Da guerra colonial: memórias e pós-memórias, transmissão e imaginação

Quando a literatura busca transmitir a experiência da violência, o resultado está determinado pela distância entre quem escreve e a realidade traumática referida. Existem, no entanto, constantes entre as representações artísticas da memória feitas pelas testemunhas directas dos acontecimentos e aquelas reelaboradas pelos seus descendentes (as chamadas pós-memórias). Os casos de António Lobo Antunes, nas crónicas, e de Paulo Faria, no texto Estranha Guerra de Uso Comum (2016), apontam para algumas semelhanças no que diz respeito à escrita da guerra no contexto português.

Embora o tema da guerra colonial seja transversal a toda a obra ficcional de Lobo Antunes, são poucas as crónicas que abordam este episódio fulcral da sua escrita. Para além das Cartas da Guerra, publicadas pelas filhas em 2005, nas crónicas só aparecem menções espalhadas à realidade dos vinte e sete meses que o escritor viveu em Angola durante luta pela independência desse país. Há, contudo, pelo menos duas crónicas em que a experiência traumática da guerra colonial faz irrupção na consciência do escritor de maneira brutal. Em Emília e Uma Noites, texto escrito em 1995, a realidade da guerra transforma – e até desvia – o processo de escrita, de uma forma muito significativa. No início e no final da crónica, a memória de Angola surge com uma força tal que apaga qualquer outro projecto de escrita:

“Desculpem: ia dar-vos uma história que se chamava Emília e umas noites e Angola, sem eu saber porquê, veio-me com toda a força ao corpo. Não sei explicar bem: já não me acontecia há muitos anos, julgava-me livre, julgava-me numa certa paz e estou a mexer a mão sobre o papel com tanta pressa e tanta raiva eu que faço tudo devagar, principalmente desenhar as palavras, eu que não vou corrigir nem uma sílaba, nem uma vírgula, nem reler isto sequer […] Foi há 24 anos, caramba. Em 1971.” (1)
É como se, face à natureza das recordações de Angola, o trabalho metódico da escrita tivesse de ser afastado para dar lugar à eclosão de um passado que não pode ser descrito com as mesmas palavras do que os temas ditos “literários”.
A mesma situação verifica-se alguns anos depois na crónica 078902630RH+, de 2006, num registo ainda mais forte:
“E de súbito isto regressa como um vómito, o mesmo enjoo, o mesmo mal estar, o mesmo nojo. […] Não consigo esquecer. […] Porque o dia em que eu esquecer mereço que alguém pregue a minha medalha no primeiro caixão. Escrevo mal porque estou a escrever com o dedo na terra. Não é uma crónica, não é já um vómito, são lugares-comuns se calhar mas não importa. Eu estive lá. Eu vi. Não pretendo fazer arte, alinhar coisas bonitas. Não sou escritor agora: sou um oficial do exército português.” (2)
Perante a memória traumática da guerra colonial, o fazer literário ficaria então suspenso à necessidade de evitar o esquecimento. Para Lobo Antunes, a dificuldade na materialização do testemunho faz com que, por vezes, a escrita da crónica seja o lugar de uma confissão impossível de comunicar pela ficção. Estes dois textos coincidem na afirmação da complexidade, para quem viveu directamente a experiência traumática, de verbalizar uma memória indelével, no seu estado bruto, apesar de o escritor dispor de toda uma gama de recursos artísticos para aceder a uma dimensão metafórica da realidade capaz de representar o horror.

Luanda | 2018 | Tatiana Macedo (cortesia da artista)Luanda | 2018 | Tatiana Macedo (cortesia da artista)
Na transmissão desta memória da guerra colonial para os seus herdeiros, isto é, para as segundas gerações de filhos e filhas destas testemunhas, o desafio perante este constrangedor silêncio pareceria manter-se apesar da ausência da “titularidade da experiência” (3). Os filhos da guerra, e nomeadamente aqueles que fazem parte da categoria específica de pessoas que “contratualiza no espaço público aquilo que seria um diálogo possível com uma memória alheia, mas profundamente marcada na vida familiar”(4), deparam-se com a mesma dificuldade em transpor para o texto a experiência traumática que herdaram directa ou indirectamente dos pais. Esta pós-memória da guerra colonial, encenada pelos descendentes dos actores directos da guerra, traz consigo um trastorno semelhante no acto de escrita.
O romance de Paulo Faria é um ajuste de contas com a figura do pai através da escrita. O narrador, filho de um médico das Forças Armadas Portuguesas, revisita as memórias familiares de África num inquérito levado a cabo após a morte do pai. O livro alterna depoimentos dos companheiros soldados do pai no Ultramar (testemunhos que, pela sua vez, vão construindo o enredo da história) e cartas do filho narrador (escritas na primeira pessoa) ao seu progenitor ausente. Para além da dimensão autobiográfica desta obra, o que me interessa aqui é a maneira como o filho reelabora o legado do pai, tão doloroso quanto silencioso, num puzzle narrativo em que as vozes e as opiniões de outrem se justapõem aos fragmentos da memória familiar. O resultado é uma notável encenação da pós-memória da guerra colonial, na qual o papel do herdeiro ocupa um lugar central na verbalização ex post facto da experiência – até aquele momento – alheia.
Na segunda das cartas, o narrador de Paulo Faria confessa o seu desassossego perante a ausência do pai, ao mesmo tempo que revela a complexidade da sua iniciativa. “Estou ávido de te conhecer as histórias precisamente porque já não estás aqui para as contar”, podemos ler (p. 55). Ora, quando escreve ao pai, o narrador consegue identificar os diferentes estratos de que se compõe a reconstituição da memória herdada:
“As histórias que contavas, as de África e as outras, tantas vezes repetidas, tinham na tua cabeça uma estrutura fixa, uma arquitectura perfeita que não admitia inversões nem saltos. […] Havia histórias de África que tinham qualquer coisa de borgesiano, laivos de realismo mágico, histórias que não me lembro de te ouvir contar de viva voz, que talvez tenha sabido pela boca da minha mãe, em segunda mão, que talvez eu próprio tenha inventado, até, nos meus delírios infantis. Histórias recheadas de pormenores que as outras, as com certificado de origem, não possuem na minha memória.” (5)
Numa reflexão que denota a lucidez do destinatário de um testemunho mediado pela transmissão familiar, o narrador de Estranha Guerra de Uso Comum estabelece uma clara distinção entre as histórias do pai, de contornos definidos, e outro tipo de histórias mais íntimas, e portanto sujeitas a uma (consciente ou inconsciente) construção pessoal. Aliás, esta segunda variante de memórias decorre de uma actividade imaginativa associada à ficção (pela referência à literatura latino-americana) e que, por conseguinte, requer uma maior intervenção por parte de quem as reelabora. Na escrita da pós-memória, a questão não residiria tanto na dificuldade em articular o trauma pela via da ficção, mas sim de afiançar a sua transmissão num acto característico de “mnemonic imagination”, para retomar a expressão de Keightley e Pickering (6).
Para o caso da literatura, no intervalo temporal que diferencia as memórias dos actores da guerra colonial (testemunhas directas) e aquelas reformuladas pela segunda geração (os testemunhos indirectos), a questão da invenção ficcional permanece presente. Se, por um lado, as representações da guerra nas crónicas de Lobo Antunes mostram a dificuldade em lidar com a memória traumática, por outro lado, a escrita de Paulo Faria revela uma consciência aumentada do poder da literatura no acto de reconstituição e reapropriação de uma memória alheia. Quiçá, a literatura da pós-memória venha a ser capaz de propor uma nova visão do trauma colonial que faça com que o dever de memória seja cumprido para além das testemunhas nestas novas narrativas elaboradas pelos descendentes, mantendo porém viva a sensação de “escrever com o dedo na terra” de que falava Lobo Antunes.
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(1) António Lobo Antunes, “Emília e Uma Noites”, Livro de Crónicas (1998), Lisboa, Dom Quixote, 2008, ed. ne varietur, p. 217 e 219.
(2) António Lobo Antunes, “078902630RH+”, Terceiro Livro de Crónicas (2005), Lisboa, Dom Quixote, 2006, ed. ne varietur, p. 112.
(3) Margarida Calafate Ribeiro, António Sousa Ribeiro, “Os netos que Salazar não teve: guerra colonial e memória de segunda geração”, Abril. Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Vol. 5, nº 11, Novembro de 2013, p. 30.
(4) ibid., p. 33.
(5) Paulo Faria, Estranha Guerra de Uso Comum, Lisboa, Ítaca, 2016, p. 59-60.
(6) E. Keightley, M. Pickering, The Mnemonic Imagination. Remembering as Creative Practice, London, Palgrave Macmillan, 2012.
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Artigo produzido no âmbito do projeto de investigação MEMOIRS– Filhos de Império e Pós memórias Europeias, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (nº648624), Programa Europeu para a Investigação e Inovação Horiz
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por Felipe Cammaert
A ler | 24 Fevereiro 2019 | imaginação, Literatura, Memoirs, transmissão