os claridosos, com destaque para Jorge Barbosa, eram assíduos colaboradores, desde esses tempos das folhas culturais contemporâneas das duas importantes revistas anteriormente referenciadas, muita coisa mudou no panorama literário e cultural caboverdiano, em especial no período inaugurado com o advento da soberania política do povo das ilhas.
Uma plêiade de novos escritores de origem santiaguense, incluindo contistas e romancistas, como Arménio Vieira, Manuel Veiga, Tomé Varela da Silva, Fernando Monteiro, Danny Spínola, Ivone Ramos, Mário Lúcio Sousa ou António Ludgero Correia, fez a sua primeira aparição no palco das ilhas, ou viu a sua obra melhor consolidada, do ponto de vista editorial, como nos casos de Maria Helena Spencer, Euclides Menezes, Orlanda Amarílis, Pedro Duarte ou Daniel Benoni, sendo todavia certo que, nem sempre, a origem insular santiaguense de alguns autores implique a preferência desses autores pelo tratamento de temáticas predominantemente santiaguense, como é assaz evidente nos casos de Orlanda Amarílis e Ivone Ramos que, nascidas em Santa Catarina de Santiago, cresceram, amadureceram e fizeram-se adultas na ilha de São Vicente, onde, aliás, estava instalada até aos anos sessenta do século XX o único liceu oficial em funcionamento no arquipélago caboverdiano.
Do que vem dito, pode-se concluir que a relevância da publicação dos dois referidos textos de ficção de João de Deus Lopes da Silva também residiu em ter contribuído, e de forma insofismável, para o desfazer desse longo e enigmático silêncio santiaguense no que respeita à prosa de ficção sobre a grande ilha e a sua rica, multissecular e variegada História.
É também no contexto da consolidação editorial da sua obra e da sua consequente sedimentação aos olhos do grande público que é dada à estampa a presente colectânea de textos de ficção de João de Deus Lopes da Silva que, como referido, tinha anteriormente publicado duas novelas e um conto (“Codé”). A integração do conto “Codé” na presente colectânea faz remontar a sua escrita aos anos cinquenta do século passado, de outro modo asseverando-se, e por forma convincente, designadamente mediante o testemunho de Helena Lopes da Silva, a filha do autor mais directamente comprometida com a sua edição, que os demais textos de Histórias Contadas (…) foram escritos nos anos cinquenta e sessenta do mesmo século (em todo o caso, antes do 25 de Abril de 1974), isto é, num período histórico marcado, por um lado, pela impiedade e pela ferocidade da censura colonial-fascista e, por outro lado, pela exacerbação do antagonismo histórico entre os povos coloniais e a metrópole imperial, exacerbação essa, aliás, reflectida na aparição do Movimento da Nova Largada, de natureza político-cultural nacionalista e protagonizada por poetas, ensaístas e contistas do calibre de Aguinaldo Fonseca, Manuel Duarte, Gabriel Mariano, Ovídio Martins e Yolanda Morazzo, bem como no agudizar do teor inconformista e contestatário da escrita literária de alguns claridosos, como se evidencia nalguma poesia de Jorge Barbosa e Osvaldo Alcântara (pseudónimo de Baltasar Lopes da Silva) datada desse período, ou, pelo menos, no aumento e exacerbação do seu grau de denúncia das mazelas socias maiores que apoquentavam o povo das ilhas (se bem que, por vezes, em modo assaz resignativo e politicamente conformado) , como em Flagelados do Vento Leste e Chuva Braba, os dois emblemáticos romances de Manuel Lopes.
Para além de significar a consolidação editorial da obra ficcional de João de Deus Lopes da Silva, a presente edição do conjunto dos seus textos de prosa de ficção (com exclusão das novelas acima mencionadas dadas à estampa, como já referido, nos fins dos anos trinta do século XX) ocorre num contexto muito especial.
Esse contexto, de nítido recorte pós-colonial, caracteriza-se pela circunstância de os escritores começarem a abalançar-se num mais aturado e aprofundado labor de desvendamento da História de Cabo Verde, como se verifica nos casos paradigmáticos de romances dos ciclo foguense, mindelense e pan-insular de Henrique Teixeira de Sousa (um contemporâneo geracional de João de Deus Lopes da Silva, tal como o seu conterrâneo praiense, António Nunes), de Manuel Veiga (com Diário das Ilhas, a sua segunda obra romanesca), de Germano Almeida ( autor do romance A Morte do Ouvidor, que se debruça sobre a liquidação, nos fins do século XVIII, de parte importante da elite santiaguense), Carlos Araújo (autor do romance A Maldição de Ezeulu, muito inovador do ponto temático, pois que narra a chegada de negros cativos a Cabo Verde, a sua anterior vida livre no continente africano, a sua captura e o seu papel no povoamento da ilha do Maio e a as vidas de alguns dos seus descendentes miscigenados e crioulos), para não nos referirmos aos romances de temática caboverdiana da escritora portuguesa de ascendência islenha, Isabel Barreno, com especial destaque para O Senhor das Ilhas.
Tal contexto histórico-literário é, por outro lado, caracterizado pelo surgimento de um campo científico e académico caboverdiano também muito marcado por questionamentos identitários e historicistas e nos quais Santiago ocupa necessariamente um lugar de grande relevo, como se comprova nos vários volumes da História Geral de Cabo Verde e nas obras da autoria individual de investigadores como Daniel Pereira, Elisa Andrade, António Correia e Silva, Iva Cabral, Zelinda Cohen, Gabriel Fernandes, José Carlos Gomes dos Anjos, entre outros. Nesta óptica, torna-se interessante constatar que os empreendimentos literários contemporâneos de teor historicizante, tanto no domínio da prosa de ficção, como no domínio da poesia (como amplamente ilustrado, por exemplo, nas obras de Timóteo Tio Tiofe (um dos pseudoheterónimos de João Manuel Varela), José Luís Hopffer C. Almada (em especial naqueles longos poemas atribuídos a Nzé de Sant´y Ago) e José Luiz Tavares, vêm ocorrendo paralelamente com a (e a par da) consolidação e do alargamento, para além dos legados de Senna Barcelos, de Henrique de Santa Rita Vieira e do icónico António Carreira e da sua neste caso emblemática obra Cabo Verde - Formação e Extinção de uma Sociedade Escravocrata, dos conhecimentos científicos sobre a História de Cabo Verde, incluindo das várias revoltas, insurreições e insurgências que tiveram lugar no arquipélago saheliano.
Deste modo, os dados arrolados pelas ciências históricas e por outras ciências humanas e sociais podem constituir-se tanto como importantes subsídios para a sua recriação ficcional e literária, como também podem constituir-se em focos polarizadores da interpretação da história em confronto directo com a criação literária ou artística, como se pode verificar, por exemplo, em relação à Revolta do Monte-Agarro e, até, em relação à Revolta de Ribeirão Manuel e ao papel que nela, no seu incentivo, na sua condução, na sua repressão e na contenção dos seus resultados efectivos ou desejados terão desempenhado a mítica Ana da Veiga (popularmente celebrizada como Nhanha Bongolom, como na canção de Orlando Pantera alusiva à mesma Revolta, ou Bombolom di Melo, como é mencionada na poesia de Kaoberdiano Dambará ), Artur Marinha de Campos (o governador português republicano radical, anticlerical e amigo e correligionário de Eugénio Tavares e de outros nativistas caboverdianos em função ao tempo da eclosão da Revolta de Ribeirão Manuel) ou o padre caboverdiano António Duarte da Graça (inimigo jurado de Marinha Campos contra quem escreveu o folheto intitulado Quatro meses e meio de uma administração ultramarina a pontapés). Curiosamente, enquanto que Ana da Veiga é recriada no texto de João de Deus Lopes da Silva com as vestes de Maninha, a mulher de Virgolino, o líder da Revolta de Ribeirão Manuel nos termos do mesmo texto, e humilhadora-mor do famigerado sargento Machado, o chefe português do destacamento policial de repressão cuja boca é transformada em penico pelas mulheres revoltosas de Ribeirão Manuel, todas as outras personalidades históricas emblemáticas, como o governador Marinha de Campos e o padre Duarte estão ausentes do texto ficcional de João de Deus Lopes da Silva, apesar de muito referenciados pela historiografia e por académicos, nossos contemporâneos desta primeira década do século XXI, como, por exemplo, na obra Política e Cultura-As Revoltas (Engenhos, 1822), Achada Falcão (1841), Ribeirão Manuel (1910), livro resultante da dissertação de doutoramento de Eduardo Adilson Camilo Pereira e publicado, em edição de autor, em 2013, para além de artigos, como o de Pedro Martins publicado na revista Unidade e Luta, ou de textos de ficção, como o do escritor francês Jean Yves Loude.
Certo é que todos (académicos, estudiosos e escritores) parecem coincidir e concordar em pontos essenciais, tais como:
i. O momento da deflagração da revolta, localizado num tempo imediatamente subsequente à proclamação da república portuguesa, a 10 de Outubro de 1910, e à sua implantação nas ilhas.
ii. O centro da revolta, Ribeirão Manuel, planalto situado, à semelhança dos lugares onde ocorreram as anteriores Revoltas dos Engenhos, de 1822, e da Achada Falcão, de 1841, no concelho de Santa Catarina da ilha de Santiago, e depois tornado mítico em razão das repercussões políticas e simbólico-culturais da revolta homónima.
iii. As razões da revolta dirigida contra as prepotências e os abusos dos grandes proprietários fundiários, popularmente conhecidos como morgados, e o sistema económico semifeudal no qual se sustentavam e que se baseava primacialmente na sobre-exploração dos camponeses e no arbítrio na estipulação de rendas exorbitantes e na sua extorsão quase sempre em detrimento e para grande prejuízo dos camponeses sem terra.
iv. A participação das mulheres dos camponeses na revolta e o incidente da humilhação máxima do sargento Machado.

Independentemente dos conhecimentos de teor científico e alicerçados nos arquivos escritos que sobre elas se puderam (ou não) acumular, a Revolta de Ribeirão Manuel e as façanhas subversivas de Lázaro, o Salteador, para além de terem realmente acontecido e, assim, integrarem a factualidade real da história, foram-se concomitantemente constituindo em repositórios e arsenais de lendas, de mitos e de histórias orais, e em lugares de acumulação, de sedimentação e de preservação dos ingredientes que perfazem a singularidade cultural e histórica do Badio, durante muito tempo entendido e percepcionado como o rosto humano e caboverdiano originário da ilha de Santiago e do seu interior rural mais castiço e autêntico.
É nesses repositórios da memória colectiva popular que parece ter investido João de Deus Lopes da Silva para retirar o essencial da substância narrativa conforrmadora do seu imaginário ficcional, da sua imaginação e do seu poder (re)crIadores da intriga e do enredo dos dois textos literários integrantes da presente colectânea, por isso mesmo, intitulada pelo próprio autor Histórias Contadas- Baseadas em Mitos, Contos e Lendas da ilha de Santiago.
Relevam no conjunto dos textos agora dados à estampa em forma de livro dois aspectos fundamentais:
A utilização de uma linguagem literária muito próxima daquela inventada, burilada e introduzida pela primeira vez, e de forma sistemática, na literatura caboverdiana, em especial na sua prosa de ficção, pelos claridosos fundadores, mormente no que respeita à deliberada (e por vezes, artificiosa, porque não sustentada numa língua e numa linguagem orais realmente existentes) contaminação da língua portuguesa dos textos por crioulismos vários com o fito de emprestar uma marca inconfundivelmente caboverdiana aos lugares, aos hábitos, aos perfis humanos, às falas (como, aliás, se pode confirmar no glossário anexo no final das narrativas), mesmo sem a performance filológico-linguística de um Baltazar Lopes do romance Chiquinho, ou a transfiguração semântica e morfossintáctica de um Virgílio Pires do conto “Herança” e de outros textos de ficção da sua autoria dados à estampa na revista Claridade, no Boletim Cabo Verde e na antologia da moderna ficção caboverdiana organizada por Baltasar Lopes da Silva e editada pela Imprensa Nacional de Cabo Verde, em 1960, por ocasião e no quadro das comemorações dos “quinhentos anos do achamento de Cabo Verde”.
Relembre-se que essa linguagem literária, por alguns, e por nós próprios, denominada de português literário caboverdiano, tem servido de ersatz e alternativa assaz útil ao uso do crioulo caboverdiano como língua literária e tem sido utilizada em obras da grande maioria dos escritores caboverdianos pós-claridosos, quer naquelas do período colonia (como as de Manuel Ferreira ou Teobaldo Virgínio) quer as do período pós-colonial (como as de Orlanda Amarílis, Onésimo Silveira ou Germano Almeida).
Curiosa é a inserção de frases inteiras em crioulo no corpo do texto em português com o fito e o intuito da obtenção de um efeito hilariante em contextos solenes nos quais a diglossia é rainha, designadamente em festas de casamento nas quais alguns discursos são proferidos em português mesmo por quem não domina suficientemente essa língua dos contextos formais e obrigatória na escolarização dos filhos das ilhas, sobretudo quando também era língua do poder e da sujeição coloniais.
A sua impregnação de um forte espírito de revolta contra as injustiças e os abusos correntes numa sociedade arcaica marcada pela escravocracia e pelo latifúndio (morgadio na linguagem dos textos e da tradição popular caboverdiana, relevando-se neste contexto os morgadios de Ribeirão Manuel e de Monte Negro) e correlativa condenação tanto moral como também em actos corajosos e efectivos de resistência colectiva ou individual. Na literatura caboverdiana, tal espírito só encontra paralelo no romance Famintos, de Luís Romano (aliás, amigo e confidente literário do autor da presente obra) e, em menor medida, no romance fundador O Escravo, de José Evaristo de Almeida, ou no conto “João Cabafume”, de Gabriel Mariano, também autor de Capitão Ambrósio, o mais célebre poema caboverdiano de revolta anticolonial e contra a fome. Extravasando um pouco, poder-se-ia dizer que, comungando do mesmo terreno sociológico e lavradas no mesmo chão, as narrativas “Lázaro, o Salteador” e “Revolta em Ribeirão Manuel” têm no livro Noti, de Kaoberdiano Dambará (pseudónimo de Felisberto Vieira Lopes) o seu correlato poético mais próximo, inserindo-se esse poema, por seu lado, na linhagem de Capitão Ambrósio, anteriormente referido, O Primeiro Livro de Notcha e alguns trechos de O Segundo Livro de Notcha, de T. T. Tiofe, entre outros poemas embebidos dos pressupostos políticos e identitários-culturalistas característicos da Nova Largada literária encetada nos anos cinquenta e sessenta do século XX cabo-verdiano e prosseguida, do ponto de vista temático e estético-ideológico, mesmo no período pós-colonial.
Isso é tanto mais relevante quando se faz questão de aqui assinalar que a obra de João de Deus Lopes da Silva é muito marcada por indagações de teor social e de cunho estético neo-realista, à semelhança da obra de Teixeira de Sousa, aliás um seu contemporâneo, como já anteriormente referido.
Essa indagações de teor social e cunho neo-realista são também por demais evidentes nos outros textos integrantes da presente colectânea, designadamente nos contos “Codé” e “Ti-Cadabra”, mesmo se menos imbuídos do espírito inconformista e insurreicional característico dos enredos de “Lázaro, o Salteador” e de “Revolta em Ribeirão Manuel” e mais conformes com o teor trágico das criações literárias claridosas, muito marcadas pelas estiagens cíclicas e suas inelutáveis consequências nos tempos coloniais de outrora, com destaque para as mortandades pela fome (as famigeradas fomes por inanição) de dezenas (senão de centenas) de milhares de caboverdianos, a emigração forçada para as roças do Sul-Abaixo (S. Tomé e Príncipe e Angola), a desestruturação familiar e social em larga escala, enfim, a devastação humana, ecológica e social das ilhas, como eloquentemente ilustrado no conto “Ti-Cadabra” e seus rememorados e contados tempos de definhamento de vidas e esperanças, por isso, exemplar da luta pela memória dos tempos de cólera e medo contra amnésia das tragédias que durante tanto tempo sitiaram o povo caboverdiano no temor e na passividade, mas também o impeliram à resiliência e à subversão dos costumes e dos hábitos de resignação contra a moral arrogante e subjugadora dos poderes dominantes da classe colonial e dos seus próceres e aliados nativos das ilhas.
Nesta óptica, pode-se dizer que enquanto “ Revolta em Ribeirão Manuel” e “Lázaro, o Salteador” podem ser inseridos, em razão do seu teor rebelde e contestatário da ordem social e política então vigente, numa literatura cabo-verdiana de feição pós (ou anti)claridosa e nova-largadista porque de resistência e de afirmação das camadas mais humildes e desapossadas do “povo que se constituiu como uma nação que saiu pela culatra do colonialismo”, nas sagazes palavras de Gabriel Mariano, os demais textos podem ser perfeitamente enquadrados numa literatura caboverdiana de teor neo-claridoso ou integrante da segunda vaga claridosa do período colonial, tal como o explicitamos num dos nossos textos sobre a obra romanesca de Teixeira de Sousa.
Devendo-se sublinhar que, no que diz respeito à inclusão e à exclusão dos texto, e segundo informação dos herdeiros, a organização do presente livro foi da inteira responsabilidade do seu autor, pareceu-nos ainda assim interessante é a inserção na presente colectânea de um texto que, aparentemente, destoa dos demais, pois que ao invés de abordar candentes questões sociais e de sobrevivência física e espiritual do povo caboverdiano confrontado com as tragédias históricas e as calamidades ecológicas que, no período colonial, assolaram a sua vida, prefere narrar os (des)amores desencontrados constantes de um suposto ou quase triângulo amoroso e as suas peripécias com final trágico narradas no conto “ Dois Amores… Uma Tragédia”. Trata-se ainda assim de uma história de atribulação e sofrimento humanos, mesmo se escamoteados por uma certa leviandade donjuanesca e confinados ao âmbito das paixões amorosas e das suas imprevisíveis consequências tanto para a protagonista feminina como paras os antagonistas masculinos. Narrativa todavia inusitada porque não muito comum na literatura caboverdiana dessa época, mormente porque destituída de um fundo social popular típico, porque inundado de miséria e de um leque variado de carências (salvo as afectivas), característico da literatura claridosa e neo-claridosa que se lhe seguiu e ainda prossegue no seu encalço, e tendo como protagonistas personagens integrantes das categorias sociais privilegiadas caboverdianas, quer as oriundas do meio rural santiaguense, quer as sediadas no meio urbano mindelense.
Por tudo o que ficou dito e pelo que, feliz ou infelizmente, não se logrou dizer, representa a presente obra um marco fundamental na literatura caboverdiana, mormente daquela que tem como temática a ilha de Santiago de Cabo Verde, pois que, cremos, contribui de forma insofismável para a colocação do seu autor e da ilha que o viu nascer e crescer num importante lugar da literatura e da escrita caboverdianas, lugar esse que, aliás, desde há muito vêm merecendo, tanto o autor como a ilha da sua naturalidade.
Lugar esse que, nas presentes circunstâncias respeitantes ao autor da presente obra, significa necessariamente um lugar de simbólica imortalidade e é, por isso, sinónimo da sua designação como um dos patronos da Academia Cabo-Verdiana de Letras recentemente criada, designação essa que certamente muito honraria essa instituição literária cabo-verdiana ainda em processo de construção.

Lisboa,18/20 e 22 de Março de 2014.

por José Luís Hopffer Almada
A ler | 4 Janeiro 2017 | Cabo Verde, contos, Histórias Contadas, Ilha de Santiago, João de Deus Lopes da Silva, lendas, mitos, Praia